SOMOS O QUE SOMOS

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por Renata Morais

Foto: Lulu e Lili Acessórios
      Estávamos no aeroporto em Brasilia voltando para o Rio. Passamos rápido por uma lanchonete já na área de embarque e uma criança branca, lisa e loira, toda de rosadinha, já com o lanche na mão, olha para a Elis e grita: "Cabelo feio!". Gritou bem alto. A menina tinha uns três anos, com certeza reproduz o que ouve em casa ou na escola. Eu e o meu marido olhamos para ela bem sérios e ela abaixou a cabeça.
      A Elis não olhou e seguiu sem falar nada. Só apertou minha mão. Sentamos e eu perguntei se estava tudo bem. Ela não quis falar, só me abraçou. O pai ficou revoltado, queria que ela falasse o que estava sentindo ou que ela respondesse. Não dá. Ela só tem quatro anos... É estilosa, toda descolada e esperta, porém o racismo e preconceito fazem isso com a gente.
      Eu queria muito entrar em seu peito e retirar aquele nó que só o racismo faz. Aquele aperto misturado com vergonha. Ela não esperava aquele grito, ela não está acostumada com isso.  Veio sem falar nada, dormiu a viagem toda. Ainda não toquei no assunto aqui em casa, mas sinto que o trabalho precisa ser mais firme. Pais: seus filhos, mesmo que pequenos, já são vítimas do racismo. A resistência deve ser diária. É conversa, leitura, ver representação. Isso será para sempre. Não é vitimismo, infelizmente é nossa realidade.

PRETA, SEU DIA É SEMPRE!

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por Coletivo Meninas Black Power


      25 de Julho, Dia da Mulher Afro-Latina-Americana e Caribenha e da lembrança de Tereza de Benguela, ícone da resistência ente mulheres negras no Brasil. Um dia todo nosso desde 1992, quando a data foi criada, durante o I Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-caribenhas.
      Você deve ter notado que não falamos nada antes, né? Sim, desta vez chegamos propositalmente atrasadas, mas não esquecemos. Queremos lembrar que esta data deve transcender um dia específico, especialmente dentro de cada uma de nós. Mesmo diante da objetificação dos nossos corpos, diferenças expressas nos salários ou nas oportunidades, privações e violências, solidões e tantas outras coisas que podem querer deixar a vida mais triste, lembre agora mesmo o quanto você é preciosa para nós e para o mundo. "Nossos passos vêm de longe", como nos ensina o livro, então perceba nossos avanços, nossas conquistas. Continue caminhando. Estamos vivas e lindas! Seja espelho para as outras e reflita em você mesma os valores construídos através dos tempos. Ame quem você é, a mulher que você se torna todos os dias, viva feliz, divida suas dores e não pare de brilhar.
      Para nós, integrantes do Coletivo Meninas Black Power, cada mulher preta que atravessa nosso caminho com experiências, lutas e alegrias para compartilhar, possui valor inestimável. Nosso coração bate mais forte ao perceber o quanto somos lindas nessa diversidade de texturas, tons, formas e ideias. Queremos agradecer por nos potencializar e dizer o quanto sentimos orgulho de cada empreendedora, estudante, profissional, pensadora e tantas outras coisas que brotam e evoluem diante dos nossos olhos. É um prazer desenvolver conteúdos que dialoguem com nossas necessidades, mas fica melhor quando podemos ouvi-la, abraça-la e receber todo o carinho. Assim sentimos que somos muitas, somos todas. Não estamos sozinhas e é maravilhoso saber que você caminha com a gente. Você é incrível e não podemos deixar de te dizer.
Muito obrigada, preta!
Seu dia é sempre.

KIT MBP - ARIELLY SANTOS

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por Grupo de Trabalho Moda e Beleza

      Voltamos! Continuando nossa série, conheçam hoje os produtos favoritos da Arielly. As dicas dela são ótimas, especialmente pra Meninas que sempre pesquisam sobre jeitinhos de corrigir as sobrancelhas. Vocês vão adorar! Confiram!
2 - Base TimeWise, Bronze 2, Mary Kay - R$ 59,90
3 - Batom Extra Lasting, Café, Avon - R$ 14,99
4 - Presilha pro cabelo em forma de pente
5 - Elseve Óleo Extraordinário, L'Oréal - R$ 27,89
7 - Fita ou elástico pra fazer afro puff

UM JORNAL PRA CHAMAR DE NOSSO – MBP ENTREVISTA ETIENE MARTINS

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por Élida Aquino

Ilustração: Jornal Afronta
    Vocês já sabem e soa como um mantra por aqui, mas vou escrever novamente: representação é importante. Entre tantos casos diários, conhecidos ou não, de racismo e suas variações, tantas dores que o cotidiano ainda causa aos corpos pretos que circulam pelo mundo, meu coração vibra e se fortalece quando vejo mais e mais casos de resistência doce, posicionada com criatividade, produzindo conteúdo que nos une enquanto comunidade, que mostra nossas potencialidades e proporciona a visão do lado bom (que, com fé, um dia vai superar todos os outros lados da história) de sermos nós. Foi essa a sensação de conhecer o Jornal Afronta, surgindo diretamente de Minas Gerais. O lançamento aconteceu no último dia oito de Julho, na Casa Una de Cultura em Belo Horizonte. A seguir vocês conferem a conversa que tive com Etiene Martins, idealizadora do Afronta e uma jornalista que representa. Entendam melhor quem ela é, o que é o jornal e apaixonem-se por esse espaço que é todo nosso!
Vick, Etiene e Dandara no lançamento do Jornal Afronta - Foto: Jornal Afronta
MBP - Começa contando pra nós quem é você, de onde vem, sua formação e etc.
Etiene Martins - Eu sou graduada em Jornalismo e em Publicidade e Propaganda. Iniciei minha carreira como repórter da Revista Raça Brasil em 2010, quando eu ainda cursava o terceiro período de jornalismo, posteriormente fui convidada para ser assessora de comunicação do Festival de Arte Negra que é realizado em Belo Horizonte. Sempre aliei as minhas duas paixões: o jornalismo e a cultura negra.

MBP - Como é a história do seu cabelo? Ele influenciou de alguma forma na construção do Jornal Afronta?
EM - No meu processo de politização e de me "tornar negra", eu também redescobrir a minha estética afrodescendente e depois de 25 anos alisando o cabelo, no mês da primeira edição do Jornal Afronta, comemoro meu primeiro ano de adeus à química. Esse processo foi crucial na construção desse trabalho, pois a autoestima negra faz parte da linha editorial do jornal. A nossa verdadeira beleza com o nosso verdadeiro cabelo.
A transição - Fotos: Acervo pessoal
MBP - Como surgiu a ideia de criar um jornal como o Afronta?
EM - Diante da falta de espaço para os nossos assuntos, demandas e culturas na mídia convencional, tive que recorrer a uma ideia que surgiu no Brasil em 1915, que é a Imprensa Negra, e através dessa imprensa dar voz mais uma vez ao povo negro. 

MBP - Por quanto tempo o jornal foi planejado até que estivesse em circulação?
EM - Desde de 2012 venho pensando e elaborando esse projeto, mas só agora conseguimos colocar o Afronta na rua.

MBP - Ao acessar a página do jornal vemos que a definição da ideia é "jornalismo étnico racial". O que isso quer dizer?
EM - Um jornalismo com a nossa cara, linda, preta, crespa e cheia de autenticidade.

MBP - Como funciona a equipe que trabalha na criação do jornal? 
EM - Trabalhamos com consciência e amor às nossas raízes e ao nosso povo. A equipe é pequena, mas bem articulada. Conta com um fotógrafo, uma revisora, um diretor de arte e uma jornalista. 
Galera reunida no lançamento do Jornal Afronta - Foto: Jornal Afronta
MBP - Sabemos bem a relação entre mídia e racismo. Como você enxerga que publicações afirmativas, como o Afronta, por exemplo, podem provocar o efeito contrário? Como podem promover o efeito de educar para a igualde e também fortalecer a comunidade negra, fazendo com que ocupe espaço de destaque?
EM - O Jornal Afronta veio para reforçar as nossas lutas por uma mídia livre, independente, anti-burguesa, anti-capitalista e bem demarcada ao lado do povo negro brasileiro. Uma imprensa de combate que evidencie sim que nosso povo negro brasileiro existe e tem uma cultura, tradição e beleza valiosa,  mesmo que tentem nos negar isso. 

MBP - E de que forma você entende que o jornal pode empoderar a população negra, especialmente mulheres negras? 
EM - A mulher negra sempre leu revistas sem se ver retratada nelas, sem estampar as capas, sempre sendo menosprezadas e invisibilizadas. O Afronta veio suprir essa demanda que as outras mídias não cobrem. O Afronta empodera sem se render aos estereótipos tão comuns propagados pela mídia branca brasileira colocando nossas mulheres nas capas, ocupando um espaço que também é nosso por direito . 

MBP - Quais pautas você considera mais relevantes entre os assuntos que permeiam a comunidade negra no Brasil e no mundo atualmente? 
EM - Nossa, são tantas! Mas a inserção no mundo acadêmico e profissional é de extrema importância, assim como o direito às práticas religiosas sem censura. O genocídio do jovem nem se fala. O poder ser negra por dentro e por fora, na pele e no cabelo e ser respeitada em todos os lugares. 
Muito #crespoamor e Jornal Afronta na Feira Ébano - Foto: Jornal Afronta
MBP - Concordamos! Agora vamos falar do lançamento. Como a primeira edição foi recebida? Quais assuntos ela abordou? 
EM - Foi recebida com muita festa, alegria e entusiasmo, afinal nosso povo encontra-se ansioso por um espaço digno na mídia. A primeira edição foi permeada por nossa beleza, falando de um evento que reuniu centenas de pessoas para celebrar a beleza do cabelo crespo em BH. Falamos também da tradição dos turbantes. O entrevistado dessa edição foi o doutor e escritor negro Edimilson Pereira de Almeida e o colunista convidado foi o carioca Ras Adauto, que vive em Berlim há mais de uma década. A matéria de capa ficou por conta da Marchas das Mulheres Negras que mobilizou mulheres do Estado de Minas inteiro e levou todas para a rua, exigindo seus direitos. 

MBP - O que podemos esperar das próximas edições? 
EM - Assuntos que comuniquem o cotidiano do povo negro brasileiro na cultura, política, beleza, educação. Pretendo falar de tudo um pouco. 

MBP - Em que locais o jornal está disponível? Pretendem abranger outros Estados? Quais e quando? 
EM - Atualmente o jornal está disponível em galerias de artes, botecos, salões de beleza, rodas de samba, universidades, feiras e eventos em que o nosso povo circula na grande BH. Na próxima edição pretendemos atingir os Estados de Rio de Janeiro e São Paulo e pouco a pouco ocupar nosso país.

É isso, Meninas. Que ideia genial, né?! 
Não deixem de curtir a página do Jornal Afronta aqui e acompanhem todas 
as novidades que virão. Beijos!

7 MITOS SOBRE CRESPOS NATURAIS PARA NÃO ACREDITAR MAIS

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por Élida Aquino

Ilustração: Refinery29
        Adoro observar as Meninas e suas texturas crespas por aí. Todas são tão particulares, imprimem uma identidade tão profunda que se mistura com nossa histórias... Mas desconsiderando a infinidade de texturas (maravilhosas!) que existem, cabelos crespos naturais ainda são simplesmente um monte de fios emaranhados e difíceis de "controlar" na opinião de muita gente. Pessoas com cabelos crespos, que convivem com outras pessoas de cabelos crespos, ou até as que desconhecem o que é ter cabelo crespo, estão acostumadas com a visão de que crespo é sinônimo de "ruim", difícil de lidar. Não é incomum encontrar quem diga que não devemos optar por usar o cabelo naturalmente crespo, seja lá a textura que tiver, já que "cabelo ruim não tem jeito". Chegam até a cogitar que ficamos loucas ao saberem que estamos em transição ou que cortamos toda a química. 
     Felizmente estamos vivendo um movimento forte que apresenta as possibilidades do natural como forma de posicionamento político e, principalmente, de conhecimento da beleza que nunca foi vista como aceitável, mas que pode e deve aflorar em cada uma. Por isso é cada vez mais importante quebrar os estigmais sociais sobre o que o cabelo crespo realmente é. Este post está aqui pra ajudar a pensar sobre alguns mitos frequentes. Ele foi originalmente publicado pelo Refinery29 e reúne opiniões de especialistas em cabelos crespos que explicaram tudinho. Vocês devem conhecer outros mitos e podem contar aqui nos comentários ou na página Meninas Black Power. Vamos lá reposicionar os conceitos! 

MITO 1: "CABELO CRESPO NÃO CRESCE!"
Temos visto várias Meninas naturais, principalmente as com texturas do tipo 4, obcecadas com o crescimento de seus cabelos e desapontadas quando não notam visivelmente que seus fios estão crescendo como planejaram ao iniciar aquele "tratamento mágico" com alho, café ou pó de guaraná. Calma, gente! Anthony Dickey, cabeleireiro e co-fundador do salão Hair Rules, diz que "independentemente da textura, todos os cabelos crescem cerca de um quarto e meio de polegada por mês. O desafio para naturais é começarem a cuidar de seus cabelos fora do ponto de vista de outras pessoas, como se seus cabelos precisassem se comportar como cabelos de outras texturas. Isso ajudaria a entender o comprimento real, como o cabelo se comporta e o ritmo particular de crescimento." Sabendo que cabelo crespos e naturais podem ser bem mais enrolados, o crescimento nem sempre fica tão evidente quanto em cabelos lisos, alisados ou até mesmo relaxados. Além disso, é preciso lembrar: o fator encolhimento está aí. Extrapolar no uso de métodos que aumentam o comprimento, abusar da aplicação de calor no secador, não desembaraçar ou hidratar adequadamente, por exemplo, são hábitos que podem conter o crescimento.


MITO 2: "VOCÊ DEVE LAVAR SEU CABELO DE VEZ EM NUNCA."
É verdade que os cabelos crespos não devem ser lavados tão frequentemente – a gente sabe que nosso cabelo não retém a hidratação naturalmente com tanta eficácia e etc. Mesmo assim a água pode realmente ser seu nossa aliada. A fundadora da Curls, Mahisha Dellinger, lembra que os produtos tendem a ficar acumulados sobre nossos fios e acabam bloqueando a capacidade de “respiração” do couro cabeludo e dificultando a entrada da umidade. É importante não prolongar o tempo entre uma lavagem e outra. "Você definitivamente não deve lavar o cabelo todos os dias, mas faça ao menos uma vez por semana e coloque um co-wash¹ no meio da semana. A finalidade é limpar o cabelo. Não considere que está apenas retirando o acúmulo dos produtos. Lembre-se que existem muitos resíduos trazidos pelo ambiente que ficam sobre os fios", ela recomenda. 

Ilustração: Refinery29
MITO 3: A APLICAÇÃO DE ALGUNS ÓLEOS NO COURO CABELUDO FAZ O CABELO CRESCER MAIS RÁPIDO
Muitas devem usar estas aplicações com o intuito de hidratar o couro cabeludo, mas podem provocar o efeito oposto. Mahisha lembra que "alguns óleos podem conter petrolatos ou óleo mineral na composição e esses componentes entopem os poros, bloqueiam o couro cabeludo". Várias mulheres de cabelos naturais pensam em alguns óleos como hidratantes, mas na verdade não são. Eles estão na verdade funcionando como selantes. "Se você aplica óleo sobre o cabelo seco, a chance de aumentar o ressecamento aumenta. O ideal é usar óleos vegetais, livres de componentes prejudiciais, após condicionar e finalizar. Assim você estará selando a hidratação com óleo”. 

MITO 4: "CABELOS CRESPOS NATURAIS SÃO MAIS FORTES QUE OUTROS TIPOS DE CABELO."
Mesmo que algumas texturas de crespos naturais pareçam mais rígidas, a realidade é que os fios são muito delicados. "As pessoas pensam que porque são crespos, cheios de texturas e possibilidades, eles podem resistir a qualquer coisa", diz Mahisha. "Crespos são tipicamente frágeis, propensos a quebra e ressecamento. Precisam ser tratados delicadamente, com cuidado extra".

Ilustração: Refinery29
MITO 5: "APARAR SEMPRE AS PONTAS VAI FAZER SEU CABELO CRESCER."
Há uma verdade parcial aí, já que aparar as pontas impede que pontas duplas rompam a extensão do fio, danificando o cabelo em longo prazo. Mas o caminho para um cabelo mais longo não é cortar sempre que puder, mas cuidar do cabelo que vem do couro cabeludo. "Prestamos muita atenção para as extremidades, porque esta é a parte mais antiga do cabelo, mas esse cuidado promove grande impacto no crescimento? Não. Crescimento começa no couro cabeludo. É importante manter o couro cabeludo saudável", ressalta Mahisha. Óbvio que todo o cabelo merece atenção – da raiz ás pontas - mas pense que aparar de leve a cada seis ou oito semanas é o suficiente.

MITO 6: "VOCÊ NUNCA, NUNCA, DEVE USÁ-LO ALISADO!"
Sim, se não for feito com segurança, escovas e chapinhas vão acabar alterando o padrão dos fios, diz Derick Monroe, especialista da SoftSheen-Carson. Mas, quando executado da maneira adequada e usado ocasionalmente, os fios ficam intactos. A conversa é sobre a quantidade de calor a que você expõe seu cabelo. "Se ele sobreaquecer, partes da extensão começarão a quebrar. Quando você voltar para o formato natural dos fios eles não vão enrolar da mesma forma. Nós chamamos isso  de relaxamento térmico, porque uma vez que você altera esses seguimentos do cabelo, está feito. É como um relaxamento químico." Certifique-se de que você está tomando as devidas precauções: usar um o secador com um pente, para não aplicar calor diretamente sobre os fios; sempre, sempre, sempre hidratar; condicionar; aplicar protetores térmicos antes; não abusar da chapinha. Se você vai a um salão para fazer uma escova em seu cabelo natural, certifique-se que você está em mãos cuidados, que vão cuidar adequadamente dos seus cachinhos - preferencialmente alguém que especialista nos cuidados do cabelo natural.

Ilustração: Refinery29
MITO 7: "É DIFÍCIL LIDAR COM UM CABELO CRESPO NATURAL!"
Cabelo natural exige tempo e paciência, mas "difícil" não é uma palavraque se encaixa nele. Não há dúvida de que é preciso dedicação, especialmente para as que já usaram relaxantes ou alisantes a maior parte de suas vidas. A ideia de cuidar desta "nova" textura, ainda desconhecida, e sabendo que aprendemos que esse cabelo natural não é bom, pode assustar no início. Como optar por algo ruim, feio, indesejado, não é? Mas é preciso avaliar o que quer, como pode funcionar sua rotina de cuidados com base em seu estilo de vida. "A única mudança é a textura. Quando você assume sua textura naturalmente crespa, desembaraçar corretamente, condicionar e finalizar acabam sendo etapas executadas de forma diferente. Mas, ao mesmo tempo, seu crespo pode se apresentar bem mais versátil se você se permitir descobrir o que ele pode oferecer. Você pode sair com ele molhado, tipo wash and go², e num outro dia mudar a textura com twits ou coques bantu. É incrível!", avisa Mahisha.
Aprendam com seus cabelos, Meninas! Eles são sensacionais!

Glossário #meninasblackpower:
¹ Co-wash - "Co" de condicionador + "wash" de lavar. Essa técnica consiste em substituir o uso do shampoo na lavagem por um condicionador (preferencialmente um produto liberado para no poo; isto é, que não possua agentes como derivados de petróleo, por exemplo). O condicionar possui agentes de limpeza mais suaves que o shampoo e ajudam a potencializar a hidratação.
² Wash and go - "Lavar e ir", ao pé da letra. É fazer todo o processo de lavagem, condicionamento e finalização, estilizar os fios de um jeito que você possa ir pra onde quiser usando os fios ainda úmidos, sem tanto medo do fator encolhimento ou frizz.

#FALANDODETRANSIÇÃO COM THAYNARA ARAUJO

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por Grupo de Trabalho Moda e Beleza

Fotos: Acervo pessoal
    Desde sempre compartilhamos depoimentos sobre o processo de transição. É importante pra gente repassar exemplos de descoberta, de liberdade. Isso inspira, motiva e mais que tudo: mostra que é possível reposicionar o conceito já conhecido sobre a beleza de quem somos através de nossos traços, nossas pigmentações, nossas texturas no cabelo e por aí vai.
        Hoje temos o prazer de receber a Thaynara Araujo. Ela vai contar a experiência de transição (e inspirar pra caramba!). A casa está aberta pra todas que quiserem fazer o mesmo. Use a hashtag #falandodetransição, mande email pra blogmbp@gmail.com, entre em contato com uma das integrantes do Coletivo Meninas Black Power... Enfim, use esse espaço. É nosso, é seu. Agora aproveite a ideia da Thaynara e vá lá se conhecer. Beijos!

"Enquanto mulheres e meninas negras, somos submetidas, todos os dias a um padrão imposto pela sociedade que não nos contempla. Querem que disfarcemos nossos traços, nossa cor e, principalmente, nossos cabelos. Essa imposição começa desde a mais tenra idade, na pré-escola. Na mídia, há pouquíssimo espaço para representação. Na escola, somos chamadas das maiores atrocidades possíveis e assim por diante. Comigo não foi diferente. Aos três anos, fui submetida ao mundo do 'relaxamento capilar' pela minha mãe. Numa realidade muito comum à mulher negra, ela trabalhava em três turnos e não tinha tempo para cuidar de um cabelo tão volumoso e 'trabalhoso' quanto o meu. Assim, fui apresentada à guanidina, que usei por longos anos. Durante toda minha infância e adolescência passei pelos mais variados tipos de 'relaxamento': guanidina, lítio, tioglicolato e também por outros tipos de química, como o henê indiano. Tudo com o mesmo objetivo: tornar meu cabelo mais 'maleável', de forma que fosse aceito pelos padrões estéticos da sociedade. Aos quinze anos, conheci o que foi pra mim a realização de um sonho na época: a progressiva. Ela seria o fim de todos os meus problemas, já que prometia o resultado sempre tão buscado num cabelo liso, sem volume, sem frizz. Isso significava que eu poderia ser como as meninas da minha turma, que eu poderia ser bonita também. Mas junto com a ilusão e a esperança veio o grande 'problema'. Uma raiz que nunca ficava lisa e os retoques sucessivos, cada vez num tempo menor, a fim de tentar manter um aspecto 'natural' do cabelo. Assim como muitas, foram muitos dias nos salões, aguentando enquanto a química agia no meu couro cabelo, ardendo, coçando e muitas vezes, chegando a abrir feridas. Eu não entendia o porquê daquilo e muito menos porque eu sempre ouvia o mesmo 'mulher [negra], pra ficar bonita, tem que sofrer'. Eu queria ser como todas as meninas brancas que eu conhecia, apesar disso, por mais que eu tentasse, eu não conseguia. Meu questionamento enquanto mulher preta começou quando eu tinha por volta de 15 anos, estava no Ensino Médio e comecei a estudar em uma escola pública Federal. Ainda assim, eu não me sentia representada naquele espaço, no entanto, já me perguntava sobre todas essas questões. Graças à internet e ao amplo acesso às informações que nós temos hoje em dia, conheci grupos na internet, como o Meninas Black Power, onde muitas meninas se encontravam na mesma situação que eu e só então fui capaz de compreender muitas questões, principalmente o racismo e o sexismo. Em 2013, conheci a transição capilar (processo onde você deixa seu cabelo crescer naturalmente para tirar a parte com química dele). Eu não conhecia a textura do meu próprio cabelo, não sabia como cuidar dele e não imaginava como ele ficaria natural. Por muito tempo, acreditei que não seria possível ele voltar ao normal. Foi um processo muito difícil, pois não tive apoio nem da minha própria família. Me falavam sempre o quão 'duro' meu cabelo ia ficar, que ele ficaria feio, que eu não ia aguentar e me arrependeria. Quatro meses depois, cortei meu cabelo com apenas três dedos de raiz e durante algum tempo eu o deixei crescer natural, mas com tantas críticas, acabei ficando com a autoestima muito sensibilizada e voltando a fazer progressiva no cabelo, só para 'soltar os cachos'. Não deu certo. Depois de algum tempo, meu cabelo estava completamente disforme de novo. Durante um ano, conheci muitas amigas que me deram força para voltar à transição e assumir meu cabelo. Comecei a colocar esse ato enquanto político, acima de estético. Não era mais apenas uma questão de ficar livre da química, e sim um ato de resistência, de amor à mim mesma, a minha cor e aos meus traços. Finalmente me entendi como mulher negra e só assim a transição foi possível. Dessa vez foi diferente. Não era mais algo realizado por influência externa e sim uma necessidade interna. Mais uma vez, cortei meu cabelo. Ouvi, novamente, muitas críticas mas tive o apoio necessário para continuar. Atualmente faz cerca de um ano que mantenho meu cabelo natural. Acima de tudo, fico muito feliz por sido considerada um exemplo e ter conseguido apoiar amigas que passaram pelo mesmo processo. No lugar onde eu trabalhava, muitas meninas hoje já passaram pela transição, bem como na minha família também. É sempre importante ter essa representatividade, para que possamos entender onde estamos, quem somos e saber que podemos e devemos ocupar 
todos os espaços."

A DONA DO RAPJAZZ - MBP ENTREVISTA TÁSSIA REIS

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por Karina Vieira

Foto: Ericsigaki
     Há alguns meses atrás fui apresentada a um som que foi me arrebatando aos poucos,uma voz gostosa, daquelas que você não consegue parar de escutar. A música era assim: 
Eu fico sempre na moral
Mas, sabe? Más noticias abalam o meu astral
Eu tô legal, não tá ruim
Tô forte, tô viva, tô bem longe do fim
Acho, né?
Sempre levando uns toco, a vida dando uns soco
Há quem ache que é pouco, mas não é
Mas nem ligo pros outros, quero chegar no topo
Loucura racha coco. Sem ibope pra mané
Sem desperdiçar energia
Várias patifarias querendo me arrastar
Não dou ideia pra essas heresias
Sou de periferia, tipo, ruim de se enganar
Mas deixa os bicos zoar
Ninguém vai assumir, mas todos querem brilhar
Minha intuição quer cantar, tira um segundo pra ouvir
Que eu não costumo falhar...”
      Corri pra descobrir a dona daquela voz, daquele beat poderoso, e me deparei com Tássia Reis, 25 anos, rapper, paulista do interior, Jacareí. Já apaixonada, quase surtei quando recebemos o convite para participar de um laboratório chamado Atravessamento, ministrado pela Tássia e pela Isis Carolina no evento PRÉ-ELLA, na Casa Coletiva, aqui no Rio. Algumas tardes de trocas, conversas e um ótimo show acabaram nessa entrevista. Espero que vocês curtam e conheçam um pouco mais  da Tássia e toda sua musicalidade.

MBP - Quem é Tássia Reis?
Tássia Reis - As perguntas simples são as mais difíceis de responder [risos]. Eu sou uma pessoa determinada que gosta de criar e transformar as coisas, de unir pessoas, de questionar. Talvez por isso, meu impulso musical e artístico, acredito que a música e arte no geral tem esse caráter além de aquecer a nossa alma. Muitos dizem que sou muito corajosa e até maluca. Talvez eu seja também.
Foto: Acervo pessoal
MBP - Como se deu a sua vivência enquanto mulher preta? Como você descobriu que é uma mulher preta?
TR - Lembro do meu pai me dizendo (e até hoje diz) que somos lindos porque parecíamos com ele. Ele brincava com propriedade porque é lindo mesmo, então esse ensinamento foi algo orgânico. Fez muita diferença pra mim, quando entrei na escola. Acredito que a escola é o pior lugar para uma menina preta. É um bombardeio de informações e estereótipos racistas que faz você acreditar que é menos. Quase sempre acreditamos. Meus pais me achavam linda, mas na escola não me achavam, e esse período que transita da infância para a adolescência é muito cruel pra nós. Minha lembrança de me sentir maravilhosa e vencer todo esse vírus foi quando conheci a cultura Hip Hop e tive referências fora de casa. Quando me apresentei pela primeira vez com o meu primeiro grupo de dança, senti que o que meu pai sempre me dizia e diz. Sempre foi verdade eu ser linda e maravilhosa.

MBP - Você já participou de algum movimento (movimento negro/coletivo negro)?
TR - Sou o tipo de pessoa que se envolve muito no que faz. Quando comecei a dançar não foi diferente. No começo dançava numa oficina de dança e me dediquei muito pra aquilo, o que fez criarmos autonomia para dançar além das oficinas. E fui passando de grupo em grupo, porque a realidade colidia com a nossa utopia de ser dançarinos profissionais, e muitos desistiram. Até que passei estive num grupo em especial. Se chamava Stylo Guetto e ao passar por esse processo de saída das pessoas, as mulheres do grupo resistiram e naquele momento senti que tínhamos uma parada pra fazer. Nos unimos, fizemos uma coreografia com rap nacional e lutamos pra apresentar num festival de dança que pra gente foi a glória. Autonomia de criar e apresentar algo por nós mesmas foi incrível! Foi a primeira movimentação de que me lembro. Depois acabamos nos tornando uma pequena crew que tumultuava nos eventos, representando sempre nas rodas de dança, um bando de mulher dançando muito.

Foto: Anna Mascarenhas
MBP - Como é a sua relação com o seu cabelo? Você passou pela transição?
TR - Eu sempre gostei do meu cabelo, mas tinha vergonha porque as outras pessoas não gostavam. Sempre fui resistente a fazer um alisamento. Achava que não combinava comigo o cabelo alisado. Porém fiz diversos relaxamentos com o pretexto de "soltar a raiz" pra ficar mais fácil de pentear. Usava preso ou trançado. Minha mãe trançava meu cabelo. Quando cresci, ela não podia mais trançar porque não tinha tempo, aí aprendi a trançar e me trançava sozinha. Na escola eles me viam como a "garota estilosa" por causa da trança, mas a bonita com certeza não era eu (na visão deles). Quando terminei a escola em 2006, eu tinha 17 anos e já ensaiava meu crespo natural. Já andava com ele solto, fazia menos relaxamentos, já fazia as nagôs mais "loucas". Acho q sair da escola foi libertador. Me lembro que em 2010 meu cabelo estava totalmente natural e mais uma vez me senti maravilhosa. Depois disso fui mudando por estética. Queria mudar e mudar. Até fiz um processo de relaxamento, mas não era isso que queria. Em 2012 eu resolvi cortar meu cabelo e me inspirei no corte da Rihanna em Rude Boy, só que crespo. Abalei!!! Fui diminuindo aquele moicano até que virou o topete, que uso no clipe Meu RapJazz. Depois daí, em 2013, eu realizei o sonho que era raspar a cabeça. Me lembro que vi uma mulher negra e careca numa festa em 2006 e ela parecia a pessoa mais elegante que já tinha visto. Fiz! Raspei e desmitifiquei o mito de que o cabelo era a moldura do rosto. Me perguntaram se eu odiava meu cabelo, ou se havia me tornado homossexual (não é brincadeira!) e não foi nenhuma coisa e nem outra (no caso da segunda eu tenho muito o direito de me tornar se assim um dia desejar!) eu só queria ver o meu rosto. As pessoas te fazem refém dos estereótipos. Eu odeio que me digam o que eu tenho que fazer. Todos te cobram, você tem que usar alisado, você tem que usar crespo, você tem que cortar, você tem que deixar crescer, você tem que pôr aplique, você não pode pôr aplique. Entendi que o que tinha que fazer primeiro era me amar como vim ao mundo, e se eu quiser mudar o meu cabelo é porque eu quero. Porque eu não sou obrigada a nada. No momento estou deixando crescer porque estou morrendo de saudades de bater o meu cabelo. 

MBP - Qual é o conceito do EP ? O que você espera expressar com ele?
TR - O conceito básico do EP é me apresentar. É como se fosse um grande "oi!" que gostaria de dar ao mundo, contando um pouco de minha história começando pela minha infância, citando algumas experiências, falando também sobre minha esperança no amor e minha autoestima, da minha ansiedade e do modo como gostar de enxergar as coisas com positividade, questionamento e romantismo (de um modo geral).

MBP - O que é ser mulher preta no rap?
TR - O machismo existe, é parte da estrutura da nossa sociedade. No rap é muito presente. Dá pra notar quando estereotipam o meu som para tornar mais ameno e não chamam de rap, pelo fato de eu falar com doçura ou romantismo da minha vida. Ao mesmo tempo, quando dou um texto mais falado, insinuam que estou rimando como um homem ou de ter um posicionamento radical. Além das insinuações de que você deve ter pegado fulano pra conseguir tal coisa. Esses papos que dão preguiça, sabe? Ou até mesmo sobre roupa curta e essas coisas. Qualquer dia vou aparecer de maiô só pra quebrar a banca e aí eu vou rachar de rir dos "caga-regra" de que mulher não pode isso, não pode aquilo [risos]. Tem também o lance de dizer que é som pra mina ouvir, mas eu preciso dizer pros boy: sua mina ouve meu rap e você também que eu tô ligada ! [risos] Brincadeiras à parte, tenho participação quase que igualitária nas redes sociais. Oscila, mas mantém uma parcial de 51% mulheres, 49 % homens. Aceita o som. É rap também!
 
Foto: Bernardoguerreiro
MBP - Quem são as mulheres que você admira? Na música, na arte, na dança...
TR - A falta de referência nas mídias brasileiras nos fez prestar a atenção nas irmãs negras que estão a nossa volta, o que me foi e tem sido muito valioso porque tenho valorizado a cada dia mais minhas amigas que são excepcionais, não somente por serem belas, mas por serem MARAVILHOSAS. Vou citar algumas delas: Isis Carolina Vergílio (bailarina, performer e produtora), Lívia Mafrika (universitária, dançarina e cantora), Juliana de Jesus (produtora executiva), Xênia França (cantora e compositora, vocalista da Aláfia), Natasha Vergílio (bailarina, performer e produtora), Samira Carvalho (modelo, artesã e estilista), Daniela Rodrigues (empresária e produtora), Daniele Da Mata (empresária, maquiadora na Escola de Automaquiagem para pele Negra "Da Mata Makeup " ), Loo Nascimento (estilista, stylist, cool hunter, empresária e mais uma penca de coisa) Camila Alvarenga (universitária e empresária), Amanda Coelho (empresária e hair stylist), Welida Souza (hair stylist e dançarina), Janine Mathias (cantora e compositora ) e por aí vai, seguindo a lista do bonde que só cresce. Contando inclusive com vocês, Meninas Black Power, que chegaram na minha vida agora e eu já admiro, viu?!

MBP - O que o Atravessamento pra você? Qual foi o processo de construção?
TR - Pra mim, é um sentimento de invasão, que pode ser tanto bom quanto ruim. Me sinto atravessada quando ando na rua e os olhares me condenam ou subjugam simplesmente pelo fato de ser negra; me sinto atravessada quando vou há alguma festa e algum cara acha que pode me tocar ou me ofender com palavras vulgares sem ao menos me conhecer, achando que sou um objeto qualquer e disponível. Porém me sinto atravessada de uma maneira positiva também. Quando me reconhecem na rua e me lançam palavras de carinho e estímulo, mesmo nunca tendo me visto na vida. Me sinto fortemente atravessada quando as pessoas vão ao meu show e eu vejo no brilho do olhar de cada uma que me permite, a felicidade por estar ali, e a satisfação dessas pessoas ao se sentirem representadas. Me sinto atravessada agora escrevendo pra vocês, porque falar de mim sempre foi difícil. Eu sou muito reservada e revelar com riqueza de detalhes algumas coisas, me atravessa muito. Acho que a vida é feita de atravessamentos sim, e o que nos determina é o que fazemos para lidar com tudo isso.
Um bonde forte no Pré-ELLA.
    É essa diva que anda por aí revolucionando os sons e o mundo que apresentamos orgulhosamente hoje. Temos a honra de ter Tássia entre as nossas. Foi impactante conhecê-la e recomendo para todo mundo. Vocês podem ouvir todas as faixas do EP abaixo, aliás. Aproveitem!