CRESPAS, (DES)CRESPAS E “ENCRESPANDAS”


Foto: Allisom Valentim
    Liberdade. Foi a palavra e o sentimento que me fez começar a pesquisar e a perceber mais mulheres que tinham cabelos crespos, usando-os livremente e sem nenhuma química. Olhava mais pessoas na ruas, notava cada vez mais um movimento crescendo. As pessoas não tinham mais medo ou vergonha de lidar com seus cabelos naturais.
   E esse assunto me pegou mesmo. Fiquei apaixonada por cabelos crespos, mesmo sem cabelo eu adorava o meu e adorava mais ainda ver pessoas crespas nas ruas. Isso significava mudança de mundo, mudança de pensamento, a visão bela do cabelo crespo.
    Me dediquei a escrever aqui e a pesquisar mais sites, blogs e lugares, nos quais eu poderia compartilhar e saber mais sobre esse assunto. Cada vez mais via as mulheres pelo mundo afora e principalmente aqui no Brasil, se descobrindo com seus novos/velhos cabelos. O resgate das tranças, a arte passada de mãe para filha, quase que por oralidade, feito as histórias africanas... o resgate não só da beleza negra, mas também de sua história, percurso.

  Percebi somente falando e escrevendo sobre isso, cada vez mais pesquisando e me alimentando dessa ideia. Há tempos que penso em mudar o mundo, e finalmente me identifiquei com um assunto que poderia de fato mudar alguma coisa na história em que vivo. Por mais que visse a mudança acontecendo lá fora, queria ver mais ações aqui no Brasil e encontrei aos poucos coletivos como, o Manifesto Crespo, Meninas Black Power e o Projeto Raiz Forte. Todos já descritos aquiQuase sempre formado por mulheres que de alguma forma se reencontraram em suas formas crespas e conseguiram fazer com que mais pessoas discutissem suas ideias.

Beleza baiana do Cortejo Afro Ilê Aiyê
    Recentemente fui pela primeira vez à Bahia, e lá consegui ver o que há tempos procurava: o orgulho negro, estampado em todas a formas possíveis. Vi mulheres sentadas nas ruas do Pelourinho, trançando, embelezando seus cabelos crespos.
   Pesquisando sobre isso, sobre como as pessoas conseguem de alguma forma transbordar a sua beleza para o mundo, acabei encontrando dois fatos, coisas que acontecem lá nos Estados Unidos e que sinto falta aqui no Brasil. Bem sabemos que a história negra, com todo a sua riqueza e sofrimento, foi e é diferente aqui no Brasil e nos EUA. Que lá eles lidaram de forma diferenteMas acabei achando duas manifestações estéticas sobre cabelo crespo que se completam.

    A primeira foi o Heat - Free Hair Movement, uma empresa que se especializou em produzir apliques de cabelo crespo para mulheres negras que desejam aumentar seus cabelos sem ter que alisá-los, ou seja, que ele fique grande, mas que não perca sua forma crespa. Aí parei para pensar em toda essa manifestação de cultivar o cabelo natural. Eu mesma achava que cabelo natural era somente ter e manter o "seu" cabelo crespo. Sem mais nada. Acabei vendo que não precisa ser assim, podemos querer ter o cabelo maior, e o que mais me chamou a atenção, foi que as mulheres mudaram a sua forma de pensar e que agora procuram por apliques crespos, bem crespos, que os acham bonito. A estética mudou de verdade. E fuçando mais a fundo, hoje encontrei um salão de beleza, também americano, lá do Texas que só trata o cabelo crespo naturalmente, sem química. O Natural Resources Salon. A mesma sensação de beleza negra e crespa sendo mostrada.
    Parei para pensar novamente e vi o que essas duas empresas têm em comum: a exaltação da beleza crespa e negra, um campo específico para o tratamento dos cabelos crespos de mulheres que optaram em serem naturais. Tanto uma como a outra, prestam serviços para esse tipo de público, que é específico e que cresce cada dia mais.
    Os produtos oferecidos fortificam a beleza crespa e negra, tanto nas suas fórmulas, como também na sua comunicação. Imagens de diferentes mulheres, sempre negras, com suas tranças, dreads e blacks. Sempre crespas.

     Exibida recentemente, a novela Lado a Lado ajudou a representar melhor os negros na mídia, surgem matérias cada vez mais voltadas para o público negro, mas ainda poucos têm acesso. 
     Proponho então que o crespo seja uma questão de livre de escolha, que você, negro ou não, possa usar seu cabelo crespo livremente. Que as crianças de hoje e as que ainda estão para nascer possam entender e escolher o cabelo que querem usar. Que você, principalmente mulher negra que queira alisar sinta-se a vontade para fazer e que tenha suporte para fazer isso saudavelmente e que principalmente, você mulher crespa, possa encrespar cada vez mais e que se sinta representada.
                                                               Via Favela Fina








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7 Responses to “CRESPAS, (DES)CRESPAS E “ENCRESPANDAS””

  1. texto bom, com positividade em meio a um caos semanal.

    chêros :*

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    1. Obrigada pelo carinho, Larissa! Beijos crespos.

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  2. Ótimo texto, parabéns Hanayrá!!
    Uma pena mesmo quase não haver salões assim aqui no Br!

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    1. Pois é, flor... Esse é um problema no país, como disse a Hana. São raros os salões que cuidam do cabelo natural na integralidade. Fica aqui o nosso apelo e vamos lutando pra mudar isso.

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  3. Estou assim, em transição ando na rua reparando como nunca fiz nas mulheres que exibem com orgulho seu crespo.

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    1. Isso é lindo e libertador, não é?! São tantas texturas e tanta liberdade... Amamos crespos.

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  4. Boa noite!

    Esse seu texto foi muito inspirador. Parabéns pelas palavras. Estou numa caminhada pelo que chamo as colinas dos meus caracóis: há altos e baixos, dias bons e dias maus neste processo de transição, mas com muita perseverança e respeito pelas minhas raízes conseguirei ter um cabelo natural bem tratado e amado.

    Tudo de bom!

    http://mulatadelisboa.blogspot.pt

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