sexta-feira, 17 de maio de 2013

ÓRFÃS CAPILARES - POR RENATA MORAIS


Um dia resolvi mudar, resolvi cortar tudo aquilo que não me fazia bem... Pois bem comecei com o cabelo...
Meu marido e minhas filhas gostaram da mudança, mas a minha mãe não gostou ela amou...
Lembro bem da frase que ela soltou:
- Caramba Renata ficou ótimo!!!
Aquela frase com certeza me deu segurança. Sempre tive o cabelo crespo e com volume, quando pequena não gostava de pentear, a solução era o corte, e ela achava prático.
Depois eu fui crescendo e a vontade de ter um cabelo liso aflorou rapidinho, minha mãe então me levava de salão em salão procurando novas técnicas para as madeixas.
Estava claro que ela fazia a minha vontade, mas não a dela. Ela sempre gostou do “crespão” pro alto, tanto que tinha um black imaginário, sim um cabelo crespo bem grandão que só ela enxergava, isso bem lá nos anos 70. Eu tenho certeza que quando  o meu cabelo começou a crescer  naturalmente crespo ela pensou:
- O meu Black real tá ai...
Sempre que ela penteava as minhas irmãs, as duas com cabelos lisos e compridos, ela sempre me dizia:
-O seu é mais bonito!
Eu sempre pensava que ela falava isso para me consolar, sinceramente eu não via beleza naqueles cachinhos, por isso quis mudar.
Cresci, passei a adolescência toda com química, depois engravidei e tive uma menina, ainda grávida as piadinhas de mau gosto já rolavam;
-Tem que nascer com o cabelo bom...
-Passar alisante assim que nascer, pra ninguém desconfiar que tem cabelo crespo....
E a Luiza nasceu, sem cabelo nenhum, e a falta dele durou a os quatro anos, e de repente...
Uma bela juba encaracolada aparece linda com as pontinhas douradinhas, perfeita!
Então sempre que eu penteava aquela beleza eu repetia a frase da minha mãe:

-O seu cabelo é bonito, o seu cabelo é lindo!
Ai ela foi crescendo e a vontade de ter  liso como o das primas apareceu, e então conversamos e eu sempre dizia pra ela, como o cabelo dela era especial e que se ela alisasse, ela perderia a identidade.
E assim ela foi crescendo e se apaixonando pela bela “juba” dourada.
Com certeza Deus ficou feliz com o meu trabalho e me mando  a Elis,com o seu crespo encantador.Só que não tive que espera quatro anos,ele já está aí dois anos de pura ousadia,ousadia porque além de ser crespo e cheio e ainda é moicano por natureza...
E eu mais uma vez vou repetindo...

-O seu cabelo é bonito, é lindo, é crespo!



quarta-feira, 15 de maio de 2013

ÓRFÃS CAPILARES - POR HELENA BRASIL


De repente... órfã!
Como toda menina, crespa ou não, minha mãe sempre cuidou do meu cabelo.
Primeiro eram as tranças e penteados, os cortes, os arcos.. Até que chegaram as químicas, escovas, tinturas, luzes e enfim a queda.
Meu cabelo sempre foi muito resistente à química, mas nem tanto ao meu sistema nervoso. Na época que estava prestando vestibular, aos 15 pra 16, meu cabelo começou a cair demasiadamente.
Eu não sabia o que fazer, pois estava sem tempo pra cuidar e tal e acabei implantando cabelo, lógico, levada pela minha mãe, que já usava implante tinha uns anos.
Usei mega hair por sete anos, e minha mãe sempre decidia ou ajudava a decidir sobre o corte, o tipo, a cor, sempre ia comigo pra fazer o cabelo, escolhia a cabeleireira e tudo.
Acontece que tudo isso foi me cansando, porque não achava mais graça de fazer o cabelo, gastar fortunas e ter que cortar o meu pra ficar com um bom acabamento. Decidi que iria largar o vício e cuidar do meu próprio cabelo, mas acho que minha mãe não acreditou nessa decisão.
No dia que eu tirei o cabelo implantado e cortei as pontas alisadas do meu cabelo, minha mãe chorou.
Chorou, não queria me ver, não queria olhar pra mim, disse que eu estava horrível, que tinha me convertido a uma seita. Perguntou porque eu estava me destruindo desse jeito, se eu estava deprimida, se eu estava desgostosa da vida.
Eu estava firme com a minha decisão, mesmo vendo que meu cabelo não estava tão maravilhoso como as meninas das revistas. Eu não sabia cuidar, não sabia o que fazer e não tinha minha mãe pra me ajudar.
Tive que ser teimosa (não é sacrifício) e ir atrás de dicas, de produtos, de maneiras de pentear... Fui atrás de uma mãe adotiva e encontrei várias, mas mesmo assim ainda faltava algo.
As pessoas do convívio viviam elogiando meu cabelo, dizendo que estava lindo, que eu estava mais feliz, mas minha mãe ainda tinha vergonha de mim quando íamos fazer unha, por exemplo.
Dizia que as cabeleiras ficavam me olhando e por isso ela sempre dizia “Minha filha cortou o cabelo agora, é uma fase.” Eu sempre tinha que dizer que não era uma fase, que aquele era meu cabelo e seria assim eternamente e ouvia nesses lugares vários elogios, contrariando ao que minha mãe pensava.
Minha mãe achava que eu sofreria preconceito na rua, que as pessoas me olhariam com desprezo, que perderia credibilidade na profissão, que mostraria uma imagem desleixada pra sociedade. Um mundo de conceitos tortos que foram jogados pra ela desde a infância e que não estão tão fora de contexto, considerando que a sociedade é sim preconceituosa e tudo isso poderia acontecer.
Com o tempo e o crescimento do meu cabelo, minha mãe foi aceitando mais a nova situação. Eu nunca tinha feito nada na cabeça que não tivesse a aprovação dela, até agora. Foi um corte não só de cabelo, mas também de um laço de dependência que nos unia (um dos últimos).
Hoje ainda é difícil fazer com que ela entenda que estamos resistindo a uma imposição e que mesmo não sendo fácil, ainda conseguimos andar de cabeça erguida por ai. Porém ela já consegue esboçar uns elogios, diz que meu cabelo está bonito, que está crescendo muito rápido e tal, começou a comprar produtos, a fazer “preparados” com vitaminas , óleos e cremes.
“Já que você entrou nessa onda, seu cabelo vai ser o mais bonito”! Foi com essa frase que ela me deu o primeiro tônico pra cabelo crespo que comprou na vida. Confesso que fiquei meio resistente à participação dela no meu black. Sentia que era algo meu, não queria que ela se envolvesse, mas na verdade tinha medo de ouvir mais críticas. Acabei por permitir que ela participasse, ela não se fez de rogada e veio com tudo.
Entendi que maternidade é um mistério muito profundo. É amar quem faz exatamente o contrário do que você quer ou acha melhor. Com certeza, não é tarefa fácil, principalmente a quem lhe obedecia em tudo até poucos anos atrás. Quem você deu banho, alimentou, ensinou a andar discordando de você? Deve ser louco! É o que elas querem... Que os filhos sejam independentes, seres pensantes com opinião, mas se concordarem com elas é melhor.
Esse episódio me fez constatar que o que me une a ela não são as coisas que fazemos juntas, ou as coisas que concordamos. Eu posso discordar dela, e ela de mim e ainda seremos mãe e filha, ainda estaremos juntas.
Minha mãe me provou que ela vai me apoiar independente do que eu fizer. Ela vai dizer que não concorda, vai me fazer mudar de ideia, vai tentar me proteger de perigos que só ela vê, mas vai me ajudar, mesmo não concordando.
Nossa relação chegou a um nível mais maduro, de mais amizade e menos dependência. Onde eu sei que ela vai me apoiar, e ela sabe que eu sou adulta o suficiente pra bancar minhas decisões, mesmo se ela não apoiar.

Eu sei que a minha história não é a única. Muitas meninas perdem o apoio das suas mães quando passam pela transição. Uma dica: Resistam, mas não percam a ternura. Mães são artigos raros, que nem sempre estão certas, nem sempre têm razão, mas que amam seus filhos mais que qualquer coisa. Não nos esqueçamos disso!
Até!

Por Helena Brasil



terça-feira, 14 de maio de 2013

FLORES DE TODOS OS TIPOS NO PRÊMIO CAMÉLIA DA LIBERDADE 2013


No dia 24 de abril a equipe Meninas Black Power RJ compareceu em peso a 7˚ Edição do Prêmio Camélia da Liberdade. 
O projeto busca sensibilizar a sociedade para a valorização e respeito diante da diversidade racial e étnica, e dar visibilidade à contribuição histórica dos afro-descendentes na formação e desenvolvimento do Brasil, trabalhando ainda no fomento acerca do entendimento das ações afirmativas.
Cintia Masa do MBP relata um pouco da emoção que sentiu ao estar no Prêmio pela primeira vez esse ano.
"Foi a primeira vez que participei. A impressão que tive era de que estava em um desfile, não mais um desfile forjado de homenagem, mas sim um desfile de autênticas belezas negras. Fiquei muito impressionada. A iniciativa da premiação é notável. É preciso reconhecer e incentivar as ações afirmativas para que assim, elas sejam conhecidas e consequentemente seguidas por outras empresas, instituições públicas e governos por todo Brasil. Que essa premiação se fortaleça e consagre ano a ano"

Fabíola Oliveira, Menina Black Power e empresária da Colares D'Odarah. Fala da experiência de estar no Prêmio à trabalho.
"Participar do Prêmio Camélia sempre foi um prazer - esse foi o meu terceiro. Mas, definitivamente, esse ano foi todo especial. Participar efetivamente com meu trabalho e fazer parte da construção desse projeto deu um gosto todo especial.Perceber que todo o discurso de empoderamento da mulher negra e do homem negro estavam presentes da recepção ao palco através da imagem, edumentárias, acessórios e postura de realeza de todos os envolvidos e saber que esse projeto teve a interferência direta do trabalho da minha empresa - de toda a concepção de estética africana que venho empreendendo em minha jornada enquanto mulher negra e empresária - só faz a responsabilidade aumentar e a certeza de que estou no caminho certo se fortalecer.

Muito grata por fazer parte!



Christiane Odara é jornalista e integra o Coletivo Meninas Black Power e faz apontamentos importantes para nossa reflexão.
Ir ao Prêmio Camélias com o Meninas Black Power e assistir a premiação das ações afirmativas de nosso povo é interessante. O reconhecimento das ações é necessário, e momentos de confraternização entre nós são especiais. Mas confesso que sinto falta de mais gente que atua na militância dia-a-dia nesses encontros, participando mais ativamente sendo contempladas também.
Olhar pro passado e perceber que a semente plantada em nós, através das militantes do final da década de 90, germina a cada dia e faz-se presente através da nova geração de ativistas. As "Meninas Black Power" está ai e o viés da consciência está mais vivo do que nunca. Combater a baixa auto-estima de mulheres negras que ainda são flageladas com esse sistema que prega a não aceitação de nossa herança e insiste para que anulemos nossa identidade é a meta. Sem exotismos. Somos mulheres, negras, lindas, conscientes e estamos construindo nosso próprio espaço midiático, baseado em nossas referências, para que outras gerações não venham sofrer o que sofremos até aqui.


Jaci Melquiades é historiadora e faz parte do Coletivo Meninas Black Power RJ. Encerra nosso post ressaltando o tema abordado pelo Prêmio nessa 7˚ edição.

"Ver a Pequena África como pano de fundo em um evento tão importante, sublinha a importância da militância negra. Ver um Evento tão importante sendo organizado para (e pelo) preto ressalta o quanto de vitória já conseguimos desde quando ser livre era teimosia. Presenciar uma premiação centrada em Ações Afirmativas que focam na dissolução da desigualdade racial, refaz o ânimo."



Equipe MBP RIO
Foto: Zezzynho Andraddy

segunda-feira, 13 de maio de 2013

DENÚNCIA: 13 DE MAIO NÃO É DIA DE PRETO!




“A extinção do elemento servil pelo influxo do sentimento nacional e das liberalidades dos particulares em honra do Brasil, adiantou-se pacificamente de tal modo que é hoje aspiração aclamada por todas as classes em admiráveis exemplos de abnegação por parte dos proprietários. Quando o próprio interesse privado vem espontaneamente colaborar para que o Brasil se desfaça da infeliz herança, que as necessidades de lavoura haviam mantido, confio que não hesitareis em apagar do direito pátrio a única exceção que nele figura, em antagonismo com o espírito cristão e liberal de nossas instituições".


Discurso da Princesa Isabel proferido no Paço Imperial no dia 13. 05. 1888

 Clamamos que mulheres pretas e homens pretos entendam as entrelinhas da farsante Lei da desmantelada Princesa e sua elite familiar. Que haja o entendimento por nós e de nós mesmos que o 13 de maio não é data para se comemorar! É data de reflexão ativa! É data para se ensinar às nossas crianças a História que nós, hoje adultos, não aprendemos na escola. Ensinar que fomos, pretas e pretos escravizados, descartados pelo transcorrer da História que não via mais vantagem na escravidão declarada em Lei.
Imaginemos a ‘invenção’ da liberdade pela elite, num diálogo:
“Ingleses – Oh! Pessoal do Brasil, não dá mais para negociar com vocês porque vocês ainda estão trabalhando com mão de obra escrava, não pode mais, tráfico negreiro foi instinto de 1850 com  Lei Eusébio de Queiróz, como vamos comercializar dessa maneira? Fica feio pra gente, e a pressão aqui é violenta...
Senhores Brasileiros - Peraí, marca um dez, que vou pensar aqui (enquanto isso uma reunião de senhores brasileiros, um falava mais alto que o outro)
De repente, um grita – Já sei!
(Todos viram para ele)
Senhor Brasileiro - Chama a Isabel lá! (uma negra escravizada corre para chamar a sinhá)
Vem Isabel ajeitando os cabelos e as roupas, nervosa sem saber o que estava acontecendo.
Senhor Brasileiro – Isabel, pega a caneta ali – rápido! E você, negro (tom de desprezo), chame o Coronel e peça que ele convoque fotógrafos, a Igreja,  a imprensa. E não esqueça de juntar sua negrada também, fiquem atentos!
Senhor Brasileiro – (Vira-se para Isabel) Escuta Isabel, estamos perdendo o mercado lá fora e isso não é nada bom para a nossa família, como vamos continuar a ampliar as nossas terras? Nossas riquezas? Olha, quando chegar todo mundo, você assina esse negócio aqui que vamos chamar de... (pensando) ... Deixa eu ver (pensando, pensando... Eureka!) Ah! Já sei! Abolição da Escravatura... é isso!
Esse nome é bem legal, não acha?
Vamos lá, tem que ser lá fora para que todos possam nos ver.
Tiram a foto da Princesa Isabel com o tema Abolição da Escravatura e imediatamente retomam os seus negócios e voltam a comercializar com o exterior. Enquanto do lado de fora, a maioria dos negros escravizados pulam de euforia, afinal a Liberdade sempre foi o sonho mais intenso de todos eles.
Mas, no dia seguinte, as mulheres e os homens negros escravizados desde o seu primeiro minuto em solo brasileiro, se viram na rua, olhando para o seus pés descalços; para seu corpo maltrapilho e faminto; para sua vida, sem paradeiro...
Essa Lei Suja nos manteve escravos sociais. 
Largados, adoentados, desabrigados, descuidados e marginais: é isso libertação?! 
Libertação é conhecimento em profusão e entendimento da própria História.
É escrevê-la com sua própria letra.
É assinar suas próprias Leis!

13 de maio não é dia de Preto!

quarta-feira, 1 de maio de 2013

MBP TESTOU - CREME NOTURNO



 Tratar dos cabelos durante a noite é prático para quem não tem tempo e ideal para quem gosta de um tratamento mais longo. Hoje em dia, temos vários cremes que nos fazem acordar mais lindas do que já somos. Eu separei dois tratamentos que uso e aprovo e tenho o prazer de dividir minha opinião com vocês.
Uso tratamento noturno quando sei que vou passar por uma semana mais corrida do que o normal e sei que não terei tempo de fazer os meus carinhos capilares como de costume. Vario entre os dois produtos que tenho e amo!
O primeiro é o Creme Noturno Revitalização Pós Química da linha Natura Plant. Ele tem um ativo chamado triglicerídeos de gergelim que ajuda na hidratação e no fortalecimento dos cabelos. Ele é fluido, não pesa nos cabelos, tem um cheirinho suave, não mancha o travesseiro e pode ser deixado ou retirado dos cabelos após a sua aplicação. Após a utilização desse produto, você sente o cabelo mais leve e o seu uso contínuo auxilia no tratamento da porosidade dos cabelos. É um ótimo produto e custa R$ 23,90 com 150ml.
O meu outro lindo noturno é o Tratamento Noturno- Restauração Intensiva da linha Advance Techiques da Avon. Ele tem em sua composição: creatina, pantenol e manteiga de karité que ajudam a hidratar e nutrir cada mecha do seu cabelo enquanto você dorme. Muito fluido, é um creme ideal para quem tem a intenção de não retirá-lo no dia seguinte, ele não pesa nos fios. Deixa um aspecto de gloss no cabelo e um cheiro agradável. É de fácil aplicação e tem um preço camarada, R$15 em média, 100ml.

Uma dica importante de aplicação do creme noturno é aplicar mecha por mecha dando uma atenção especial às pontas. Depois é só sonhar com os anjos e acordar linda de viver!
Beijos crespos!

terça-feira, 23 de abril de 2013

TIPO COLÔMBIA - PARTE 1


        Opa! Estou na área. Se derrubar é penalt! [risos] Tudo bem, meninas? Já estive aqui uma vez contando minha experiência no doloroso processo que é cortar as madeixas. Hoje vim falar de viagens. Quem não ama viajar? Ainda mais com tu-do pago. Melhor ainda! 
     Em Janeiro do ano passado todo mundo aqui em casa estava com o coração na mão, pois eu tinha acabado de ser chamada pra fazer um intercâmbio de seis meses na Colômbia (Oi? O que? Mas e as FARC?!) e minha família estava "louuuca, louquinha"!
        Foi um corre, corre. Procura visto daqui, documentos pra lá, mala, roupa, casa pra morar e tudo que vinha no pacote. Sei que no dia 10 de Fevereiro de 2012 eu estava pegando o avião para a viagem mais incrível da minha vida! Cheguei lá sem falar nada de espanhol e precisava me virar pra encontrar a casa onde eu ia morar (acertamos tudo pela internet, eu não os conhecia, foi na cara, na coragem e na fé) peguei um táxi e finalmente cheguei no bairro onde eu poderia chamar de meu durante os próximos 6 meses (só que não, porque quando você menos espera a vida muda os planos!).
      Eles eram uma família super simpática e me dei muito bem com eles apesar do meu espanhol precário. Minha faculdade era linda, musical e super artística. Durante as aulas os estudantes de música tocando violino pelo campus, os de artes pintavam e os de exatas eu não sei porque não falava com eles [risos].

      Na minha mala tinha tudo o que eu precisava e inclusive meu super secador de cabelo! Porque eu sabia que Bogotá era uma cidade fria e que não ia sair na rua com meu black molhado. No começo das aulas eu me sentia uma estranha na faculdade. Primeiro porque era a única estrangeira nas minhas aulas, segundo que era a única negra nessas aulas. Em Bogotá é muito difícil ver gente negra, muito mesmo! Então eu era quase um E.T. pra eles. Bem, eu me sentia um E.T. pra eles.

      Alguns dias eu ia de cabelo solto, nos outros tacava um turbante na cabeça, até estar sem paciência, prender tudo pra cima e partir pra aula. Foi complicado, sabem? Eu queria ter a experiência de deixar meu cabelo mais  ao natural, mas aqui no Brasil não tinha muita coragem, então, durante a viagem, fui obrigada a deixar, né?! Eu não ia entregar meu cabelo suado nas mãos de um desconhecido, ainda mais um desconhecido que não fala a minha língua!

       Mas se vocês estão pensando que eu fiz uma viagem maravilhosa e que deu tudo super certo, estão enganadas! Como o bom da vida é ser surpreendida, essa viagem foi uma caixinha de surpresas. Fica de olho aqui que no próximo episódio da série eu conto mais. Abaixo fotos dos primeiros momentos por lá.






segunda-feira, 22 de abril de 2013

DESCOBRIDORES SOMOS NÓS!


     Se em uma gincana a prova final fosse um quiz de perguntas e respostas sobre História do Brasil e a questão final, a que vale o prêmio, fosse "O que se comemora no dia 22 de abril?", sua resposta seria "o Descobrimento do Brasil"– correto?
       Bom, a minha resposta, e a resposta de muitos brasileiros que questionam e criticam a História, seria outra. Eu responderia que no dia 22 de abril não se comemora nada. Só lamentamos ‘a Invasão do Brasil’.
   Não fomos descobertos: fomos ameaçados e dizimados por uma cultura superior (cultura eurocêntrica, que se julga superior às demais, por estarem no ‘centro’ do mundo, e por considerarem sua forma de organização social superior à outros povos), que subjugou mulheres, homens e crianças indígenas, oferecendo a eles apenas suas doenças e sua forma de vida totalmente diferente. Fomos adestrados a andar com roupas pesadas, próprias para um clima que não é o nosso. Tivemos o direito de adorar nossos próprios deuses negado pela imposição cultural elitista, que julga seus modos de vida mais adequados. Essa invasão fez com que homens e mulheres africanos fossem sequestrados de África, para construírem com suas mãos e braços o futuro civilizado de uma elite que só sabia matar a cultura dos índios, roubar nossos recursos naturais para a sustentação de uma riqueza fora da Europa e destruir vidas, famílias, histórias e vivências.
     No dia de hoje, 22 de abril, comemoramos a invisibilidade indígena e afro-brasileira; comemoramos a morte cultural em benefício da bárbara colonização. Por isso, trazemos aqui a seguinte reflexão: precisamos relembrar o Brasil – esse país de Tupis, Guaranis, Tupinambás, Ticunas, Guajajaras, Xavantes, Potiguaras e Pataxós. Um país de Nagôs e Bantos. Relembrar que esses povos são os legítimos patrocinadores dessa ‘invenção’ que é o Brasil.
   Temos uma Lei constitucional que garante o resgate dessa memória estrategicamente silenciada. Lei esta que completa, neste ano, 10 anos. Falamos da Lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003, alterada pela Lei 11.645, de 10 de março de 2008, “que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena” (texto da Lei). Porém, é sabido que a lei não é amplamente cumprida nos espaços de educação, mantendo alunos-cidadãos desconhecedores de sua própria história.

A lei apresenta um texto claro, mas as brechas encontradas no Sistema se aproveitam para manter obscuro a atuação do indígena, e principalmente do Negro, descendente direto de africanos. Um mecanismo muito sofisticado do racismo que percebe no esquecimento a ferramenta ideal para o aniquilamento de um povo.
 


Sem conhecermos histórias de grandes guerreiros como Zumbi, não teremos autoestima para reivindicar nossos direitos enquanto cidadãos. Se conhecêssemos a vida de Rainha Nzinga, certamente nossa autoestima seria afirmativa e reconheceríamos em nós a resistência e a luta. Se soubéssemos de nossas raízes culturais, não teríamos tanta vergonha de nossos cabelos, corpos e passado. Seríamos mais fortes, e assumiríamos nossa militância. E isso o sistema não quer!
Que através dessas reflexões, possamos repensar o significado dessa data história que não nos representa. Sejamos nós, Meninas e Meninos Black Power, cidadãos críticos: não vamos aceitar tudo que nos impõem. Vamos resgatar a História de nosso povo, porque somente conhecendo o nosso passado é que faremos nosso futuro algo mais digno e humano. Vamos reescrever o Brasil!!!