PRETA, ACADÊMICA E INTERCAMBISTA

por Cleissa Regina
Foto: arquivo pessoal
“Desde cedo a mãe da gente fala assim: 'Filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor.' Aí passado alguns anos eu pensei: como fazer duas vezes melhor, se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses... Por tudo que aconteceu? Duas vezes melhor como?” 
– Racionais Mc’s, A vida é Desafio

      A gente sabe que é uma festa quando entramos na universidade. Parece que todos os nossos problemas acabaram e que, com certeza, vamos ter um futuro brilhante. Até aí a universidade parece o melhor lugar do mundo. Mas só parece. Depois de pouco tempo a gente vê que não é assim. Uma realidade estressante, com toda a obrigação de produção acadêmica em massa que não conseguimos cumprir. Frustrante por não nos vermos nas bibliografias e nas pessoas (pessoas?) dos tão respeitados professores-doutores-jovens-cientistas-de-1998 e por ainda sermos objetos e não sujeitos das pesquisas que ocorrem lá dentro; muitas vezes maçante, afinal muitos de nós precisam trabalhar pra se manter e normalmente as universidades são longe dos nossos lares. E, apesar de agora estarmos lá dentro - há muito tempo enquanto mão de obra e hoje, enfim, enquanto graduandos - a academia tem nos contido de várias formas. Com a evasão, com os problemas psicológicos e com a nossa grande ausência na pós-graduação. Ainda me choca ver alguns cursos sendo bastante preenchidos por nós, mas não vendo os pretos (ainda que com ótimo desempenho acadêmico) passarem da graduação ao mestrado. 


Foto: arquivo pessoal
     Como tem sido nossa passagem pela universidade? Como anda a saúde e a autoestima das pretas e pretos universitários? Qual tem sido a realidade das irmãs e dos irmãos formados? Essas são perguntas que precisamos nos fazer sempre, mas, além de perguntas, tenho aprendido que precisamos fazer escolhas. Escolhas que tem a ver com o conselho da mãe do Mano Brown, de tantas outras mães pretas por aí, e que podem nos levar mais longe. Escolhas que, acredito eu, me fizeram estar escrevendo esse texto pra vocês agora, depois de conhecer Harvard, Columbia e outras três universidades americanas num intercâmbio pago pelo Departamento de Estado AmericanoEscolhi sair de um estágio que me pagava bem e entrar de voluntária num grupo de pesquisa até realmente ganhar uma bolsa (que não é lá muita coisa) pra ter uma experiência com o que pretendo fazer futuramente. Escolhi me inscrever em menos matérias a cada semestre pra me dedicar mais em cada um e me sair melhor em cada período. Escolhi voltar para o inglês e realmente dominar a língua, já visando à próxima.
    É óbvio que, além disso, tive pessoas ao meu redor que sempre me mostraram as oportunidades e me encorajaram a tentar. Sei também que falo de um lugar privilegiado por ter tido a possibilidade de fazer essas escolhas, mas ainda assim acredito que várias pretas e pretos podem, além de universitári@s, ser viajadíssimos, e que cada vez mais vamos sim ocupar novos espaços. A viagem foi uma experiência maravilhosa. Pude passar cinco semanas nos Estados Unidos, melhorei meu inglês, cresci pessoal e profissionalmente e aprendi muito sobre a cultura americana e ainda sobre a América Latina. De certa forma, aprendi mais sobre o Brasil também e se eu fosse falar sobre a questão racial lá, daria todo um outro texto, permeado pelas nossas questões daqui. Mas além de tudo isso, viajar me encorajou muito. Coragem que eu tenho visto muitos dos meus pares perdendo durante a passagem pela universidade. Viajar restaurou muitas das minhas aspirações e até fez com elas aumentassem. Quero sim um doutorado, e agora ele bem que pode ser internacional, afinal, se em Harvard tem mais pretos do que na minha universidade, por que eu não poderia estudar lá também? 


Foto: arquivo pessoal
    Enquanto eu não chego nessa parte, quero ver mais pretas e pretos tendo a mesma oportunidade que eu e como sei que tem vários de nós com muita vontade de ter essa experiência, mas não sabem exatamente como, vou dar as dicas que posso. Não é uma receita infalível, mas espero que ajude!

1 - Fique de olho nas oportunidades. Há alguns sites que divulgam oportunidades, mas também é legal sempre olhar a parte de relações internacionais da sua  universidade porque lá pode ter várias oportunidades legais. Fiquem de olho em: Partiu Intercâmbio, Universia, Estudar Fora, Passaporte Mundo 

2 - Pra maioria das oportunidades é preciso ter boas notas. Às vezes pensamos que uma boa nota é 9, mas na verdade é um 7. Então não precisa surtar e vale se arriscar mesmo com uma nota que não seja altíssima, mas é sempre bom se garantir nesse quesito.

3 - Nem todas as oportunidades vão pedir o domínio de outro idioma, mas essa é uma competência importante pra vida e pode ser um critério de desempate, por exemplo. Inglês é o mais comum. A gente acha que nosso nível nunca tá bom, mas a fala é algo que só vai destravar na viagem, o crucial é se garantir na escrita porque normalmente é preciso preencher vários formulários e responder algumas questões em inglês. Nessa hora vale a revisão de uma amiga que saiba muito do idioma. Pra quem não sente minimamente segura com o inglês, tem as bolsas do Santander, que são pra Portugal ou pra países que falam espanhol. Aliás, corram que elas estão abertas agora! É só chegar aqui.

4 - Se a oportunidade for acadêmica, vão pedir uma carta de recomendação de algum professor. Não precisa bancar a "falsiane" e puxar o saco de todo mundo, mas é importante ser mais próxima de alguém que tenha coisas boas pra contar sobre você ou que, pelo menos, esteja disposto a dizer que você é uma boa candidata.

5 - Normalmente atividades extracurriculares não são um pré-requisito, mas são sempre um bom adicional. Como atividade extracurricular conta qualquer coisa fora da sala de aula. Ser monitor, participar de um grupo de pesquisa, participar de um coletivo, fazer grupos de estudos, trabalho voluntário, cuidar dos primos... Tudo depende de como você vai vender seu peixe, de como você conseguiu aprender algo a partir dessa atividade e cresceu com ela.

6 - Esteja disposta a difundir o que você vai aprender com a viagem depois que voltar. É muito mais interessante investir em alguém que vai multiplicar o conhecimento, se a bolsa de estudos for do governo de algum país, por exemplo. Vão querer que você seja capaz de representar a cultura deles aqui.

7 - É preciso se conhecer e ter certeza de que é um boa candidata. Algumas vezes você vai ter que escrever uma carta de intenção ou algo parecido, e nela você precisa saber falar bem de si mesma e mostrar porque você, entre várias outras pessoas, merece ganhar/ser escolhida. Normalmente a gente trava nessa hora, e pode ser bom pedir a ajuda de quem te conhece há muito tempo e que te mostre o que chama mais atenção na sua história.
Espero ver outras pretas e pretos rodando o mundo! Somos diaspóricos, nunca estaremos sozinhos, em nenhum lugar do mundo.

(Atenção! Recadinho das Meninas Black Power: tá rolando uma oportunidade bem boa pra quem quer fazer Inglês. Gratuito e totalmente online, Meninas! Não percam! Todos os detalhes aqui.)

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One Response to “PRETA, ACADÊMICA E INTERCAMBISTA”

  1. Muito bom! Obrigado por compartilhar essas dicas tão importantes para o nosso povo, bora escurecer a episteme, vlw!

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