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NÃO PASSARÃO. NEM NO MUNDO VIRTUAL.

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por Élida Aquino

Cartaz da campanha Fonte: Campanha "Racismo Virtual. As consequências são reais." | Criola
     O Coletivo Meninas Black Power tem o prazer de unir sua voz à campanha "Racismo virtual. As consequências são reais." É uma iniciativa da ONG Criola, importante referência nas lutas pelos direitos das mulheres negras para nós, e a W3haus. Bem, racismo por aqui não é novidade. Racismo na internet, especialmente nas redes sociais, também não. Os números se mostram cada vez maiores e nem famosos escapam. Maju, Aranha, Taís, Michel, Tinga e nós: todo mundo no mesmo lugar. 



     Derrubamos o mito de que a questão é socioeconômica e "incolor". Não. É diário, como bem disse Taís Araújo aqui. Acontece por nossas cores (racistas não poupam você que se diz "morenx clarx" ou "marrom bombom"), a matriz de onde surgimos e, arrisco dizer, nossa postura incapaz de aceitar o abuso e permitir que o direito de circular livre por qualquer espaço e como qualquer pessoa seja oprimido por quem se considera superior. Foi o que levamos até o Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas na última Segunda-feira, local onde o lançamento da campanha liderada pelas mulheres de Criola aconteceu. Contamos o que já vimos do racismo dentro da rede e o que fazemos para (des)educar por aí. Vejam nesta matéria e aqui também.
      Sobre a campanha: o objetivo é impactar a população  e promover conscientização sobre os efeitos    da injúria racial e racismo na web. Além de estampar outdoors com comentários racistas que atacaram personalidades como Maju Coutinho e Taís Araújo, por exemplo. Os números que mostramos acima apoiam a campanha e revelam a articulação racista na internet, deixando bem visível o quanto tudo isso é real. Ainda esperamos por maiores desdobramentos.


      Por fim, vamos falar das nossas experiências. Na Segunda, pouco depois de darmos entrevistas como as que estarão mais adiante, recebemos na página comentários e mensagens ofensivas. Certamente foi resultado da exposição do nome Meninas Black Power e aparentemente são jovens articulados num grupo. Um deles, ironicamente, depois de mandar a mensagem, se arrepende e diz que "é zoeira, viu?". A comodidade em exercer a prática racista e a certeza de que a punição não virá são óbvias. Vejam:




     Aproveito para lembrar aos órgãos competentes: não adianta simplesmente localizar agressores. Façam acontecer. Nada mudará enquanto praticar atos racistas, ao vivo ou atrás de telas, servir apenas para pauta em telejornais ou números de pesquisa. 

SOMOS O QUE SOMOS

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por Renata Morais

Foto: Lulu e Lili Acessórios
      Estávamos no aeroporto em Brasilia voltando para o Rio. Passamos rápido por uma lanchonete já na área de embarque e uma criança branca, lisa e loira, toda de rosadinha, já com o lanche na mão, olha para a Elis e grita: "Cabelo feio!". Gritou bem alto. A menina tinha uns três anos, com certeza reproduz o que ouve em casa ou na escola. Eu e o meu marido olhamos para ela bem sérios e ela abaixou a cabeça.
      A Elis não olhou e seguiu sem falar nada. Só apertou minha mão. Sentamos e eu perguntei se estava tudo bem. Ela não quis falar, só me abraçou. O pai ficou revoltado, queria que ela falasse o que estava sentindo ou que ela respondesse. Não dá. Ela só tem quatro anos... É estilosa, toda descolada e esperta, porém o racismo e preconceito fazem isso com a gente.
      Eu queria muito entrar em seu peito e retirar aquele nó que só o racismo faz. Aquele aperto misturado com vergonha. Ela não esperava aquele grito, ela não está acostumada com isso.  Veio sem falar nada, dormiu a viagem toda. Ainda não toquei no assunto aqui em casa, mas sinto que o trabalho precisa ser mais firme. Pais: seus filhos, mesmo que pequenos, já são vítimas do racismo. A resistência deve ser diária. É conversa, leitura, ver representação. Isso será para sempre. Não é vitimismo, infelizmente é nossa realidade.

A DONA DO RAPJAZZ - MBP ENTREVISTA TÁSSIA REIS

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por Karina Vieira

Foto: Ericsigaki
     Há alguns meses atrás fui apresentada a um som que foi me arrebatando aos poucos,uma voz gostosa, daquelas que você não consegue parar de escutar. A música era assim: 
Eu fico sempre na moral
Mas, sabe? Más noticias abalam o meu astral
Eu tô legal, não tá ruim
Tô forte, tô viva, tô bem longe do fim
Acho, né?
Sempre levando uns toco, a vida dando uns soco
Há quem ache que é pouco, mas não é
Mas nem ligo pros outros, quero chegar no topo
Loucura racha coco. Sem ibope pra mané
Sem desperdiçar energia
Várias patifarias querendo me arrastar
Não dou ideia pra essas heresias
Sou de periferia, tipo, ruim de se enganar
Mas deixa os bicos zoar
Ninguém vai assumir, mas todos querem brilhar
Minha intuição quer cantar, tira um segundo pra ouvir
Que eu não costumo falhar...”
      Corri pra descobrir a dona daquela voz, daquele beat poderoso, e me deparei com Tássia Reis, 25 anos, rapper, paulista do interior, Jacareí. Já apaixonada, quase surtei quando recebemos o convite para participar de um laboratório chamado Atravessamento, ministrado pela Tássia e pela Isis Carolina no evento PRÉ-ELLA, na Casa Coletiva, aqui no Rio. Algumas tardes de trocas, conversas e um ótimo show acabaram nessa entrevista. Espero que vocês curtam e conheçam um pouco mais  da Tássia e toda sua musicalidade.

MBP - Quem é Tássia Reis?
Tássia Reis - As perguntas simples são as mais difíceis de responder [risos]. Eu sou uma pessoa determinada que gosta de criar e transformar as coisas, de unir pessoas, de questionar. Talvez por isso, meu impulso musical e artístico, acredito que a música e arte no geral tem esse caráter além de aquecer a nossa alma. Muitos dizem que sou muito corajosa e até maluca. Talvez eu seja também.
Foto: Acervo pessoal
MBP - Como se deu a sua vivência enquanto mulher preta? Como você descobriu que é uma mulher preta?
TR - Lembro do meu pai me dizendo (e até hoje diz) que somos lindos porque parecíamos com ele. Ele brincava com propriedade porque é lindo mesmo, então esse ensinamento foi algo orgânico. Fez muita diferença pra mim, quando entrei na escola. Acredito que a escola é o pior lugar para uma menina preta. É um bombardeio de informações e estereótipos racistas que faz você acreditar que é menos. Quase sempre acreditamos. Meus pais me achavam linda, mas na escola não me achavam, e esse período que transita da infância para a adolescência é muito cruel pra nós. Minha lembrança de me sentir maravilhosa e vencer todo esse vírus foi quando conheci a cultura Hip Hop e tive referências fora de casa. Quando me apresentei pela primeira vez com o meu primeiro grupo de dança, senti que o que meu pai sempre me dizia e diz. Sempre foi verdade eu ser linda e maravilhosa.

MBP - Você já participou de algum movimento (movimento negro/coletivo negro)?
TR - Sou o tipo de pessoa que se envolve muito no que faz. Quando comecei a dançar não foi diferente. No começo dançava numa oficina de dança e me dediquei muito pra aquilo, o que fez criarmos autonomia para dançar além das oficinas. E fui passando de grupo em grupo, porque a realidade colidia com a nossa utopia de ser dançarinos profissionais, e muitos desistiram. Até que passei estive num grupo em especial. Se chamava Stylo Guetto e ao passar por esse processo de saída das pessoas, as mulheres do grupo resistiram e naquele momento senti que tínhamos uma parada pra fazer. Nos unimos, fizemos uma coreografia com rap nacional e lutamos pra apresentar num festival de dança que pra gente foi a glória. Autonomia de criar e apresentar algo por nós mesmas foi incrível! Foi a primeira movimentação de que me lembro. Depois acabamos nos tornando uma pequena crew que tumultuava nos eventos, representando sempre nas rodas de dança, um bando de mulher dançando muito.

Foto: Anna Mascarenhas
MBP - Como é a sua relação com o seu cabelo? Você passou pela transição?
TR - Eu sempre gostei do meu cabelo, mas tinha vergonha porque as outras pessoas não gostavam. Sempre fui resistente a fazer um alisamento. Achava que não combinava comigo o cabelo alisado. Porém fiz diversos relaxamentos com o pretexto de "soltar a raiz" pra ficar mais fácil de pentear. Usava preso ou trançado. Minha mãe trançava meu cabelo. Quando cresci, ela não podia mais trançar porque não tinha tempo, aí aprendi a trançar e me trançava sozinha. Na escola eles me viam como a "garota estilosa" por causa da trança, mas a bonita com certeza não era eu (na visão deles). Quando terminei a escola em 2006, eu tinha 17 anos e já ensaiava meu crespo natural. Já andava com ele solto, fazia menos relaxamentos, já fazia as nagôs mais "loucas". Acho q sair da escola foi libertador. Me lembro que em 2010 meu cabelo estava totalmente natural e mais uma vez me senti maravilhosa. Depois disso fui mudando por estética. Queria mudar e mudar. Até fiz um processo de relaxamento, mas não era isso que queria. Em 2012 eu resolvi cortar meu cabelo e me inspirei no corte da Rihanna em Rude Boy, só que crespo. Abalei!!! Fui diminuindo aquele moicano até que virou o topete, que uso no clipe Meu RapJazz. Depois daí, em 2013, eu realizei o sonho que era raspar a cabeça. Me lembro que vi uma mulher negra e careca numa festa em 2006 e ela parecia a pessoa mais elegante que já tinha visto. Fiz! Raspei e desmitifiquei o mito de que o cabelo era a moldura do rosto. Me perguntaram se eu odiava meu cabelo, ou se havia me tornado homossexual (não é brincadeira!) e não foi nenhuma coisa e nem outra (no caso da segunda eu tenho muito o direito de me tornar se assim um dia desejar!) eu só queria ver o meu rosto. As pessoas te fazem refém dos estereótipos. Eu odeio que me digam o que eu tenho que fazer. Todos te cobram, você tem que usar alisado, você tem que usar crespo, você tem que cortar, você tem que deixar crescer, você tem que pôr aplique, você não pode pôr aplique. Entendi que o que tinha que fazer primeiro era me amar como vim ao mundo, e se eu quiser mudar o meu cabelo é porque eu quero. Porque eu não sou obrigada a nada. No momento estou deixando crescer porque estou morrendo de saudades de bater o meu cabelo. 

MBP - Qual é o conceito do EP ? O que você espera expressar com ele?
TR - O conceito básico do EP é me apresentar. É como se fosse um grande "oi!" que gostaria de dar ao mundo, contando um pouco de minha história começando pela minha infância, citando algumas experiências, falando também sobre minha esperança no amor e minha autoestima, da minha ansiedade e do modo como gostar de enxergar as coisas com positividade, questionamento e romantismo (de um modo geral).

MBP - O que é ser mulher preta no rap?
TR - O machismo existe, é parte da estrutura da nossa sociedade. No rap é muito presente. Dá pra notar quando estereotipam o meu som para tornar mais ameno e não chamam de rap, pelo fato de eu falar com doçura ou romantismo da minha vida. Ao mesmo tempo, quando dou um texto mais falado, insinuam que estou rimando como um homem ou de ter um posicionamento radical. Além das insinuações de que você deve ter pegado fulano pra conseguir tal coisa. Esses papos que dão preguiça, sabe? Ou até mesmo sobre roupa curta e essas coisas. Qualquer dia vou aparecer de maiô só pra quebrar a banca e aí eu vou rachar de rir dos "caga-regra" de que mulher não pode isso, não pode aquilo [risos]. Tem também o lance de dizer que é som pra mina ouvir, mas eu preciso dizer pros boy: sua mina ouve meu rap e você também que eu tô ligada ! [risos] Brincadeiras à parte, tenho participação quase que igualitária nas redes sociais. Oscila, mas mantém uma parcial de 51% mulheres, 49 % homens. Aceita o som. É rap também!
 
Foto: Bernardoguerreiro
MBP - Quem são as mulheres que você admira? Na música, na arte, na dança...
TR - A falta de referência nas mídias brasileiras nos fez prestar a atenção nas irmãs negras que estão a nossa volta, o que me foi e tem sido muito valioso porque tenho valorizado a cada dia mais minhas amigas que são excepcionais, não somente por serem belas, mas por serem MARAVILHOSAS. Vou citar algumas delas: Isis Carolina Vergílio (bailarina, performer e produtora), Lívia Mafrika (universitária, dançarina e cantora), Juliana de Jesus (produtora executiva), Xênia França (cantora e compositora, vocalista da Aláfia), Natasha Vergílio (bailarina, performer e produtora), Samira Carvalho (modelo, artesã e estilista), Daniela Rodrigues (empresária e produtora), Daniele Da Mata (empresária, maquiadora na Escola de Automaquiagem para pele Negra "Da Mata Makeup " ), Loo Nascimento (estilista, stylist, cool hunter, empresária e mais uma penca de coisa) Camila Alvarenga (universitária e empresária), Amanda Coelho (empresária e hair stylist), Welida Souza (hair stylist e dançarina), Janine Mathias (cantora e compositora ) e por aí vai, seguindo a lista do bonde que só cresce. Contando inclusive com vocês, Meninas Black Power, que chegaram na minha vida agora e eu já admiro, viu?!

MBP - O que o Atravessamento pra você? Qual foi o processo de construção?
TR - Pra mim, é um sentimento de invasão, que pode ser tanto bom quanto ruim. Me sinto atravessada quando ando na rua e os olhares me condenam ou subjugam simplesmente pelo fato de ser negra; me sinto atravessada quando vou há alguma festa e algum cara acha que pode me tocar ou me ofender com palavras vulgares sem ao menos me conhecer, achando que sou um objeto qualquer e disponível. Porém me sinto atravessada de uma maneira positiva também. Quando me reconhecem na rua e me lançam palavras de carinho e estímulo, mesmo nunca tendo me visto na vida. Me sinto fortemente atravessada quando as pessoas vão ao meu show e eu vejo no brilho do olhar de cada uma que me permite, a felicidade por estar ali, e a satisfação dessas pessoas ao se sentirem representadas. Me sinto atravessada agora escrevendo pra vocês, porque falar de mim sempre foi difícil. Eu sou muito reservada e revelar com riqueza de detalhes algumas coisas, me atravessa muito. Acho que a vida é feita de atravessamentos sim, e o que nos determina é o que fazemos para lidar com tudo isso.
Um bonde forte no Pré-ELLA.
    É essa diva que anda por aí revolucionando os sons e o mundo que apresentamos orgulhosamente hoje. Temos a honra de ter Tássia entre as nossas. Foi impactante conhecê-la e recomendo para todo mundo. Vocês podem ouvir todas as faixas do EP abaixo, aliás. Aproveitem!

PARA PRINCESAS VISÍVEIS

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por Élida Aquino

Foto: Happy Hair Girl
      Uma musiquinha embalava a soneca da tarde do Domingo chuvoso. Abri os olhos do cochilo pra encarar o que acordou minha menina de anos atrás e as cenas que talvez não sumam com o pó da fadinha mais habilidosa de todos os contos. Assisti atentamente o comercial da linha Gotas de Brilho, produto Johnson's, com campanha lançada recentemente e um slogan que afirma "sua princesa com cabelos de princesa" para as mamães interessadas. A Élida "grande" sentiu um aperto igual ao dos velhos tempos. Pensei, naquela fração de segundos, que a publicidade ainda não me entende como princesa também, não vê meninas que são como eu sou e ainda nos diz sutilmente que nosso cabelo não pode entrar na brincadeira.  Acabou o comercial, coloquei a mão no cabelo bagunçado pela preguiça do feriado com alguma aflição. Constatei: tudo bem comigo, não há defeito aqui, sou rainha coroada. Levantei com a pressa de quem precisa acordar uns e outros que insistem em imitar a Branca de Neve e se fingem de mortos diante da realidade.

      Permitam-me começar com uma história. Vocês já ouviram outras assim, mas vale a repetição. Era uma vez uma menina da 6ª série. Ela era dessas que ficam lá na frente. Mais alta que a média, com o cabelo mais cheio que todas. Assistia à aula naquele dia como uma equilibrista e pedia do fundo do coração que o penteado que a mãe havia feito, preso com um acessório frágil demais pro cabelão que estava ali, não soltasse de jeito algum. As preces não foram atendidas e sem que ela esperasse... boom! Não havia mais penteado e nem alguém que não estivesse rindo. Ela deu um jeito de prender bem preso, mas não conseguiu escapar das observadoras que queriam "ajudar com o problema". ― Seu cabelo é tão cheio! Acho que você passa pouco creme. Passa mais creme nele! ― uma delas afirmou. ― Amanhã vou passar bastante creme e ele nem vai ficar cheio. Vocês vão ver! ― ela garantiu. E foi assim. Muito creme e um pompom reforçado num dia, relaxantes que queimavam a cabeça tempos depois. Ela lembra ainda da sensação da primeira escova. Cabelo tão longo e liso quanto o da Rapunzel. Toda feliz por ver que as meninas da turma acharam bonito e queriam pentear com os dedos, sem contar o carinha mais badalado da turma que, enfim, naquele dia liso e glorioso, sorriu pra ela. Isso tudo ditou o futuro que durou anos. Entre kits de relaxante, tardes escovadas, horas na prancha. Reformando, deformando, queimando, quebrando. Até que não sobrou mais o que era e ela precisou se redescobrir, entender que não era normal querer ser outra, que precisava voltar antes de passar pro outro nível do jogo. Ela sou eu.
      Não quero que as meninas e meninos de hoje vivam a mesma coisa e pergunto aqui até onde vai a insanidade da publicidade brasileira. Até quando, mesmo sabendo que a beleza é diversa e que toda beleza deve se ver nas prateleiras quando resolver consumir, vão se esforçar pra nos manter fora, pra nos tornar invisíveis? Meu coração esperou ver crianças como minhas sobrinhas ou sobrinho (que consomem produtos da marca), minha vizinha, minhas futuras filhas ou filhos, mas não vieram. Não podem ser princesas ou príncipes? Ainda?! De quem é o universo lúdico que estão exaltando? O que me ofereceram foi um clubinho de crianças branquinhas, lisinhas, com o olho clarinho, brincando no parquinho acompanhadas das mamães (igualmente branquinhas, lisinhas, com aquela carinha conhecida, por sinal). A mesma fôrma da princesa e do príncipe encantado que sempre colocaram como exemplo de perfeição. Onde estão as minhas amigas que são mães? Onde estão as crianças que eu abraço, beijo e brinco? Elas usam shampoos, colônia, adoram bagunça na banheira, um penteado novo, roupas coloridas e são fofas também. Elas estão por aí e precisam estar dentro da telinha do Brasil que não é uniforme, que possui a maior população negra fora da África e abriga gente com tantas outras características não-brancas. Onde nascem bebês de todos os jeitinhos que vocês possam imaginar. Não precisamos e não queremos tolerar mais do estereótipo já vendido.
Passem na página da marca para ver a proporção de diversidade que está por lá
     Agradeço por ter iniciativas como Happy Hair Girls, Era uma Vez o Mundo, Lulu e Lili Acessórios, livros como O cabelo de Cora, Os mil cabelos de Ritinha e etc., só que essas iniciativas não anulam o direito à normatividade. Eu quero ver essas crianças lindas que me rodeiam lá na campanha da Johnson's, com produtos feitos sob medida pra quem elas são. Não venham me dizer que estou reclamando demais por publicarem raramente uma foto representativa na página. Quero tudo, todos os lugares, pelo simples fato de ter o direito e querer assegurá-lo para quem é como eu e tantxs outrxs que não são como o padrão. Que vocês não façam mais meninas e meninos desejarem ser as menininhas que brincam na banheira e nem que cheguem em casa perguntando o que há de errado em ser como são. Eu com certeza adoraria ter referências enquanto criança ou adolescente. Isso faria diferença na hora em que comecei a achar meu cabelo um problema. Façam o certo! Mesmo que dê trabalho, que estraçalhe o racismo de vocês. Representatividade importa e não pretendo, junto com mais um monte de gente, fingir que é conto de fadas e não está acontecendo. Por mais campanhas assim:

Dedico às princesas e príncipes que ainda não estão se vendo, esperando que se vejam aqui, que se vejam em mim. Com amor.
Fim.

MBP + SEMANA DA MULHER NA RÁDIO ROQUETTE PINTO

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por Jaciana Melquiades
Foto: Equipe ZoaSom
      O ano de 2015 começou com muito trabalho para o Coletivo Meninas Black Power. Em Março, mês marcado por debates e comemorações que tiveram como centro a mulher, fomos convidadas a falar sobre a mulher negra na sociedade brasileira.
      Um dos convites recebidos foi para uma participação no programa ZoaSom, na rádio MEC AM (Roquete Pinto FM). Um programa de música e debates em temas bastante atuais. Fomos, na semana da mulher, falar sobre como é ser mulher negra nos dias atuais. Dividimos o microfone com a apresentadora Clara e o apresentador Jorge, além da Dandara Raimundo, que atua no filme KBELA, Izabel e  Gabi Monteiro, estudante de Moda na PUC- RJ.
Foto: Equipe ZoaSom
      Um cenário bastante propício à boa conversa, num clima de descontração. Falar sobre as violências cotidianas que sofremos nunca é simples e estar nesse espaço de comunicação ajuda a desconstruir conceitos que nos são muito dolorosos. Nesses encontros nos fortalecemos e ocupar lacunas da mídia com temas que nos são caros, ajuda a criar uma representatividade que nos negam cotidianamente.
       Um encontro maravilhoso que nos permitiu conhecer a atriz portuguesa Isabel Martins Zua Mutange. Belíssima, também integrante do elenco do filme Kbela, inseriu ao debate o olhar de uma mulher negra e estrangeira em terras brasileiras. Em nossa conversa, nos deixou ver o quanto precisamos ainda caminhar no sentido do reconhecimento de nossa negritude e na construção de um olhar positivo sobre nossas características físicas.
       Nesses encontros conseguimos nos dar conta de que nossa caminhada vem de longa data, vem de longe e que não estamos sós na luta antirracista. Temos muitos desafios ainda, mas saber que nossas vozes estão ecoando, nos dá ânimo para continuar.
Foto: Equipe ZoaSom



TEU CORPO NÃO É ESTRANHO

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por Jessyca Liris
Ilustração: Markus Prime Art
      Eu nunca vi um corpo como o meu na TV. Mal via pessoas como eu. Estudava em escola particular com um monte de meninas brancas, e na aula de natação, uma delas gritou: "sai daí, Jessyca, com essa bunda cheia de estria! Ninguém quer ver não". Nem sabia o que era isso, e daí veio todo o medo. Quando digo que nunca vi alguém como eu, quero dizer: mulher preta, de cabelo crespo, não-magra, com curvas sem simetria, com celulite e estrias.
       Eu cresci achando que estava sempre errada, com medo de me mostrar, com pavor de que alguém visse esse tanto de defeito que a sociedade me grita a todo momento. Eu ia à praia de bata de manga comprida (só usava biquíni em casa); "meu corpo é feio", pensava, e isso martelava na minha cabeça. "As pessoas vão ficar me olhando, apontando pra minha bunda feia e pra minha falta de peito" martelava minha cabeça o tempo todo... Já não bastava ter a bunda toda cheia de estrias, celulites e mole, tinha ainda os seios pequenos. "Toda errada", martelava e martelava. 
     Um momento novo se iniciou, e comecei a ter relações sexuais, e só enquanto houvesse uma luz apagada, eu estava ali, e assim ia. Fui levando e sempre de luz apagada, mas tive a sorte de ter, por um tempo, um namorado que me ajudou a desconstruir toda essa ideia negativa e eu passei a rejeitar menos o meu corpo. Ele elogiava excessivamente a minha bunda porém ria dos meus seios, o que me fez querer, por alguns anos, fazer uma cirurgia pra poder aumentá-los e me sentir menos pior. Mais algum tempo se passou, o relacionamento terminou e a necessidade de ter relações sexuais crescia, e agora? 
      Alguns relacionamentos frustrados e eu já não queria mais namorar. "Mas como vou mostrar esse corpo estranho pra alguém sem que haja algum sentimento? Ninguém que não me goste ao menos um pouco vai querer esse corpo estranho." Isso martelava na minha cabeça. Fiquei por anos transando mal e achando meu corpo estranho. Nunca me sentia à vontade por achar que os caras estavam contando quantos buracos eu tenho na bunda (isso porque nem vou falar da minha vagina, que dobra o complexo) e os meus seios que sempre são alvo de comentários, por serem pequenos, quase zero. Foi assim até que assumi o meu cabelo crespo, aumentando minha autoestima, a minha confiança. Passei a ir a praia de biquíni com as amigas, mas nada de foto e com short também, afinal, "ninguém precisa ficar vendo essa bunda estranha". 
      Assumi o cabelo, ia a praia de biquíni, comecei a andar com outras pessoas e logo a transar com outras pessoas. Repetia pra mim "teu corpo não é estranho e o racismo não vai te engolir", como um mantra, e comecei a entender meu complexo em relação ao meu corpo. Comecei a entender que a culpa é do racismo e do machismo que me fazem desejar ter o único corpo preto que aparecia na televisão: o da Globeleza, que nada tinha igual ao meu corpo, a não ser a cor meio amarronzada. 
      Fazer parte do movimento negro, de um coletivo de mulheres pretas, ouvi-las e lê-las, me fez compreender o ódio ao meu "corpo preto estranho" e atualmente não é muito diferente. Hoje me olhar no espelho ainda é estranho, ainda dói, ainda aparecem um monte de possíveis reparos e incontáveis perguntas do tipo "pra que e por que um corpo tão estranho?". 
      Mesmo sem um desfecho brilhante vi a necessidade de escrever, tentando dizer que (difícil por em palavras)... que eu sei que não sou a única. Senti necessidade de dizer que não criem esse complexo como o meu, e que nosso corpo preto é mais do que parece. Senti necessidade de dizer que nosso corpo com essas formas contam histórias.

SOBRE "OS NEGROS NA AMÉRICA LATINA", DE HENRY LOUIS GATES JR.

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por Karina Vieira
Foto: Google
      Confesso que a primeira coisa que me chamou atenção no livro foi a capa, que é maravilhosa, convém dizer. Depois fui ler o título e, bem, me pegou de vez. De acordo com o Banco de Dados do Comércio Transatlântico de Escravos da Universidade de Emory na Geórgia, EUA, entre 1502 e 1866, 11,2 milhões de africanos sobreviveram a terrível travessia oceânica e chegaram como escravos ao Novo Mundo. Desse montante, "somente" 450 mil desembarcaram nos Estados Unidos, todos os demais desembarcaram em lugares situados ao sul do país, sendo que só no Brasil foram 4,8 milhões. Esses dados nos fazem crer que a grande experiência africana nas Américas não aconteceu nos EUA.
     A cerca de dez anos o autor decidiu fazer uma série de documentários sobre os afrodescendentes, sobre raça e cultura negra  no hemisfério ocidental fora dos Estados unidos e do Canadá. A primeira parte da trilogia começou com Wonders of the African world (Maravilhas do mundo africano), a segunda, American beyond the color line (Os Estados Unidos além da linha da cor) e a terceira parte deu origem a este livro.
     Henry Louis Gates Jr visitou em um período de 6 meses  Brasil, México, Peru, República Dominicana, Haiti e Cuba e procurou responder a seguinte problemática: O que é ser negro nesse países? Em tais sociedades quem é considerado negro, em quais circunstâncias e por quem? Serão as palavras que designam várias tonalidades de afrodescendentes no Brasil, como mulatos, cafusos, pardos, morenos, pretos? Ou pretos e negros são apenas as pessoas de aspecto mais africano numa mistura multidirecional de combinações de cor de pele, traços faciais e textura de cabelo?
      Como resposta ele descobre que o que é comum a todas essas sociedades é o fato lamentável  que as pessoas de origem africana "mais pura" ou "sem mistura" ocupam desproporcionalmente a parte mais baixa da escala econômica. As pessoas de pele mais escura, de cabelo mais crespo e de lábios mais grossos formam em geral o grupo mais pobre da sociedade. A pobreza foi construída socialmente em torno de graus de origem africana óbvia. Em comum também a todas elas, está o fato de que essas sociedades se orgulham de serem "democracias raciais", "livres de racismo" e "pós-raciais" e mesmo assim ainda carregam um legado forte de escravidão e histórias longas e específicas sobre o racismo.


       Ao visitar o Brasil, Henry encontra na nossa sociedade a incrível quantidade de 134 termos de tonalidade de cor ou palavras para negar a sua negritude. Descobre também que o foco do país na cor era algo que beirava a obsessão ou a chamada "eu sou qualquer coisa, menos negro". Descobre também que entre 1884 e 1939 o Brasil passou por um violento processo de "branqueamento", quando 4 milhões de europeus e 185 mil japoneses receberam subsídios para imigrar e trabalhar no país. Esse processo de imigração visava a reprodução dos europeus com os negros, a fim de clarear a pele da população e erradicar os vestígios da cultura africana.
      Em meio a tudo isso uma voz dissonante se faz ouvir, Manuel Querino, intelectual negro pioneiro que mesmo no Brasil é pouco conhecido. Querino assumiu uma atitude ousada e corajosa contra as ideologias racistas governamentais. Historiador, artista plástico, sindicalista e ativista negro, ele dava ênfase ao papel do africano como civilizador e procurava mostrar os costumes e tradições africanos na Bahia, ele exaltava o orgulho de ser descendentes de africanos. Querino é considerado o pai da história negra, da mobilização negra e da positividade dentro do movimento negro.


     O autor encontra em cada país visitado um herói negro, porém muito pouco conhecido dentro e mesmo fora de seu espaço de origem: No México, Gaspar Yanga; No Peru, a ambiguidade de José de San Martín; Na Republica Dominicana, Rosario Sánchez; No Haiti, Alexandre Pétion e em Cuba, José Antonio Maceo. Ao final do livro, Henry coloca como apêndice categorias de cor na américa latina, onde fica visível que por mais esforço que se tenha feito e ainda se faça, o racismo está aí resistindo e nos provando que ele é um legado histórico que ainda não se extinguiu, que ele não é apenas um processo que se herda de um passado remoto, e sim um conjunto de usos e costumes sociais e de ideias que são continuamente recriados e reproduzidos com enormes e devastadoras consequências sociais.

GLOBELEZA

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       Não sou de ver televisão, pois além de sentir a minha inteligência sendo desafiada, me sinto em uma alienação idiota. Vejo um mundo paralelo criado. Um mundo que não vejo nas ruas: um mundo branco em sua maioria, no ápice do seu protagonismo; negros exercendo o seu papel secundário e subserviente, tudo embalado em quadros de humor elitista, onde as mazelas negras são exploradas pra arrancar risos e audiência.
       O nosso lugar sempre é demarcado, os acertos e mudanças são discretos e caminham em passo de tartaruga. O lugar da mulher negra na TV brasileira é na cozinha, na senzala, em discretas cotas no elenco e claro, mostrando o seu corpo, sendo “mulata”. Não que eu não legitime a nossa história e não entenda que o samba é nosso. O problema é que o samba é nosso e foi apropriado pela mídia, que define novamente quem vai ficar com qual papel. E aí, é dado o nosso sonhado protagonismo! E ele é nu, sambando. Mais nu do que sambando, pra falar a verdade! 
      Há pouco tomei conhecimento, que foi eleita, por voto popular a “mulata globeleza”. Vi a vinheta da eleita, um corpo escultural, cheia de brilho e sem samba algum no pé. Fiquei meio surpresa, cheguei a compartilhar nas redes sociais e questionei onde estava o samba ali. Uns concordaram comigo, outros disseram que era culpa da direção, malhamos a emissora e ficamos por aí. Até que surgiu um comentário falando que a Globeleza deveria ter mais bunda. Fiquei estupefata e não acreditei na cobrança. Cheguei a me perguntar: “Mas, meu Deus, como uma pauta perguntando onde estava o samba pode ter um questionamento tão raso e machista desses?”
       Daí percebi que a negra, chamada de mulata, que samba pra fazer a vinheta bonita, é uma vítima. Depois que eu me compadeci, fiquei sabendo que ela ao ser eleita no reality, disse que o sonho de toda mulher negra é ser Globeleza. Senti raiva e pena. E ironicamente, perguntei o que seria de mim, a preta que não sabe sambar e com um biótipo longe do padrão. Ri da ignorância dela, mas tive pena de novo. Pena porque ela pensa como milhares de mulheres e homens negros. Simplesmente, ela só quis o único lugar de protagonismo, que a mídia pode oferecer pra uma mulher negra.

      Mais pena fiquei hoje, quando me deparei com “memes” no Facebook, a comparando com o personagem Zé Pequeno, de Cidade de Deus. E o quadro não foi só esse: muitos comentários falando da falta de bunda, falando sobre a falta de peito : “Que ridículo esse peito infantil!”. Falando dos traços grosseiros de seu rosto (Me pergunto que ignorância os traços dela fizeram com esse povo, além de aparecer na TV.). A pergunta que não me calava: “Onde está o samba no pé, gente? Na vinheta e no meio desses comentários?” O que eu pude constatar, é que a emissora dita ou sabe o que o povo procura e nesse caso não era samba no pé. Constatei também que ser mulher-objeto é péssimo, mas ser mulher-objeto-negra é pior ainda, a negritude incomoda: desde os cabelos (que já fizeram questão de relaxar!) até os traços, que mostram sua ancestralidade. E uma negra precisa ter bunda e peito. O povo clama: Cadê as carnes?
        Me pergunto que se dentro do hall de negros na TV, ela tenha similaridade só com o personagem bandido de Cidade de Deus. Seria falta de elenco afrodescendente ou apenas uma forma subliminar que o pseudo humorista teve de dizer o lugar que ele acha que ela tem que ocupar, depois que passar o carnaval? Fica o questionamento!

O GALHO É DE QUEM?

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         A normalidade está em, no meio de polêmicas racistas, a pessoa branquinha, que paga seus impostos, se vestir de bananaSim, claro, é super normal. Até porque, hoje em dia, é super normal ter pessoas fantasiadas nos programas de televisão, é quase uma regra! Como peça central e superior, a pessoa se veste de, pasmem, banana. Sim, claro, isso é normal, mais uma vez. Como alguém pode reclamar se uma pessoa quer se vestir de banana e for "disputada" por macacos? A cena foi perversa, o momento foi perverso. 
       Este foi um recado a todos aqueles que reclamaram da escolha e mais ainda da explicação desnecessária que foi dada. Será que essa apresentação foi arquitetada para que ela estivesse em evidência? Uma propaganda para valorizar o passe dela e que, mais uma vez, fossemos chamados de macacos por não conseguir entender que é "apenas uma música"O mais triste e revoltante é ver os macacos, que a desejam, serem enxotados. Não, eles não são dignos da beleza e superioridade da banana.
      E ainda há quem diga: "parem com essa coisa de raça, somos todos da raça humana". É mesmo verdade? Ou será que ainda estão pensando que nós, negras e negros, estamos com o pensamento estagnado no mesmo processo evolutivo dos primatas. Não, eu não desejo a banana!
* A postagem não contém imagens, pois a autora prefere não ter a referida banana ilustrando o texto.



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     Recentemente publiquei um desabafo lá na página. Na ocasião, lembrei de mim e muitas outras que já haviam passado por algo semelhante durante a vida escolar. Posso afirmar: é excelente evoluir, "dar a volta por cima" e desenvolver esse amor incondicional por nós e pelo que somos, mas existem agressões que marcam profundamente e quase sempre lembramos delas. A história que conto, gira em torno da aflição de Damali enquanto acompanhava o sofrimento da irmã mais nova, por conta das declarações de uma racista em formação (e não me digam que "racista" é adjetivo pesado pra uma adolescente que coloca a conversa num nível assim, ok? Ela reproduziu a fala que já conhecemos desde sempre, só que numa versão hightech). Damali escreveu: "... Cheguei em casa e ela estava toda amuada no sofá. Fui perguntar o que estava acontecendo, aí ela me disse que está sendo incomodada por uma garota no colégio por causa do seu cabelo, que a tal garota costuma chamar de "bombril" e derivados. Ela me contava e chorava dizendo que queria ter cabelo liso pra nunca mais ter de passar por isso de novo e me mostrou uma postagem dessa garota no twitter..." A situação foi piorando e a tal menina racista não demonstrou culpa, remorso, arrependimento ou o mínimo de temor diante da proporção gigantesca que a situação tomou (já que, felizmente, muitas pessoas compreenderam que era gravíssimo!). 
       Pensamos no que pra oferecer encorajamento pra enfrentar situações tão desconfortáveis. Nada melhor que exemplo! Por isso convidamos três Meninas Black Power que são inspiração pra nós. Gabi, que atualmente arrasa nos episódios de "Tá Bom Pra Você?"; Lorena, que sempre dá uma força lá na página; Luiza, que já é referência de resistência e mobilização do bem na escola dela. Elas estão no ensino fundamental, vivendo a adolescência e vão compartilhar vivências numa conversa super MBP. Ah! Antes de ir ao que interessa, vale lembrar que racismo não é bullying. Todo preconceito é ruim, mas é fato que racismo está pra além de um preconceito qualquer. Agora sim, a parte boa. Que a experiência dessas rainhas ajude toda Menina Black Power que estiver precisando de força!

MBP - Olá, Meninas! Vamos começar com as apresentações? Como vocês se chamam, quais as idades e em que série estão?
Gabriela - Gabriela Dias, 14 anos, oitavo ano do ensino fundamental.
Lorena - 
Meu nome é Lorena, tenho 14 anos e também estou no 8
° ano.
Luiza - Luiza Santos Morais Cantanhede, 12 anos, 7° ano.

MBP - Ótimo! A gente quer saber como é a família de vocês e como eles se relacionavam com seu cabelo durante a infância. A opinião deles influenciou na maneira como você enxergava o cabelo e o dos outros?
Gabriela - Minha família é super unida e meus pais são muito presentes. Sempre conversamos sobre as questões sociais, principalmente a questão racial, daí a ideia de criar o "Tá Bom Pra Você?". Minha mãe sempre me ensinou a gostar do meu cabelo e isso fez com que eu tivesse orgulho de ser black.
Lorena - Bem, minha mãe tem cabelo cacheado mas alisa. Durante minha infância, antes de começar a usar produtos químicos, nunca tive problemas em relação ao meu cabelo, mas as pessoas sempre falavam que ter cabelo crespo era ruim.  
Luiza - Minha mãe sempre me ensinou a aceitar o meu cabelo do jeito que é e nunca ouvir desaforo de ninguém. Uns vão adorar e outros com certeza vão detestar, mas eu faço por mim. Errado é se eu mudar pra agradar.

MBP - As escolas de vocês interferiram nessa relação com o cabelo e beleza de maneira positiva ou negativa? Vocês já passaram por casos de racismo lá ou já viram outras pessoas passando por isso?
Gabriela - Negativa. Creio que toda adolescente negra sofre no ambiente escolar. Eu mesma já pedi para alisar meu cabelo algumas vezes, não por achar bonito cabelo liso,mais para não sofrer discriminação (que às vezes vem dos próprios professores!). Nasci na Venezuela e estudei lá ate os 11 anos de idade. Eu era a única menina negra da minha escola e todas as meninas da minha turma tinham cabelo muito liso! Eu sofria muito. Minha mãe sempre conversava (ou melhor, brigava) com os pais e professores, mas criança aprende o racismo dentro de casal. É muito difícil controlar isso sem a ajuda da sociedade em geral. Também já vi acontecendo com outros várias vezes. Quase sempre a pessoa discriminada ri e leva na brincadeira. Depois, lógico, desiste de deixar o cabelo natural. Até mesmo meninas que usam química molham o cabelo a cada minuto só para reduzir o volume. É horrível!
Lorena - No meu caso interferiu de um jeito ruim, sabe? Depois que comecei a  frequentar a escola, passei a usar ele preso ou com tranças, pois tinha vergonha do meu cabelo. Todo mundo tinha cabelo liso! Nunca  presenciei outras pessoas nessa situação, até porque são poucos que vejo que assumem seus cabelos .
Luiza - Pra falar a verdade minha escola não liga muito para esse tipo de assunto, viu? Eu nunca passei por esse tipo de situação, mas conheço muita gente que já... Vejo quase diariamente. Tenho muitas colegas que sofrem com apelidos preconceituosos por causa do cabelo crespo. Uma delas até chegou a pedir para que a mãe fizesse transferência escolar.

MBP - E as químicas? Já usaram?
Gabriela - Comecei a usar química com 11 e parei aos 13 anos. Eu usava relaxamento para reduzir o volume do meu cabelo. Olhava revistas, programas, e me achava estranha com meu cabelo...
Lorena - Minha avó me levou ao salão com 7 anos. Ela disse que meu cabelo ficaria melhor e mais bonito. Parei de usar química aos 12. Odiava ficar horas e horas no salão... O que me fazia gostar de química era achar que ficaria mais bonita de cabelo liso e que todos iriam achar também.
Luiza - Nunca usei química! Meu cabelo é natural desde sempre. Acho que não sou diferente de ninguém por ser negra e ter cabelos crespos.

MBP - Quantas histórias! O que fez vocês voltarem ao cabelo natural?
Gabriela - Comecei a ver mulheres da minha família deixando o cabelo natural. Minhas primas, tias, as namoradas dos meu primos... Aí comecei a me sentir cafona, sem graça, feia, e me libertei. Estava no meu quarto olhando fotos das mulheres da minha família e me senti horrível! Saí do quarto, fui ao banheiro, peguei a tesoura e falei pra minha mãe: "Corta tudo, pelo amor de Deus!" E olha que eu estava com cabelo enorme. Foi escolha minha e eu sabia que já estava feio. As mulheres da minha família sempre falavam: "Ah, Gabi! Você vai ficar linda com o cabelo black!" Não é que fiquei mesmo? [risos] Me acho linda! 
Lorena - Depois de vários anos usando química e quase ficar careca por conta disso, quando cortei o cabelo e retirei a parte lisa, decidi não fazer mais nada no cabelo. Deixaria como ele é. Antes usei tranças por uns 2 meses e depois não fiz mais nada. Decidi ser quem eu sou.

MBP - Como vocês se relacionam com vocês mesmas agora? Como enxergam seus cabelos, beleza e negritude?
Gabriela - Eu amo meu cabelo e estou me achando muito mais bonita do que antes. Pelo fato de ter cortado e deixado natural, hoje em dia sou muito mais consciente enquanto mulher negra.
Lorena - Hoje em dia, me comparando com as fotos de quando eu tinha cabelo alisado, me acho mais bonita e me sinto ótima com meu cabelo. Sinto que sou eu mesma.
Luiza - Sou linda do jeito que sou. Gosto muito de usar acessórios no cabelo e de chamar atenção com isso.

MBP - Com o cabelo natural e opinião mais afirmativa sobre vocês, como é o círculo de amizades e o convívio social na escola? 
Gabriela - Muito bom! Tenho várias amigas, mas sou a única que usa o cabelo natural. Muitas delas ainda têm aquele medo de tirar a química. Às vezes a própria mãe não deixa tirar a química, né? Conheço meninas que querem parar de alisar, relaxar, mas as mãe não deixam.
Lorena - Sou a única garota com cabelo natural na escola; ou seja, sou alvo de piadas e brincadeiras sem graça em relação ao meu cabelo o tempo todo. Mesmo assim não dou importância.
Luiza - A maioria das minhas amigas usam química, alisamentos mais intensos, mas não me tratam diferente de ninguém.

MBP - E com os meninos? Como é relação? 
Gabriela - Não tenho namorado, mas os meninos da minha sala gostam do meu cabelo e me acham bonita. Mesmo assim percebo que os meninos elogiam as meninas negras, mas preferem sempre ficar com as meninas brancas.
Lorena - Os meninos sempre preferem as garotas dentro do "padrão de beleza". Sempre debocham do meu cabelo, colocam apelidinhos idiotas, mas meu namorado ama meu crespo e me acha linda sendo natural.      
Luiza - Sou muito nova para namorar, mas os meus amigos se dão muito bem comigo e com meu cabelo.





MBP - Meninos... E a escola em geral? Como acontecem as discussões sobre racismo? Acontecem?
Gabriela - Poucas vezes isso aconteceu na minha escola e quando acontece sempre quem aborda o assunto sou eu. Os outros alunos não falam nada. Os professores não gostam de falar sobre a África, aliás. Só na "semana da consciência negra".
Lorena - Na atual não, mas em outras escolas que já estudei os professores sempre promoviam um diálogos sobre racismo. Lembro de um vídeo que meu professor de História passou, um vídeo sobre o racismo*, onde quem era o alvo de racismo era a pessoa branca de cabelo liso.
Luiza - Umas das coisas que mais me revoltam é isso! Nada é dito na minha escola. Nunca houveram palestra e nem diálogos sobre o assunto.

MBP - Estamos quase acabando, mas antes queremos saber as dicas de vocês para alguma menina que esteja enfrentando problemas na escola por causa e características que possui.
Gabriela - Tenho várias! Leiam o livro "Um defeito de cor"**. É da Ana Maria Gonçalves. Também inscreva-se no canal ''Tá Bom Pra Você?'', curtam a página Meninas Black Power e tirem o Alisandro da vida. [risos]
Lorena - Seja você mesma, mesmo que falem mal. Não dê importância para opinião alheia.
Luiza - Não ligue para a opinião dos outros. Apenas seja você mesma.

MBP - Pra acabar, vamos de "pensa rápido". Digam aí, uma mulher negra que inspira vocês.
Gabriela - Kenia Dias, minha mãe.
Lorena - Tina Turner.
Luiza - Renata Morais, minha mãe!


MBP - Produto que mais gostam de usar no crespo.
Gabriela - Linha TRESemmé para cabelos cacheados.
Lorena - Gel, deixa meus cachos mais definidos.
Luiza - Creme de pentear Kanechom.

MBP - Acessório ou penteado que mais gostam.
Gabriela - Gosto de fazer tranças nagô e adoro usar turbante!
Lorena - Laços e tiaras.
Luiza -  Os laços da Lulu e Lili, marca da minha mãe.


MBP - Um momento super especial que já tiveram com o crespo.
Gabriela - Quando cortei o meu cabelo e tirei toda química. Foi muito legal! Minha madrinha ficou a tarde toda cuidando do meu cabelo e minha mãe e minha prima me enfeitaram. Foi uma festa!
BC da Gabi
Lorena - Quando uma moça que estava me atendendo no supermercado elogiou meu cabelo.
Luiza - Toda vez que recebo elogios.

MBP - Ser Meninas Black Power é...
Gabriela - Ser diva.
Lorena - Ser você mesma.
Luiza - Ter paciência e atitude.

Pra rir  se inspirar: 
                         

** Download do livro no link.