OLHA, EU SOU DA PELE PRETA: GRAÇAS A DEUS!

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por Cecília Oliveira

Foto: Fernando Oliveira
       Há um ano e seis meses, resolvi recomeçar a vida. Balzaquiana, decidi cortar todo o cabelo e me conhecer e reconhecer como mulher negra. Foi resultado de longos estudos sobre identidade, história, negritude. Seria um gran finale de aceitação.
      Foram meses lendo sobre textura, tratamentos, cronogramas capilares etc. Era um mundo que eu não fazia ideia de que existia. Primeiro entrave: como escolher os tratamentos/produtos adequados ao meu cabelo se eu não conhecia meu cabelo? Nas leituras, descobri que existem cabelos de 2A até 4C. Mas qual era o meu tipo? Eu não fazia ideia. Eu precisava saber qual era pra saber como criar meu cronograma capilar e aprender a hidratar, nutrir e reconstruir a massa do cabelo para mantê-lo saudável. E aí, diante da minha decisão, ouvi duas perguntas: “Isso é caro? Vai dar mais trabalho?” Oras! Caras e trabalhosas eram as escovas progressivas para alisar os cabelos!
        Alisei os cabelos pela primeira vez – ao que me lembro – lá pelos 8 ou 9 anos, com a então famosa e maldita "touca de gesso". Lembro de ter me sentido absolutamente ridícula em ficar com cabeça "engessada" por mais de uma hora. Era uma coisa fedida, que deixou meu couro cabeludo vermelho e sensível durante uns dias. Desde então, a cada três meses, lá estava eu de volta, para "domar" aqueles insistentes cabelos que me tiravam o sossego – e a beleza.


      Beleza: tá aí uma coisa que "nunca tive". Sempre me achei muito feia. Magra, "cabelo duro", espinhas, "moreninha". Tudo pra ser preterida. E assim foi por muito tempo. Lembro com clareza de quando chegou a época da formatura da oitava série e precisavam ser formados pares para a cerimônia (não vou entrar no mérito dessa convenção social machista agora). Lembro que eu tinha um grupo de amigos, e nenhum deles quis entrar comigo na tal cerimônia. Ouvi um deles falando: "prefiro a Eduarda. Mais bonita". Eduarda, com seus longuíssimos cabelos lisos e branquinha, era mais bonita. Claro. Hoje entendo a beleza de Eduarda. E a minha. Lembro ainda uma outra vez em que eu estava varrendo a varanda de casa e uma pessoa, procurando por minha mãe – que é branca e viúva de um negro – perguntou se "a dona da casa estava". Cada qual no seu lugar, certo? Errado.

ANTES "MORENINHA". AGORA, NEGRA E…. GAY?
       Pixaim, palha de aço, Bombril, vassoura, leoa, sarará, cabelo duro, cabelo ruim, piaçava. Ouvi isso a vida inteira, mesmo depois de alisar o cabelo, já que ele, mesmo alisado, não tinha a aparência adequada, de naturalmente liso. Mas, aleluia, um dia chegou o dia do Big Chop ("BC" para os íntimos), a hora de cortar tudo. Eu estava tão ansiosa que não aguentaria passar pela transição, forma como muitas meninas conseguem manter o cabelo alisado até ter o tamanho suficiente de cabelo natural pra não precisar cortar "Joãozinho".

Foto: Anderson França
      Pois eu cortei "Joãozinho". E ganhei mais um rótulo imediatamente. Passei a receber olhares, questionamentos sobre minha sexualidade e até vivenciei a homofobia, quando um homem bradou: “isso é uma pouca vergonha! É culpa do Lula e do politicamente correto a gente ter que ver isso!”. Eu estava tomando um suco com uma amiga – também de cabelos curtos – numa lanchonete perto de casa. Peguei uma cadeira para “educa-lo”, mas fui contida. Melhor assim.

ACEITAÇÃO: UM ATO POLÍTICO.
     "Será que você consegue um namorado agora, com esse cabelo?", "será que consegue um emprego?", "sua criança vai sofrer bullying na escola?". Não vou dizer que não pensei nestas coisas. Mas vou dizer que pensei mais nas respostas. Eu gostaria de me relacionar com alguém que me avaliasse e me desejasse de acordo com meu cabelo? Eu gostaria de trabalhar num lugar em que a capacidade das pessoas fosse medida pelo cabelo? Eu matricularia minha criança em uma escola que mandasse cortar o cabelo, como um uniforme? Eu me submeteria ao racismo? Eu realmente quero me retirar destes debates e me recolher ou quero lutar com as pessoas pela garantia de direitos de todos e pela mudança desse cenário medíocre e criminoso?
       As respostas a essas perguntas são políticas. Somos seres políticos. Existir é um ato político. Existir como mulher negra é um duplo exercício de luta pela cidadania e plenitude de direitos. Deixar seu cabelo pro alto, no lugar onde você decidiu que ele deve estar, é uma afronta. Uma afronta à “ordem natural das coisas”, onde o negro tem seu lugar muito bem delineado – um lugar num cantinho, mais ao lado, mais na cozinha, um segundo lugar. Uma afronta ao Estado Brasileiro, que teve uma política oficial de branqueamento de seu povo, focando na miscigenação e no estabelecimento de uma população morena. Negra não. Esta coisa ruim tinha que ser apagada.

Foto: Fernando Oliveira
       Aceitar-se é uma afronta a um Estado cuja polícia federal exige que se prenda os cabelos para ter direito a tirar um documento. Afronta a um Estado que mata majoritariamente negros. Afronta a um Estado cujos cargos de chefia são ocupados em sua esmagadora maioria por homens brancos, que ganham 36% mais que os homens negros e 47,8% mais que as mulheres negras. Eu nasci pra afrontar esse Estado, pois nascer e viver sob esse Estado é uma afronta.

RACISMO SEM FIM
     Como esperar que uma criança não reproduza o racismo ou se acostume a sofrê-lo se ela não reconhece ao seu redor negros em posição que não seja subalterna? Como isso é possível sem que sequer haja bonecas negras pra brincar, bonecas com sua cor, seu cabelo, sua boca e nariz, sua identidade e que mostrem à criança que ela é bela e merece ser copiada?
     Como ser negro pode ser algo bom, não depreciativo, se pessoas da sua cor sequer aparecem no cinema, se não têm representatividade? Quantos negros protagonizam novelas que se passam no Leblon, são ricos, patrões, tem casas bonitas na beira do mar (protagonistas de senzala, em novelas de época não contam)?  Mulheres negras no cinema praticamente não existem, mesmo que nós sejamos 52% da população feminina do país.
NÃO PASSARÃO!
    Nós, mulheres e homens negros, construímos este e outros países. Carregamos o Brasil nas costas ainda hoje, mesmo ganhando bem menos pra isso e morrendo mais cedo e em maior número. Mas aprendemos a resistir e, a cada dia, aprendemos a peitar aqueles que acham que aqui não é nosso lugar. Nós vamos lutar para viver mais e melhor e vamos ensinar nossos filhos que nosso cabelo, nosso nariz, nossa pele são as características da liberdade e da resistência e que temos, sim, direito a um lugar ao sol.
Cabral, o retrato da desinteligência nacional
   Nós, mulheres negras, vamos continuar procriando, mesmo que governadores brancos nos chamem de "parideiras de marginais". Nós vamos afrontar este Estado e mostrar que nosso lugar não é na cozinha.

(O título do texto é uma alusão à música de Cabelo Pixaim, de Jorge Aragão.)

Cecília Oliveira é Jornalista e pesquisadora, com especialização em Criminalidade e Segurança Pública pela UFMG, é coordenadora de comunicação do Law Enforcement Against Prohibition – LEAP Brasil. Indicou o texto, originalmente postado no site Ano Zero, para ser postado no blog MBP. 

ENCRESPANDO - 2ª EDIÇÃO

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por Equipe MBP
Arte: Era Uma Vez o Mundo
      Há um ano colocamos em prática um dos projetos pelos quais o Coletivo Meninas Black Power existe: promover um evento no mês da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha para reunir as melhores conversas sobre cultura e beleza negra, reflexões sociopolíticas e encontros entre iguais, onde tod@s possam ser espelhos. Uma verdadeira celebração! Nós conseguimos, chamamos de Encrespando, e pela segunda vez estamos juntas, fazendo este momento incrível acontecer. 
     Encrespando é o evento oficial do Coletivo Meninas Black Power, acontecerá pela segunda vez no Rio de Janeiro e estamos trabalhando para que em breve se espalhe nos outros Estados onde também estamos representadas. Nossa primeira edição aconteceu em 20 de Julho de 2013, no SINDSPREV, Rio de Janeiro. Confiram abaixo um pouco do que vivemos por lá:
      Desta vez temos o privilégio de estar no Renascença Clube, espaço de referência para a resistência cultural negra carioca, que zela por manter a tradição sempre viva. Preparamos com carinho uma programação repleta de diálogos e momentos que vão promover conhecimento de nossa história, quem nós somos enquanto mulheres e homens negros. 
      Começaremos com a oficina de turbantes ministrada pela Colares D'Odarah, ícone importantíssimo na arte e educação que emanam das amarrações de um turbante. Esta oficina tem vagas limitadas e a inscrição deve ser feita através do email encrespandombp@gmail.com. Em seguida vamos ouvir a palestra trazida pela A.M.A.R sobre "A autoestima da mulher preta". O workshop sobre cabelo crespo é provavelmente o momento mais aguardado. Numa conversa conduzida pelo Coletivo MBP, vamos dialogar sobre vivências, cuidados e possibilidade de nossos cabelos crespos. O próprio Coletivo conduz na sequência a conversa "Lynch e seus reflexos na sociedade negra contemporânea", dialogando sobre a Carta de Willy Lynch e seus reflexos atuais.
        Também vamos nos deleitar com a dança do grupo Femme e da bailarina Valéria Moña, curtir o som do grupo de pagode composto por mulheres da A.M.A.R, o rap contagiante de Mr. Ronney e, fechando nosso dia com muita grooveria, o som da Banda Consciência Tranquila, que embala todo mundo nos encontros incríveis do Baile Black BomNo Encrespando Kids, nosso espaço infantil que estará aberto para receber crespinhas e crespinhos durante o evento e é uma grande novidade, haverão atividades conduzidas pela recreadora Natália Regina, contação de histórias afirmativas com Kemla Baptista e uma brinquedoteca recheada de diversão e assinada pelos parceiros da Era Uma vez o Mundo. O Bazar Encrespando, nosso espaço de afronegócios, conta com A Quixotesca, Colares D’Odarah, D'Negro, Era Uma Vez o Mundo, Lulu e Lili Acessórios, Makeda Cosméticos, NBlack, O Alquimista de Chad, Pixaim Acessórios, Soul Bamba e Trançando Ideias
       Ah! Quem passar pelo Encrespando também vai conhecer a carinha de todas as integrantes do Coletivo na exposição “Bonec@ Pret@ é identidade”, assinadas pela alta costura de Srta. Chris e as bonecas lindas de Era Uma Vez o Mundo.
Arte: Era Uma Vez o Mundo
      Desejamos muito ver vocês na próxima Sexta-feira, fazendo história junto com o Meninas Black Power e compartilhando muito amor. O Encrespando é nossa casa e queremos que quem passar por lá possa desfrutar de um entretenimento saudável, conscientizador, que reflita toda beleza e resistência de nossa negritude. Venham com a gente!

Incrições*: 
http://goo.gl/0QGr1E

Programação completa:
16:00 às 16:30 - Abertura dos portões
16:30 às 17:00 - Abertura e oficina de turbantes com Colares D'Odarah
17:00 às 17:40 - Palestra A.M.A.R - "A autoestima da mulher preta"
17:50 às 18:20 - Workshop MBP - perguntas e respostas sobre cabelos crespos, dicas de cuidados e penteados
18:30 às 19:10 - Conversa Crespa com o Coletivo MBP - "Lynch e seus reflexos na sociedade negra contemporânea"
19:10 às 19:20 - Apresentação do grupo de dança Femme
19:30 às 19:40 - Apresentação de dança afro com Valéria Monã
19:50 às 20:20 - Apresentação do grupo de pagode A.M.A.R
20:30 às 20:40 - Apresentação do grupo de dança Femme
20:40 às 21:00 - Apresentação do rapper Mr. Ronney
21:00 às 22:00 - Apresentação da Banda Consciência Tranquila 

Programação do Encrespando Kids:
17:10 às 17:30 - Workshop "Como cuidar do crespinho" com Renata Morais (idealizadora da Lulu e Lili Acessórios e integrante do Coletivo MBP) - dicas de cuidados e penteados para cabelos infantis
17:40 às 18:30 - Contação de histórias 
18:40 às 19:20 - Hora do alongamento - Preparando o corpinho pra se movimentar 
19:20 às 20:00 - Vamos Dançar? 

* A entrada é franca, mas as incrições devem ser efetuadas para fins de controle e inclusão nas promoções que acontecerão no decorrer do evento. As inscrições estarão disponíveis até 24/07, às 12h.

NOSSAS ESTATÍSTICAS SOB O OLHAR DE MARCELO PAIXÃO

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por Juliana Barauna
     Conheci pessoalmente o professor Marcelo Paixão durante uma entrevista concedida à primeira temporada do Programa "O Bagulho é Doido" para o Canal Brasil. Estava na equipe técnica, atrás das câmeras, e contive  a expectativa de ouvir de tão perto sobre um tema que faz parte da vida e do cotidiano de todos nós, pretas e pretos, em qualquer nível social: relações de trabalho, desigualdades sociais e raciais. Passou bastante tempo, até que um dia desses encontrei esta foto e resolvi escrever brevemente sobre alguns trechos do livro "Manifesto Anti-Racista - Idéias em Prol de uma utopia chamada Brasil" entre outras análises do professor Marcelo Paixão.
    O processo histórico de escravização de negr@s african@s até a data da farsa da abolição é um dos principais pontos que originam a larga diferença econômica entre pretos, pardos e brancos hoje no Brasil, provocando conflitos e tensões entre os diferentes grupos étnicos e/ou culturais. A abolição não foi acompanhada de políticas públicas que garantissem terras, educação e direitos civis plenos aos descendentes de escravizados e "libertos". Pelo contrário, políticas públicas urbanas e higienistas refundaram as diferenças sob novas bases sociais e étnicas.
   Vítimas constantes de racismo e preconceito, os grupos menos favorecidos e historicamente discriminados são excluídos do mercado de trabalho, do sistema educacional, dos meios tecnológicos, restando-lhes apenas a condição de subalternos e marginalizados. Para Paixão (2006, p. 18), "o enfrentamento das questões derivadas das relações étnicas e raciais encontra-se, certamente, entre os maiores desafios da humanidade no século XXI".
     Muitas são as barreiras que impedem que os grupos menos favorecidos tenham acesso a um padrão de vida melhor. Dentre estas barreiras está o acesso à educação escolar, isto é, ao conhecimento científico e aos saberes sistematizado, que ainda é privilégio da elite. Poucos são os que conseguem furar essa barreira que os impedem de desenvolver-se intelectual, social e profissionalmente, o que nos leva a pensar que não basta ter acesso à escola se a educação oferecida aos grupos menos favorecidos não é adequada e suficiente para qualificar nossas crianças e jovens. Indicadores como homicídio, incidência da mortalidade materna e trabalhadores que recebem salário mínimo ainda são ocupadas majoritariamente por negros e pardos.
      Para não fechar sem falar em números, índices, melhorias e o longo caminho que temos a percorrer, o bom desempenho da economia brasileira na última década favoreceu um aumento da renda de toda a população do país, inclusive dos pretos e pardos. Considerando apenas os últimos anos, entre 2010 e 2012, nas seis maiores regiões metropolitanas brasileiras, o rendimento médio dos trabalhadores aumentou cerca de 7%. Para os brancos, a expansão do rendimento foi de 5%. Para os pretos e pardos, o aumento foi de 11%.

 Mesmo considerando este avanço, as assimetrias raciais na renda seguem muito elevadas. Em 2012, nas 6 maiores regiões metropolitanas, os trabalhadores brancos ganhavam, em média, R$ 2.237,20.  Já os trabalhadores pretos e pardos, R$ 1.255,96; ou seja, em 2012, a renda média dos brancos era ainda 78% superior a dos pretos e pardos.

 A redução da taxa de desemprego beneficiou os negros e pardos. Foi uma redução significativa? O que isso representa para os negros e para a economia do país?
 Assim como para a renda, também o nível de desemprego melhorou na última década no Brasil. Sempre considerando as seis principais regiões metropolitanas do Brasil, podemos ver que, em 2003, a taxa de desemprego era de 11,2%. Na média de 2012, foi igual a 5,5%.
 Entre a população branca, a taxa de desemprego caiu, entre 2003 e 2012, de 9,6% para 4,7%. No mesmo período, a taxa de desemprego da população preta e parda passou de 13,4% para 6,4%; ou seja, houve uma redução no desemprego mais expressiva entre os pretos e pardos (10 pontos percentuais) do que entre os brancos (4,9 pontos percentuais).
 Contudo, isto não deve ocultar outra dimensão muito importante. Apesar da redução das desigualdades raciais, e de gênero,  especialmente na última década; a estrutura social brasileira se mantém fundamentalmente inalterada.

Se de um lado, o bom desempenho econômico do Brasil melhorou os indicadores socioeconômicos, e as políticas sociais adotadas conseguiram mitigar as situações de pobreza e elevar as condições de vida da população, de outro lado estes fatores não foram capazes de alterar a alocação relativa de recursos entre os grupos. A posição social de cada grupo de cor ou raça e sexo se mantem praticamente imutado no tempo. Basta pensar que, ainda em 2011, cerca de uma em cada cinco mulheres negras ocupadas no Brasil era empregada doméstica.
   O vídeo abaixo trata a questão do preconceito racial no Brasil. Na introdução, trabalhadores e moradores da Chácara do Céu fazem algumas críticas à nossa sociedade. Em seguida, o professor Marcelo Paixão debate sobre alguns pontos que envolvem este tema.



Sobre Marcelo Paixão:
    Graduado em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1989), mestrado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1994) e doutorado em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (2005). Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro em regime de Dedicação Exclusiva. Pesquisador do CNPq entre 2010 e 2012, Jovem Cientista do Nosso Estado da FAPERJ e bolsista Capes de Pós-doutorado na Universidade de Princeton, New Jersey, EUA. Foi membro do Conselho Universitário da UFRJ entre 2009-2012. Coordena o Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (LAESER), vinculado à mesma UFRJ e criado em 2006. Realizou e realiza atividades de pesquisa no campo das desigualdades étnico-raciais, relações de trabalho do meio urbano e rural e crise do mundo do trabalho. Leciona as disciplinas de Economia Política, Economia do Trabalho, Introdução à Economia, Introdução às Ciências Sociais, Nação e Nacionalidade.

Nota: As informações que fazem parte do conteúdo específico desse texto foram retiradas do livro "Manifesto Anti-Racista - Ideias em Prol de uma utopia chamada Brasil", escrito por Marcelo Paixão, entrevista do professor ao Globo Cidadania (Maio de 2013) e dados do  LAESER - UFRJ. 

SANKOFA

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por Maria Fernanda

Foto: Ariana Faye
        Adinkra é um conjunto de símbolos gráficos de origem dos povos Akan, da África ocidental, sobretudo do Gana e parte da Costa do Marfim. Cada adinkra tem um significado complexo, representado por ditames ou fábulas, expressando conceitos filosóficos que tradicionalmente aparecem estampados com tinta vegetal em tecido de algodão usados em ocasiões fúnebres ou homenagens. Constitui uma arte nacional de Gana com mais de oitenta símbolos¹. 
        O Sankofa é representado por um pássaro voltado com a cabeça para trás. Tem uma conotação simbólica de recuperação e valorização das referências culturais africanas. "Voltar e apanhar de novo aquilo que ficou para trás"; ou seja, "voltar às suas raízes e construir sobre elas o desenvolvimento, o progresso e a prosperidade de sua comunidade, em todos os aspectos da realização  humana" (Glover,1969).
Fonte: Tumblr
    Quando a mulher negra, que passou anos sendo subjugada pelo padrão estético branco, toma consciência da sua negritude e desperta para toda beleza que existe em ser mulher preta, não admite mais ser submetida a processos de embranquecimento. Assumir as características desta negritude que se expressa em nossos traços, no cabelo crespo, é voltar às raízes, destruir toda representação negativa que existe dentro de nós e foi alimentada desde a infância pela estrutura social racista, construir nossa autoestima com base na beleza refletiva no espelho.
        Acredito ser fundamental para o fortalecimento da autoestima ter outras mulheres como espelho. Olhar para quem é "igual" ajuda na caminhada que por muitas vezes é difícil, mas trás descobertas e  experiências maravilhosas de irmandade. Um exemplo é poder compartilhar a felicidade de ter conseguido sair à rua orgulhosa com seu  Black Power e não sentir-se acuada ao ouvir uma piada racista, receber elogios amorosos de homens ou mulheres pretas que enxergam quem você é.

¹ A Matriz Africana no Mundo. Larkin Nascimento, Elisa.

MBP TESTOU - BASE SUPERSTAY 24H MAYBELLINE

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por Grupo de Trabalho Moda e Beleza

       Dando continuidade aos posts sobre bases para pele negra, o MBP Testou de hoje é sobre a Base Superstay da MaybellineAproveitando essa temática, lembramos que a Folha publicou recentemente uma matéria bacana sobre maquiagem para mulher negra. O assunto lá foi pautado na dificuldade de se encontrar maquiagem para os nossos tons aqui no Brasil. O interessante é que é justamente o que estamos tentando fazer aqui: mostrar opções de base mais em conta. Porque até poucos anos atrás a nossa única opção era a MAC, vendida por aqui a preços altíssimos. 
         Estamos comprando e testando alternativas que contemplem os nossos tons, com preços mais acessíveis. A marca americana Maybelline trouxe para o Brasil a Superstay com 8 tons, mas testando no stand da marca, acreditamos que apenas 3 desses tons podem contemplar a pele negra.
Honey Beige Medium, Caramel Dark e Cocoa Dark
         No caso desta que escreve o post, apenas o último se aproximou mais do tom ideal. O Caramel Dark ficou muito claro, o Honey nem se fala. Com o Cocoa Dark, a cor que comprei,  ficou escuro demais, mas como tenho um pó mais claro que meu tom ideal, escolhi esse.

         A duração na minha pele super oleosa não chega nem perto de 24 horas. Depois de umas 2 a 3 horas a oleosidade já dá sinais de vida. Nesse quesito, para mim, a base não cumpre o que promete. A consistência é bem fluída e dá para espalhar bem; a cobertura é bastante leve e não esconde as manchas. Boa para usar no dia-a-dia, quando não se está com pressa para sair, pois finalizar com pó é obrigatório. Apesar de não cumprir a principal função de controlar a oleosidade e ter que finalizar com pó, gostei da base. É uma alternativa mais em conta.

*Importante ressaltar: Esse post NÃO é publieditorial. A base foi adquirida por 39,90 no stand da marca.
** Vocês também podem conferir este post no Felicidade com Simplicidade, blog da autora, Cintia Masa.

“AH. . . MAS O MEU CABELO NÃO É ASSIM!”

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por Élida Aquino 



         Pra começar, compartilho com vocês a reflexão abaixo, exposta pela Kelsey Janae. Olhem:
"Antes de retornar ao natural nunca tinha ouvido falar da classificação dos tipos de cabelo. Todo mundo que eu conhecia usava alisantes e nossos cabelos se comportavam praticamente do mesmo jeito: quando molhados, eram fios rígidos e retos na extensão e inchados na raiz, indicando a hora de um novo relaxante. Quando decidi ser natural, vi uma lista sobre os diferentes tipos de cabelo num site. Começava com o 2A (totalmente liso) e ia até o 4C (muito crespo). Também foram listados diferentes tipos de produtos para o cuidado de cada tipo de cabelo. No início da minha jornada a lista dos tipos de cabelo parecia bastante útil no que diz respeito ao desenvolvimento de meu próprio "regime de cuidados" e, depois que observei isto, não refleti novamente. Em seguida, comecei a perceber que eu tinha três tipos de cabelo diferentes. Além disso, aprendi que não é só porque alguém com um tipo semelhante ao meu usa determinado produto que o mesmo irá ter efeito igual em mim. Conforme o tempo passava, notei uma divisão subjacente entre "as naturais" em relação aos diferentes tipos de cabelo. Tenho observado que as que não são naturais, mas desejam ser, muitas vezes hesitam em fazê-lo por causa do medo de ter um tipo de cabelo "menos desejado". Eu acho que partir para o natural é abraçar quem você é e amar sua textura. Parece que ainda existem certos padrões de beleza, mesmo dentro da “comunidade de cabelo natural”, que estão ligados aos tipos de cabelo.”

Traduzindo livremente: "Discriminação de texturas? 10.375 liks e 3.101 compartilhamentos vs. 3.796 likes e 295 compartilhamentos. Ambos são sobre twist out de três mechas."
       Quem nos acompanha sabe que sempre privilegiamos todas as texturas, exatamente pra que todas se encontrem. Enquanto compartilhamos tantas inspirações, é visível a existência de um "cabelo ideal". Minha preocupação com este padrão, mesmo após permitirmos nossos cabelos, veio ao perceber que cabelos do tipo "cachos perfeitos" são os mais cobiçados e há gente fazendo de tudo pra chegar neles. Também há gente ensinando como caçá-los loucamente. Parece que quanto mais fake o cacho, mas desejado ele se torna. É bizarra a frequência de declarações do tipo "eu queria tanto meu cabelo assim!", "o cabelo dela é tão incrível!", "eu nunca vou ter esse cabelo..." e etc. Todos sempre muito cheios de lamento, sabem? Como se ter um fio mais crespo fosse a maldição do século. Não é uma simples admiração. 
      Repartimos sempre em Coletivo estas observações. Todas nós notamos como é comum encontrar um "preciso de um cabelo desses" sendo dito por aí. Às vezes ele é dito até por quem já passou pela transição, mas ainda pensa em alcançar a "perfeição". Ressalto que a questão aqui não é liberdade de escolha, mas a constante busca por ser "melhor" do que se é. Uma das razões para a existência do Meninas Black Power é gerar o olhar cuidadoso sobre nós mesmas. Não aprendemos isso naturalmente por conta de todo desprivilégio que impera. Ora, se quem nos lê diariamente continua inferiorizando sua própria imagem, querendo trocar por outra, não cumprimos nossa missão! Nos esforçamos para falar aos mais de 40.000 cérebros que não adianta muito cultivar o cabelo, passar pelo Big Chop ou todos os outros processos de transição, e depois olhar fotos numa página qualquer e querer ser aquilo que está na tela, se inspirar exclusivamente num espelho que não lhes reflete. É preciso haver uma transição de mentalidade enquanto o cabelo muda. 

         Pensem bem: será que esses cachos tão queridos dos editoriais de moda não passaram por nenhuma adaptação? Será que as atrizes não passam um tempão sentadas em cadeiras de algum super hair stylist fazendo babyliss fio por fio? Estamos falando do esforço midiático em influenciar pessoas, da ideia de que só assim seremos aceitas. Além disso, o que faz com que aqueles cabelos tipo 3 (com cachos super abertos), com bastante definição e volume, sejam mais belos que um 4C? Será que um 4C não tem beleza e vantagens? Eu mesma respondo: está tudo errado. Há beleza em todo lugar. Está na hora de sermos mulheres diferentes, que admiram a beleza da outra, mas compreendem o valor da beleza que está no próprio corpo.
         Fico feliz quando perguntam como é meu cronograma ou as receitas que gosto de fazer, mas tudo acaba no momento do "meu cabelo nunca vai ser bonito como o seu". Depois de algum tempo sendo "conselheira crespa" por aí, entendo que a insegurança na transição, por exemplo, é normal. Passar pela transição é um processo de desconstruir padrões e se reaprender. É preciso crescer com esta experiência e se libertar das imposições. Não estamos aqui por moda, não estamos buscando o título de "a mais style do baile", não queremos ter o cabelo mais bonito pra oprimir nossas iguais. O ponto principal é identidade. Ela se manifestará na resistência e posicionamento diante de um mundo racista, que pensa que precisamos obedecer regras para sobreviver. Por isso, se vocês que estão lendo acreditam que um "cabelo black" é apenas estilo, sugiro que revejam o conceito. Faço também a pergunta que a Juliana Barauna deixou: o que vocês vão fazer com o black quando a moda acabar?  


       Somos todas rainhas. Todas nós estamos sendo refeitas, nos levantando dos processos que nos quebraram por anos, curando o coração enquanto cicatrizamos as feridas de nosso couro cabeludo. Toda essa mudança dá trabalho, às vezes é dolorosa, mas é vital para abrir os olhos e a mente. Para entender de vez que o mais importante não é nosso tipo de cabelo, mas o quanto de amor temos por ele. Vamos ostentar cada cabelo como coroas na prática! Vocês sabem: existem coroas diferentes, mas todas sempre preciosas. Desejo para nós este mesmo brilho e liberdade.

Fonte: BGLH

SOBRE "OS NEGROS NA AMÉRICA LATINA", DE HENRY LOUIS GATES JR.

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por Karina Vieira
Foto: Google
      Confesso que a primeira coisa que me chamou atenção no livro foi a capa, que é maravilhosa, convém dizer. Depois fui ler o título e, bem, me pegou de vez. De acordo com o Banco de Dados do Comércio Transatlântico de Escravos da Universidade de Emory na Geórgia, EUA, entre 1502 e 1866, 11,2 milhões de africanos sobreviveram a terrível travessia oceânica e chegaram como escravos ao Novo Mundo. Desse montante, "somente" 450 mil desembarcaram nos Estados Unidos, todos os demais desembarcaram em lugares situados ao sul do país, sendo que só no Brasil foram 4,8 milhões. Esses dados nos fazem crer que a grande experiência africana nas Américas não aconteceu nos EUA.
     A cerca de dez anos o autor decidiu fazer uma série de documentários sobre os afrodescendentes, sobre raça e cultura negra  no hemisfério ocidental fora dos Estados unidos e do Canadá. A primeira parte da trilogia começou com Wonders of the African world (Maravilhas do mundo africano), a segunda, American beyond the color line (Os Estados Unidos além da linha da cor) e a terceira parte deu origem a este livro.
     Henry Louis Gates Jr visitou em um período de 6 meses  Brasil, México, Peru, República Dominicana, Haiti e Cuba e procurou responder a seguinte problemática: O que é ser negro nesse países? Em tais sociedades quem é considerado negro, em quais circunstâncias e por quem? Serão as palavras que designam várias tonalidades de afrodescendentes no Brasil, como mulatos, cafusos, pardos, morenos, pretos? Ou pretos e negros são apenas as pessoas de aspecto mais africano numa mistura multidirecional de combinações de cor de pele, traços faciais e textura de cabelo?
      Como resposta ele descobre que o que é comum a todas essas sociedades é o fato lamentável  que as pessoas de origem africana "mais pura" ou "sem mistura" ocupam desproporcionalmente a parte mais baixa da escala econômica. As pessoas de pele mais escura, de cabelo mais crespo e de lábios mais grossos formam em geral o grupo mais pobre da sociedade. A pobreza foi construída socialmente em torno de graus de origem africana óbvia. Em comum também a todas elas, está o fato de que essas sociedades se orgulham de serem "democracias raciais", "livres de racismo" e "pós-raciais" e mesmo assim ainda carregam um legado forte de escravidão e histórias longas e específicas sobre o racismo.


       Ao visitar o Brasil, Henry encontra na nossa sociedade a incrível quantidade de 134 termos de tonalidade de cor ou palavras para negar a sua negritude. Descobre também que o foco do país na cor era algo que beirava a obsessão ou a chamada "eu sou qualquer coisa, menos negro". Descobre também que entre 1884 e 1939 o Brasil passou por um violento processo de "branqueamento", quando 4 milhões de europeus e 185 mil japoneses receberam subsídios para imigrar e trabalhar no país. Esse processo de imigração visava a reprodução dos europeus com os negros, a fim de clarear a pele da população e erradicar os vestígios da cultura africana.
      Em meio a tudo isso uma voz dissonante se faz ouvir, Manuel Querino, intelectual negro pioneiro que mesmo no Brasil é pouco conhecido. Querino assumiu uma atitude ousada e corajosa contra as ideologias racistas governamentais. Historiador, artista plástico, sindicalista e ativista negro, ele dava ênfase ao papel do africano como civilizador e procurava mostrar os costumes e tradições africanos na Bahia, ele exaltava o orgulho de ser descendentes de africanos. Querino é considerado o pai da história negra, da mobilização negra e da positividade dentro do movimento negro.


     O autor encontra em cada país visitado um herói negro, porém muito pouco conhecido dentro e mesmo fora de seu espaço de origem: No México, Gaspar Yanga; No Peru, a ambiguidade de José de San Martín; Na Republica Dominicana, Rosario Sánchez; No Haiti, Alexandre Pétion e em Cuba, José Antonio Maceo. Ao final do livro, Henry coloca como apêndice categorias de cor na américa latina, onde fica visível que por mais esforço que se tenha feito e ainda se faça, o racismo está aí resistindo e nos provando que ele é um legado histórico que ainda não se extinguiu, que ele não é apenas um processo que se herda de um passado remoto, e sim um conjunto de usos e costumes sociais e de ideias que são continuamente recriados e reproduzidos com enormes e devastadoras consequências sociais.