CABELO CRESPO É O NOME DO NOSSO CABELO

Por Jaciana Melquiades
Foto: Jaciana Melquiades - Atividade MBP
Existem vários substantivos que podem ser utilizados para caracterizar nossos cabelos e que não apresentam dano à nossa autoestima. "Ruim" não é um deles. É juízo de valor e, neste caso, nunca deveria ser utilizado como adjetivo. Isto posto, vamos falar um pouco sobre representatividade, estética preta e militância.
É evidente e crescente o número de mulheres e homens que estão assumindo a cabeleira black power e colorindo as ruas com cores vibrantes nos cabelos. A aceitação da estética preta parece estar crescendo, mas a cada passo que damos em nosso direito à normalidade de apenas poder ser o que somos, recebemos ataques racistas vindos de comentários naturalizados, que depreciam nossas características. Vídeos e blogs sobre a beleza da mulher, do homem e da criança negra estão aumentando, e são extremamente importantes no que diz respeito à representatividade, mas as mensagens mais compartilhadas nas redes sociais são justamente aquelas que nos tiram do eixo.
A falta de representatividade positiva que a população negra sofre, deixa em nossas crianças uma lacuna identitária que, na maioria das vezes, é preenchida por elementos que não refletem a população negra no geral. Essa lacuna nos persegue por toda a vida e, se não somos cautelosos e atentos, reproduzimos todo autoódio que nos ensinam a sentir de nós mesmos. Nosso cabelo, nosso nariz, nossa cor: tudo acaba virando alvo de reclamações, insatisfações e desejo de afastamento do fenótipo que nos é natural.
Foto: Reprodução internet
A experiência que temos neste coletivo em lidar com o público infantil e jovem que não se vê representado, nos deu a certeza de que é preciso combater o racismo em todas as esferas em que for identificado. Nossas atividades tem como objetivo geral promover a autoestima na juventude negra a partir da reflexão sobre as razões da existência do racismo. Essa reflexão é capaz de promover o autoconhecimento e, consequentemente, a elevação dos valores positivos relativos à negritude. A primeira atividade que desenvolvemos em uma escola nos permitiu reconhecer problemas de autoestima nas crianças. Apesar de elas terem uma percepção cromática da própria pele condizente com as características fenotípicas de cada uma delas, concepções depreciativas dessas características estiveram presentes o tempo todo em seus discursos.
A TV corrobora o que elas aprenderam a pensar sobre si, não com afirmativas, mas com a negação do uso de nossa imagem em suas peças publicitárias: "são feias", "o nariz é largo demais", "o cabelo é ruim". A adaptação aos padrões aparece para nossas crianças e para os nossos jovens como obrigatória, e é sempre dolorosa. A química que modifica nossos cabelos crespos, queima e fere o couro cabeludo, e cada vez que nossos cabelos tornam a crescer, o desespero de esconder nossas raízes toma conta de uma infinidade de mulheres e homens negros. Mas nossas raízes resistem sempre e tornam a nascer.
A sociedade brasileira é dividida em categorias raciais cotidianamente, sem necessariamente ter que haver um manual para que todos saibam a que  categoria pertencem, no entanto, enfrentar a empreitada de combater o racismo e a discriminação de nossas características fenotípicas não poderia acontecer sem o risco dos desentendimentos. Combater é obrigatoriamente sublinhar e tornar visível a discriminação, os termos camuflados sob o véu da "brincadeira" revelar o que por tanto tempo julgou-se não haver. Combater o racismo, é começar de dento de nossa comunidade preta a eliminar os sintomas do racismo que nos adoece: aprender a ver a beleza de nossos cabelos crespos, que são tão diversos; de nossa cor de pele, dos formatos de nossos rostos que são tão expressivos e fortes.
Foto: Jaciana Melquiades - Atividade MBP
Uma nova forma de militância e resistência cresce e se fortalece: Meninas, mulheres e homens pertencentes à comunidade preta estão escrevendo sobre a nossa beleza. Mulheres pretas estão diariamente gravando vídeos que nos ensinam a cuidar de nossos cabelos crespos, maquiagens que nos favorecem, nos ensinam a usar roupas que deixam nossos corpos volumosos à vontade. Aprendemos a usar turbantes e seu significado ancestral. Nossa comunidade cada vez mais se vê bela e se fortalece com esse olhar, cada vez mais nos vemos espelhados e representados positivamente uns nos outros e assim ficamos mais fortes. Que compartilhemos o que nos representa! Comentemos o que nos fortalece. Eliminemos o ranço racista que insiste em nos dividir.

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