SOBRE "OS NEGROS NA AMÉRICA LATINA", DE HENRY LOUIS GATES JR.

por Karina Vieira
Foto: Google
      Confesso que a primeira coisa que me chamou atenção no livro foi a capa, que é maravilhosa, convém dizer. Depois fui ler o título e, bem, me pegou de vez. De acordo com o Banco de Dados do Comércio Transatlântico de Escravos da Universidade de Emory na Geórgia, EUA, entre 1502 e 1866, 11,2 milhões de africanos sobreviveram a terrível travessia oceânica e chegaram como escravos ao Novo Mundo. Desse montante, "somente" 450 mil desembarcaram nos Estados Unidos, todos os demais desembarcaram em lugares situados ao sul do país, sendo que só no Brasil foram 4,8 milhões. Esses dados nos fazem crer que a grande experiência africana nas Américas não aconteceu nos EUA.
     A cerca de dez anos o autor decidiu fazer uma série de documentários sobre os afrodescendentes, sobre raça e cultura negra  no hemisfério ocidental fora dos Estados unidos e do Canadá. A primeira parte da trilogia começou com Wonders of the African world (Maravilhas do mundo africano), a segunda, American beyond the color line (Os Estados Unidos além da linha da cor) e a terceira parte deu origem a este livro.
     Henry Louis Gates Jr visitou em um período de 6 meses  Brasil, México, Peru, República Dominicana, Haiti e Cuba e procurou responder a seguinte problemática: O que é ser negro nesse países? Em tais sociedades quem é considerado negro, em quais circunstâncias e por quem? Serão as palavras que designam várias tonalidades de afrodescendentes no Brasil, como mulatos, cafusos, pardos, morenos, pretos? Ou pretos e negros são apenas as pessoas de aspecto mais africano numa mistura multidirecional de combinações de cor de pele, traços faciais e textura de cabelo?
      Como resposta ele descobre que o que é comum a todas essas sociedades é o fato lamentável  que as pessoas de origem africana "mais pura" ou "sem mistura" ocupam desproporcionalmente a parte mais baixa da escala econômica. As pessoas de pele mais escura, de cabelo mais crespo e de lábios mais grossos formam em geral o grupo mais pobre da sociedade. A pobreza foi construída socialmente em torno de graus de origem africana óbvia. Em comum também a todas elas, está o fato de que essas sociedades se orgulham de serem "democracias raciais", "livres de racismo" e "pós-raciais" e mesmo assim ainda carregam um legado forte de escravidão e histórias longas e específicas sobre o racismo.


       Ao visitar o Brasil, Henry encontra na nossa sociedade a incrível quantidade de 134 termos de tonalidade de cor ou palavras para negar a sua negritude. Descobre também que o foco do país na cor era algo que beirava a obsessão ou a chamada "eu sou qualquer coisa, menos negro". Descobre também que entre 1884 e 1939 o Brasil passou por um violento processo de "branqueamento", quando 4 milhões de europeus e 185 mil japoneses receberam subsídios para imigrar e trabalhar no país. Esse processo de imigração visava a reprodução dos europeus com os negros, a fim de clarear a pele da população e erradicar os vestígios da cultura africana.
      Em meio a tudo isso uma voz dissonante se faz ouvir, Manuel Querino, intelectual negro pioneiro que mesmo no Brasil é pouco conhecido. Querino assumiu uma atitude ousada e corajosa contra as ideologias racistas governamentais. Historiador, artista plástico, sindicalista e ativista negro, ele dava ênfase ao papel do africano como civilizador e procurava mostrar os costumes e tradições africanos na Bahia, ele exaltava o orgulho de ser descendentes de africanos. Querino é considerado o pai da história negra, da mobilização negra e da positividade dentro do movimento negro.


     O autor encontra em cada país visitado um herói negro, porém muito pouco conhecido dentro e mesmo fora de seu espaço de origem: No México, Gaspar Yanga; No Peru, a ambiguidade de José de San Martín; Na Republica Dominicana, Rosario Sánchez; No Haiti, Alexandre Pétion e em Cuba, José Antonio Maceo. Ao final do livro, Henry coloca como apêndice categorias de cor na américa latina, onde fica visível que por mais esforço que se tenha feito e ainda se faça, o racismo está aí resistindo e nos provando que ele é um legado histórico que ainda não se extinguiu, que ele não é apenas um processo que se herda de um passado remoto, e sim um conjunto de usos e costumes sociais e de ideias que são continuamente recriados e reproduzidos com enormes e devastadoras consequências sociais.

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