SOBRE A NÃO ROMANTIZAÇÃO DO MEU CORPO NEGRO

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por Lais Reverte

Foto: Acervo pessoal
      Há um tempo, vi uma entrevista onde um casal falava de como iniciou-se a relação. Ela dizia: "uma noite estava em casa conversando no celular com ele e contei que estava lendo um livro, assim que eu desliguei, ele procurou o livro na internet pra ler durante a madrugada e poder conversar comigo no outro dia sobre". Ele então olhou pra ela e disse: "sim, eu fiz isso, tinha que ter um argumento para falar com ela no outro dia, né?". Ela conclui: "foi aí que ele me conquistou".
      Conquista -  con.quis.ta (sub.fem.): ação de lutar para se obter o que se quer; o que se obtém através de esforço ou trabalho.¹ Inicio aqui esse texto, após essas duas referências basais, para chegar onde desejo. Venho há meses pensando em como formular tudo o que preciso dizer, sem parecer vitimista e nem universal. Então entendam esse texto como um testemunho, um desabafo. Já me convenci de que o romance romântico, novelístico, comercial, não é feito para a realidade. É cansativo ver o tanto de mana preta, branca, binária ou não, cis ou trans, tendo a mesma reclamação da inexistência dos "príncipes em cavalo branco". Deixo isso exposto para não entenderem que o  que venho falar não tem relação apenas com o amor romântico.
      Indo de encontro as minhas experiências, inclusive das mais recentes, chego a fatídica verdade que não para de martelar a minha mente: meu corpo preto não foi feito para ser romantizado, muito menos amado. Cresci vendo que a opção primária, sem subjugação, sem escolhas de outrem, não são minha realidade. Qualquer, digo QUALQUER, decisão que por mim venha a ser tomada sempre passa por uma série de aprovações e desaprovações prévias, inclusive a possibilidade de escolher, tanto que isso já está intrínseco na minha personalidade. Não sei seguir em qualquer caminho da minha vida sem uma aprovação prévia, ou uma ordem superior de que devo escolher ou não. Partindo para o lado das relações interpessoais, quaisquer que seja, não sou nunca a primeira a decidir o que seguirá, nem a que porta o poder de decisão, no máximo a que apresenta as opções ou a que escolhe entre sofrer ou seguir em frente, afinal querer ficar nunca me é um escolha, sempre escolhem ficar ou não.
       Já tendo a realidade de um indivíduo secundário que sou, seguro a marimba de nunca acreditar em qualquer manifestação de afeto que, supostamente, é dirigido a mim. Digo "supostamente" por nunca acreditar que esse afeto é real. Fui treinada para pensar que não sou digna dele. Me dizem se me querem ou me dizem se me deixam, não me dão a vivência de me sentir feliz e bem e de estar fazendo o outro feliz e bem (se estou feliz, estou só), logo, não acredito em afeto algum por mim. E isso não é uma verdade formada por teorias, mas sim em vivência. Me recordo de que em todos supostos namoros que tive, e até mesmo no único namoro propriamente dito que vivi, o esforço e extrema negação de mim pra poder viver tal experiência (que hoje vejo de forma extremamente positiva, por ter me feito crescer e conhecer a pessoa maravilhosa com quem convivi) me fizeram crer, recentemente, que nunca escolhi nada, apenas nego a mim e minhas vontades e faço o que julgo ter de ser feito.

Foto: Acervo pessoal
       Daí me ponho de frente às minhas posturas atuais no processo de conhecer o outro. Me recordo que todo primeiro contato é feito a partir de um elogio (ou não) sobre meu corpo preto. Falam do meu cabelo, do quanto acham ele estiloso, lindo e diferente. Falam da minha pele, do quanto gostam dela, como é lisa e queriam tê-la pra si naquele momento ou ter nascido com ela. Falam dos meus seios ou bunda, do quanto são fartos e o quanto eu devo ser feliz e boa de cama por eles serem assim. E aí, acostumada com qualquer associação da minha personalidade à minha imagem, que vem sendo ratificada como pessoa que dá prazer em qualquer canal de TV (tipo Globeleza e afins), qualquer filme ou cena de novela, não tenho a noção do que é ser reconhecida como PESSOA sem antes ser reconhecida pelo meu corpo preto, única parte em mim que parece ser digna de qualquer coisa. Portanto o uso como cartão de visita, e entendam, essa não é uma escolha minha. Usá-lo dessa forma não é algo que eu goste, e isso é determinante para a formação do que enfim irei dizer.
       Meu corpo preto não foi feito para ser romantizado, muito menos amado. Sou só mais um corpo preto que resiste pra existir, usado principalmente na noite, nos cantos, esquinas, quartos escuros de um motel barato, porque era o que o dinheiro dava ou a minha dignidade pedia. Sou só um corpo que não tem alma, não tem a opção de ser querida ou entendida, e se alguma migalha me é dada, me agarro como se fosse a minha única e última forma de respiração e esperança de ser reconhecida apenas como mulher que também necessita amar e ser amada e bem quista. Não tenho a opção de precisar ser cuidada, de ser frágil e insegura porque tenho um corpo que conhecidamente é mais forte, mais rígido, mais agressivo (de onde saiu isso tudo de mim que sempre dizem que tenho?) e por isso aguento, aguento sempre. Sou um corpo que, quando é a amiga, é a mais escandalosa do rolê e que é chamada pras experiências mais loucas, afinal, eu com certeza devo aceitar de tudo, né? Sou um corpo que, numa amizade, é quem espera, quem não recebe o convite pra sair, quem sempre precisa correr atrás pra que algo aconteça.  Sou um corpo que é chamado no fim da noite pra uma trepada e nada mais. O suposto empoderamento me faz acreditar que tenho poder de escolha, que tenho a opção de querer ir ou não e estou acima de qualquer coisa por ter sido a escolhida, mas na realidade estou só no fim da lista de possibilidades pra uma foda qualquer (que, diga-se de passagem, deve ser bem rápida e o mais discreta possível). Sou um corpo preto digno de ser cortejado no inbox, privado da vida, por aqueles que já tem sua cota romântica gasta com as parceiras-padrão e essa "neguinha" que vos fala só é tratada como gostosa e "nossa que tesão tenho por você". Sou MAIS UM corpo preto que não sabe o que é romance e precisa lutar pra viver e aprender a amar, visto que essa palavra pra mim só é um verbo sem qualquer sentido de ação.

        Sabe aquela historinha real que contei no início? Ela nunca vai acontecer comigo, e isso não é culpa minha (pelo o menos me esforço para acreditar que não).

¹ Dicionário da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2016

MBP TESTOU - LINHA CAVALO FORTE DA HASKELL

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por Tainá Almeida
      Já conhecem a linha Cavalo Forte da Haskell? De cara esse nome me trouxe lembranças daquele produto que não devemos passar no cabelo e que promete crescimento, força e tudo mais. Para vocês que estão tristes por não poder usar o proibido, podem ficar mais alegrinhas. Esse produto da Haskell vem com essa promessa de cabelo forte! (yay!!!)
       A linha é rica em Biotina, Pantenol e Queratina e aqui no site vocês podem saber mais sobre cada uma dessas substâncias. Eu tenho 4C, Meninas Black Power, vocês entendem que isso quer dizer cabelo com mais necessidade de hidratação, óleos e manteigas. Então na sequência vai minha visão. Segurem aí!
      Sabemos daquele drama de encontrar um shampoo que não resseque o fio ao primeiro contato. Esse realmente não deixa o fio ressecado. Poucos produtos industrializados têm esse efeito no meu cabelo. Os dedos correram como se não tivesse shampoo e os fios ficaram extremamente limpos e macios. É bastante concentrado. No meu processo de limpeza, sempre diluo o shampoo numa proporção de duas partes de água para uma de shampoo. Aprendi que funciona melhor para mim. De tão concentrado que ele é, na segunda vez que usei, diluí na proporção de 4 partes de água e uma de shampoo. Ficou bem ralo, mas limpou muito bem. Não senti agressão depois do enxágue. Foi bem tranquilo mesmo. Só esqueci de contar que essa maravilhosidade tem um brilho dourado, me senti rycah! Eu não faço no ou low poo, então não tive questões com a composição.
     Depois utilizei a máscara de tratamento. Ela precisa de uma dedicação maior e fica para o próximo post. Mas é ótima e casou super bem com a necessidade do meu cabelo, que estava bem ressecado. Finalizei o tratamento com o condicionador, para fechar as cutículas do fio e manter todas as coisas boas dos produtos lá dentro. 


Após o tratamento e finalização
      O resultado foi incrível! Cabelo macio, sem aspecto opaco e senti diferença no meu fator encolhimento. O cabelo ficou bem grandinho.

SER PRETO

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por Victor Soares
Foto: Projeto Ah, branco, dá um tempo!
      Sou eu mais um exemplo do povo brasileiro: filho de imigrante preto e mãe branca, menos pigmentado, cabelo crespo... Enfim, alguém como a maioria esmagadora da nossa população. No Brasil, ter a pele mais clara possibilita alguns benefícios dos quais poderia usufruir se me identificasse como branco. Somos muitos pretos "facultativos", "pardos" e outras classificações com nomes estranhos que só existem aqui.
      Tenho a pele clara o suficiente para já ter sido chamado de branco na vida, ignorando meus traços, cabelo e origem. A miscigenação trouxe um conflito de identidade no brasileiro que foi educado com a premissa de "branco é bom, preto é ruim". Se você é uma mistura dos dois é enquadrado na bizarra paleta de cores do moreno claro, jambo, mulata (palavra horrível), onde quanto mais escuro você é, mais você vai sofrer.


Foto: Projeto Ah, branco, dá um tempo!
      Então, por que me declaro preto? Sou mais claro, poderia simplesmente raspar a cabeça e passar "despercebido". Passei a minha infância de cabelo raspado, afinal, menina crespa alisa e menino crespo raspa, só para atender aos padrões daquela sociedade que transforma maioria em minoria.
       Como a maioria pode ser oprimida? No meu ponto de vista, o motivo é que a maioria preta desse país não se vê como tal. É fundamental a luta dos coletivos (como as maravilhosas MBP), grupos e instituições pelos direitos e o empoderamento dos negros. Eu me declarei homem preto no trabalho e me disseram: 
— Não, você é moreno! Pois na cabeça deles é absurdo alguém escolher ser preto quando teria a opção de não ser.

Foto: Projeto Ah, branco, dá um tempo!

     Chamo a atenção pelo meu cabelo crespo, ouço piadas preconceituosas e insinuações porque não me encaixo nos padrões esperados para um engenheiro numa grande empresa, mas sigo em frente, estou na linha de frente, mais um homem preto em um corporativo e engravatado mundo branco.
       Estamos chegando lá, mano, somos reis e rainhas. Ah, se quiserem cortar meu cabelo, já tenho a resposta na ponta da língua afiada. Agora que descobri ser rei, não venha querer tirar minha coroa. Agora que nos deram voz, não vamos mais nos calar.

Saiba mais sobre o tema: 
Blogueira Negra - Colorismo: quem decide?

* Victor Soares, autor convidado, é um homem preto, formado em Engenharia Civil e pós-graduação em Logística. Jogador de basquete nas horas vagas.

20 TED TALKS POR 20 MENINAS PODEROSAS

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por Élida Aquino


      Acredito no poder da inspiração dividida. A maior parte das mudanças individuais e coletivas entre mulheres negras ao redor do mundo têm tido muito de inspiração envolvida no processo, aliás. Compartilhar e motivar umas às outras é combinação certa pra trazer liberdade, revolução interna e crescimentoPensando nisso juntei essa lista, inspirada numa série do Twenty Ten Talented (que é uma fonte ótima!) e incluindo pitacos meus, com várias Meninas Black Power que já passaram pelo TED e têm muita inspiração pra dar. TED é uma plataforma onde gente inovadora pode falar sobre o que faz de forma objetiva. Começou em 1984, numa conferência de Tecnologia, Entretenimento e Design e se tornou esse super espaço de democratização do saber. Foi num TED, por exemplo, que rolou a famosa fala da Chimamanda sobre "o perigo da história única" Peguem essas dicas. Escolhi só 20, mas existem muitas outras.  Não deixem de assistir por causa dos idiomas desconhecidos, ok?! Habilitem as legendas e vamos lá!

1. MAYA PENN - TEDWomen 2013
Um exemplo para jovens empreendedoras e abre minha lista por ser referência de poder e criatividade pra mim. Quanta energia essa garota tem! Empresária, desenhista, ativista e o que mais der. Maya começou a primeira empresa aos 8 anos e durante a carreira reflete muito sobre sustentabilidade. 

2. GEORGIA GABRIELA SAMPAIO - TEDxLaçador 2015
Impossível não citar! Essa pesquisadora da Bahia, aceita em várias universidades gringas, responsável pelo desenvolvimento de um kit para diagnóstico mais rápido e acessível de endometriose que beneficia mulheres – majoritariamente negras – à margem da atenção de saúde e com currículo crescente que inspira todas nós, passou pelo TED explicando sua trajetória, a pesquisa da endometriose e outras coisas.

3. ANNE-MARIE IMAFIDON - TEDxBarcelonaED
Aos 11 foi aprovada no exame A-level Computing, de Cambridge, e sempre dá o nome. Anne tem uma careira incrível ligada ao empreendimento, matemática e inovação tecnológica (só está na casa dos 20!). Nessa palestra fala sobre o impacto do desenvolvimento dessas ciências, a importância de incentivar meninas para que estejam inseridas nelas e como aumentar o número de startups e outras iniciativas empreendedoras lideradas por meninas ao redor do mundo.

4. ELIZABETH NYAMAYARO - TEDWomen 2015
Ela chefia a iniciativa HeForShe, de ONU Mulheres, com o objetivo de conscientizar meninos e homens para igualdade de gênero e valorização do feminino. Nessa palestra faz "um convite aos homens que querem um mundo melhor para as mulheres".

5. RAKIA REYNOLDS - TEDxBarnardCollege
Maravilhosa! Rakia é das comunicações e empreende nessa área com a Skai Blue Media, uma agência de comunicação multimídia criada por ela. Nessa palestra fala de suas experiências na caminhada cheia de barreiras, fracassos, surpresas e alegrias até alcançar sucesso no que curte fazer. É extremamente inspirador para jovens empreendedoras.

6. MAAMEYAA BOAFO - TEDxAccra
O título dessa conversa é "sendo o meu verdadeiro eu, sem desculpas". Maameyaa, uma jovem africana, conta como foi o caminho até chegar aos Estados Unidos e construir o sonho de ser atriz.

7. OLA OREKUNRIN - TEDxBerlinSalon
Ola é médica e piloto de helicópteros. Criou o primeiro serviço aéreo de ambulância da África Ocidental e nessa conversa sobre "womenomics" – economia das mulheres - discute a força feminina no mundo dos negócios.

8. THANDIE NEWTON - TEDGlobal 2011
Thandie já esteve em filmes representativos como Para Meninas de Cor (For Colored Girls). Aqui conversa sobre construção de identidade de um jeito super interessante e leve, a partir das suas experiências como criança que estava entre culturas distintas, passando por dados científicos sobre o conceito de raça até a vivência como atriz que lida com vários "eus".

9. MICHAELA DEPRINCE - TEDxAmsterdam
Nasceu em Serra Leoa, 1995, e cresceu órfão em tempos de guerra civil. Era conhecida como "filha do diabo" por causa do vitiligo, mas através de uma história de sofrimento, dor e perda, chegou às realizações incríveis. Hoje é uma bailarina renomada, foi adotada, reside nos EUA e não para de brilhar. 

10. KIMBERLY BRYANT - TEDxKC
Kimberly fundou o Black Girls Code para introduzir uma nova geração de meninas negras no mundo da programação e tecnologia. A ideia na conversa "Desafiar o Impossível" é falar sobe como essas jovens codificadoras podem tornar-se construtoras de inovação tecnológica e de seus próprios futuros.

11. ZAIN ASHER – TEDxEuston
Pegada motivacional das boas. A jornalista âncora da CNN discute aqui sobre como aproveitar o sucesso.

12. ALLYSON HOBBS – TEDxStanford
Allyson é professora de História Americana e Afro-americana na Universidade de Stanford. Seu primeiro livro chama-se, em tradução livre, "Um Exílio Escolhido: a História da Passagem Racial na Vida Americana" (A Chosen Exile: A History of Racial Passing in American Life) e examina os fenômenos de questão nos Estados Unidos a partir do final do século 18 até agora. Essa palestra é sobre o que ela observa dentro do tema.

13. PATIENCE MTHUNZI - TED2015
Revolucionando na saúde, sim! Patience explica sua ideia de usar lasers para enviar as drogas drogas diretamente às células infectadas pelo HIV.

14. KAKENYA NTAIYA – TEDxMidAtlantic
Kakenya fez um acordo com seu pai: ela sofreria o rito tradicional Masai da circuncisão feminina se ele deixasse ela frequentar a escola.  Nessa conversa fala de como chegou à faculdade e de como idealizou um escola para meninas em sua comunidade.

15. DAYO OLOPADE – TEDTalentSearch
Dayo é repórter do The Daily Beast, The Washington Post e The New Republic e discute suas observações de viver na África enquanto trabalhava em um livro sobre criatividade, tecnologia e desenvolvimento no continente e como foi a construção dessa "nova narrativa africana".


16. AMMA ASANTE - TEDxBrixton
Amma Asante é a diretora do filme Belle. Ela discute sobre o desafio de trabalhar em Hollywood, onde apenas 0,4% dos diretores são mulheres negras, e a pressão de viver sob a definição que lhe davam. É uma conversa sobre definir-se a si mesma.

17. SARAH LEWIS - TED2014
Sarah Lewis, historiadora da arte, fala sobre a importância de falhar, experimentar e outros processos no crescimento individual.

18. MELLODY HOBSON - TED2014
Vamos falar sobre raça, cor e mercado de trabalho. Mellody Hobson, é diva, presidente da Ariel Investments, fala abertamente sobre como esses fatores - e, particularmente, a diversidade na contratação – pode melhorar os negócios e a sociedade.

19. FADEKEMI AKINFADERIN-AGARAU – TEDxEuston

Fadekemi interrompeu a carreira na medicina e deixou os Estados Unidos depois de uma experiência como pesquisadora de HIV na África do Sul. Ela é co-fundadora da Educação Como Vacina (Education as a Vaccine), ONG que desenvolve e implementa programas inovadores para melhorar a qualidade de vida de crianças e jovens vulneráveis na Nigéria.

20. DIANE LIMA – TEDxSãoPaulo
Comecei com inspiração e referência pessoal, então fecho do mesmo jeito. Recentemente tive o prazer de passar algum tempo com Diane e pegar essa energia de perto. Façam o mesmo! Ela, que é designer, atua diretamente como diretora criativa do Instituto NoBrasil e idealizou a campanha #deixaocabelodameninanomundo, fala sobre o processo criativo como arma para liberdade, igualdade e empoderamento.


Essas são algumas das minhas favoritas. Vocês querem indicar outras conversas boas? Então deixem aqui nos comentários, mandem por mensagem ou e-mail. Vamos trocar e contagiar nosso mundo. Beijos!

OCUPA ESCOLA: SÃO AS PALAVRAS DE ORDEM DOS JOVENS

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por Jaciana Melquiades
      Uma reorganização escolar em São Paulo deu início a um movimento de estudantes dispostos a fazer a manutenção de seus espaços educativos. Reorganização é o nome que deram para o fechamento de 94 escolas estaduais. Aqui no Rio, temos um movimento muito pouco anunciado pela grande mídia, mas que está mobilizando milhares de estudantes da rede pública do Rio de Janeiro.
       Os números oficiais da Secretaria de Educação do Estado do Rio apontam 70 escolas ocupadas e as reivindicações são muitas: climatização de todas as salas de aula (promessa antiga do governo Estadual), melhores condições materiais de estudo, diminuição na quantidade de alunos por sala (o que implica no aumento da quantidade de profissionais), dentre outras. Luiz Henrique, ex-estudante do Ensino Médio, 18 anos e atualmente calouro em Filosofia na UERJ, nos fez um panorama deste momento que as escolas estão vivendo bem de dentro desse movimento de estudantes:

"Cresce desde 2013 movimentos feitos por grupos sociais esquecidos. Esses grupos cansados da ordem e da organização desse Estado vão às ruas e lutam por mais direitos e sua permanência, dois anos depois surge um grande fenômeno: os estudantes de São Paulo se organizam para ocupar suas escolas, isso porque algumas delas seriam fechadas e as comunidades escolares se dividiriam em outras. Esse novo corpo estranho, que é a juventude, se mobiliza e ocupa mais de 200 escolas. O movimento passa a barreira de estados e chega no Rio de Janeiro em 2016. As ocupações no Rio têm algumas singularidades que são o reconhecimento das "minorias" e sua forma de atuação - grupo diverso, presente nos corredores de cada escola; a participação dos alunos e alunas nas decisões políticas e estruturais do colégio, as votações para decidirem os seus diretores, a entrada do grêmio, a queda do SAERJ, a abolição do currículo mínimo e outras. Tais movimentações surgem a partir do olhar do jovem para seus pares, da consciência política, da percepção de sujeitos e do conceito de individuo socialA esperança é que essa nova categoria se movimente, lute e resista. É uma "coisa" muito nova para definir seus impactos, mas é um começo. Sigamos na nossa luta por uma nova democracia - ou por um novo conceito dela - que dê e compreenda o direito das mulheres, negros , LGBTS, deficientes físicos e etc. Sigamos."

Luiz Henrique, aluno da UERJ
       Henrique acabou de entrar na UERJ e encontrou a Universidade em estado de greve, num quadro que vem sendo agravado diariamente. Saiu do Ensino Médio, mas segue colaborando com os amigos que estão acampados nas escolas. Nós o Coletivo Meninas Black Power também estamos tentando fazer um acompanhamento, mesmo que virtualmente, do que está acontecendo nas escolas.

Para entender melhor:
SAERJ: O Sistema de Avaliação da Educação do Estado do Rio de Janeiro (SAERJ) existe desde 2008 e foi criado com o objetivo de promover uma análise do desempenho dos alunos da rede pública do Rio de Janeiro nas áreas de Língua Portuguesa e Matemática do 4° ano do Ensino Fundamental a 3ª série do Ensino Médio. No entanto a avaliação não respeita as diferentes realidades das escolas Estaduais e seus resultados seriam usados para fins que não têm relação com uma melhora efetiva do ensino público, mas sim uma forma de mascarar a evasão escolar, a educação tecnicista e sem desenvolvimento de pensamento crítico, além de outras criticas que são feitas ao exame.

CURRÍCULO MÍNIMO: o currículo proposto pelo MEC seria decisivo nas pautas a serem debatidas dentro das escolas. Este tipo de permissão pode comprometer a autonomia do professor, as condições de trabalho e não dar conta da diversidade existente em todo território nacional .

Acompanhem e mobilizem também. Vejam mais em: 

PRETA, ACADÊMICA E INTERCAMBISTA

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por Cleissa Regina
Foto: arquivo pessoal
“Desde cedo a mãe da gente fala assim: 'Filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor.' Aí passado alguns anos eu pensei: como fazer duas vezes melhor, se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses... Por tudo que aconteceu? Duas vezes melhor como?” 
– Racionais Mc’s, A vida é Desafio

      A gente sabe que é uma festa quando entramos na universidade. Parece que todos os nossos problemas acabaram e que, com certeza, vamos ter um futuro brilhante. Até aí a universidade parece o melhor lugar do mundo. Mas só parece. Depois de pouco tempo a gente vê que não é assim. Uma realidade estressante, com toda a obrigação de produção acadêmica em massa que não conseguimos cumprir. Frustrante por não nos vermos nas bibliografias e nas pessoas (pessoas?) dos tão respeitados professores-doutores-jovens-cientistas-de-1998 e por ainda sermos objetos e não sujeitos das pesquisas que ocorrem lá dentro; muitas vezes maçante, afinal muitos de nós precisam trabalhar pra se manter e normalmente as universidades são longe dos nossos lares. E, apesar de agora estarmos lá dentro - há muito tempo enquanto mão de obra e hoje, enfim, enquanto graduandos - a academia tem nos contido de várias formas. Com a evasão, com os problemas psicológicos e com a nossa grande ausência na pós-graduação. Ainda me choca ver alguns cursos sendo bastante preenchidos por nós, mas não vendo os pretos (ainda que com ótimo desempenho acadêmico) passarem da graduação ao mestrado. 


Foto: arquivo pessoal
     Como tem sido nossa passagem pela universidade? Como anda a saúde e a autoestima das pretas e pretos universitários? Qual tem sido a realidade das irmãs e dos irmãos formados? Essas são perguntas que precisamos nos fazer sempre, mas, além de perguntas, tenho aprendido que precisamos fazer escolhas. Escolhas que tem a ver com o conselho da mãe do Mano Brown, de tantas outras mães pretas por aí, e que podem nos levar mais longe. Escolhas que, acredito eu, me fizeram estar escrevendo esse texto pra vocês agora, depois de conhecer Harvard, Columbia e outras três universidades americanas num intercâmbio pago pelo Departamento de Estado AmericanoEscolhi sair de um estágio que me pagava bem e entrar de voluntária num grupo de pesquisa até realmente ganhar uma bolsa (que não é lá muita coisa) pra ter uma experiência com o que pretendo fazer futuramente. Escolhi me inscrever em menos matérias a cada semestre pra me dedicar mais em cada um e me sair melhor em cada período. Escolhi voltar para o inglês e realmente dominar a língua, já visando à próxima.
    É óbvio que, além disso, tive pessoas ao meu redor que sempre me mostraram as oportunidades e me encorajaram a tentar. Sei também que falo de um lugar privilegiado por ter tido a possibilidade de fazer essas escolhas, mas ainda assim acredito que várias pretas e pretos podem, além de universitári@s, ser viajadíssimos, e que cada vez mais vamos sim ocupar novos espaços. A viagem foi uma experiência maravilhosa. Pude passar cinco semanas nos Estados Unidos, melhorei meu inglês, cresci pessoal e profissionalmente e aprendi muito sobre a cultura americana e ainda sobre a América Latina. De certa forma, aprendi mais sobre o Brasil também e se eu fosse falar sobre a questão racial lá, daria todo um outro texto, permeado pelas nossas questões daqui. Mas além de tudo isso, viajar me encorajou muito. Coragem que eu tenho visto muitos dos meus pares perdendo durante a passagem pela universidade. Viajar restaurou muitas das minhas aspirações e até fez com elas aumentassem. Quero sim um doutorado, e agora ele bem que pode ser internacional, afinal, se em Harvard tem mais pretos do que na minha universidade, por que eu não poderia estudar lá também? 


Foto: arquivo pessoal
    Enquanto eu não chego nessa parte, quero ver mais pretas e pretos tendo a mesma oportunidade que eu e como sei que tem vários de nós com muita vontade de ter essa experiência, mas não sabem exatamente como, vou dar as dicas que posso. Não é uma receita infalível, mas espero que ajude!

1 - Fique de olho nas oportunidades. Há alguns sites que divulgam oportunidades, mas também é legal sempre olhar a parte de relações internacionais da sua  universidade porque lá pode ter várias oportunidades legais. Fiquem de olho em: Partiu Intercâmbio, Universia, Estudar Fora, Passaporte Mundo 

2 - Pra maioria das oportunidades é preciso ter boas notas. Às vezes pensamos que uma boa nota é 9, mas na verdade é um 7. Então não precisa surtar e vale se arriscar mesmo com uma nota que não seja altíssima, mas é sempre bom se garantir nesse quesito.

3 - Nem todas as oportunidades vão pedir o domínio de outro idioma, mas essa é uma competência importante pra vida e pode ser um critério de desempate, por exemplo. Inglês é o mais comum. A gente acha que nosso nível nunca tá bom, mas a fala é algo que só vai destravar na viagem, o crucial é se garantir na escrita porque normalmente é preciso preencher vários formulários e responder algumas questões em inglês. Nessa hora vale a revisão de uma amiga que saiba muito do idioma. Pra quem não sente minimamente segura com o inglês, tem as bolsas do Santander, que são pra Portugal ou pra países que falam espanhol. Aliás, corram que elas estão abertas agora! É só chegar aqui.

4 - Se a oportunidade for acadêmica, vão pedir uma carta de recomendação de algum professor. Não precisa bancar a "falsiane" e puxar o saco de todo mundo, mas é importante ser mais próxima de alguém que tenha coisas boas pra contar sobre você ou que, pelo menos, esteja disposto a dizer que você é uma boa candidata.

5 - Normalmente atividades extracurriculares não são um pré-requisito, mas são sempre um bom adicional. Como atividade extracurricular conta qualquer coisa fora da sala de aula. Ser monitor, participar de um grupo de pesquisa, participar de um coletivo, fazer grupos de estudos, trabalho voluntário, cuidar dos primos... Tudo depende de como você vai vender seu peixe, de como você conseguiu aprender algo a partir dessa atividade e cresceu com ela.

6 - Esteja disposta a difundir o que você vai aprender com a viagem depois que voltar. É muito mais interessante investir em alguém que vai multiplicar o conhecimento, se a bolsa de estudos for do governo de algum país, por exemplo. Vão querer que você seja capaz de representar a cultura deles aqui.

7 - É preciso se conhecer e ter certeza de que é um boa candidata. Algumas vezes você vai ter que escrever uma carta de intenção ou algo parecido, e nela você precisa saber falar bem de si mesma e mostrar porque você, entre várias outras pessoas, merece ganhar/ser escolhida. Normalmente a gente trava nessa hora, e pode ser bom pedir a ajuda de quem te conhece há muito tempo e que te mostre o que chama mais atenção na sua história.
Espero ver outras pretas e pretos rodando o mundo! Somos diaspóricos, nunca estaremos sozinhos, em nenhum lugar do mundo.

(Atenção! Recadinho das Meninas Black Power: tá rolando uma oportunidade bem boa pra quem quer fazer Inglês. Gratuito e totalmente online, Meninas! Não percam! Todos os detalhes aqui.)

MANTENHA A HIDRATAÇÃO MESMO USANDO PRODUTOS COM SULFATO

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por Élida Aquino

Foto: @sylviagphoto
      Já está comprovado que cada cabelo existe do seu próprio jeito. Apesar de sabermos das desvantagens dos "proibidos", como os que contém sulfato ou parabeno, por exemplo, não podemos ignorar que para muitas crespas ou cacheadas é possível levar uma rotina capilar saudável incluindo esses produtos. 
     Importante dizer: em termos técnicos* o Lauril éter sulfato de sódio é um ingrediente de limpeza adicionado aos shampoos e condicionadores, desengordurante eficaz e o responsável pelas bolhas de sabão que vemos. É exatamente por eliminar com tanta intensidade a oleosidade que se torna prejudicial aos fios crespos e cacheados, já carentes de hidratação natural. Apesar desse currículo, sentir-se confortável com algum produto que contenha sulfato não deve ser motivo de pânico. Abaixo vão algumas dicas básicas e úteis para preservar sua hidratação.

1 – Invista no pré-poo
Velho conhecido de Meninas Black Power! Se vocês estão partindo pro ritual de lavar o cabelo, adicionem mais uns minutinhos e façam algum tratamento antes da aplicação do shampoo. São boas opções aplicar óleos vegetais, manteigas ou fazer misturinhas a partir da noite anterior ou até 30 minutos antes de lavar. Além de começar a promover a hidratação, esse tipo de tratamento reforça a proteção dos fios e dificulta algum ressecamento que possa ser trazido pelo uso do shampoo.

2 – Usem óleos
Apliquem bons óleos depois do shampoo. Turbinar o brilho, selar a hidratação e facilitar na hora de pentear são efeitos desse cuidado. Escolham algum óleo que o cabelo goste, aplique, enxágue rapidamente e continue para o seu tratamento ou condicionador.

Foto: @sylviagphoto
3 – Hidratação power!
Tentem fazer tratamentos de hidratação intensa nos dias em que lavar com shampoo, ainda com as cutículas abertas e prontas para receber todos os benefícios. Usem máscaras puras ou misturinhas, permita a ação por um tempo razoável sobre os fios. Usar touca térmica e outros aparelhos semelhantes ajuda a potencializar esses efeitos.

4 – Método LOC
A forma de finalizar também é importante e o LOC pode ajudar na missão de reter a hidratação que os tratamentos trouxeram. Pra quem não conhece, o método LOC consiste em aplicar Líquido, Óleo e Creme, exatamente nessa sequência, formando camadas. 


       Não esqueçam que essas dicas são baseadas em uma observação geral de como crespos e cacheados se comportam, ok? Sem generalizar. Testem com carinho, respeitando o que o cabelo sinaliza. Não esqueçam de contar aqui se vocês usam produtos com sulfato e as experiências! Será um prazer saber sobre o que rola nas cabeleiras por aí. Beijos! 
Fontes: Black Hair Information | Wikipedia