FAÇA O SEU KILOMBU – MBP ENTREVISTA KIZZY TERRA

por Élida Aquino

Foto: Cleissa Regina
      Quilombos: pontos de resistência e refúgio para quem não aceitou opressão. Os ideais comuns e senso de unidade de tempos atrás não passaram de nós e continuam valendo. Ainda que com novas armas, seguimos na busca por liberdade plena e fortalecimento para nossa comunidade. 
      A conversa que vocês já vão ler me fez lembrar o incrível Chinua Achebe, inovador da literatura africana, dizendo "se você não gosta da história de alguém, escreva a sua própria". Jovens como nós usam a internet, tecnologia e outras inovações nada estranhas às gerações X e Y para promover resistência, valorização e visibilidade. Além disso, cada vez mais conscientes do nosso poder criativo e das infinitas possibilidades para explorar, temos empreendido. Foi desse jeito que o Coletivo Meninas Black Power conheceu o trio idealizador do aplicativo Kilombu e uma sensacional começou para gerar maiores impactos no nosso mundo. O app foi lançado semanas atrás e não podíamos deixar de falar sobre ele aqui! Chamei a Kizzy Terra, Menina do time e uma rainha, para trocar ideias. O nome dela significa "aquela que veio para ficar" (inspirado no livro Negras Raízes, do Alex Haley) e desejo que a fala realmente fique e inspire muitas de nós, especialmente as que estão de olho em carreiras ligadas à tecnologia e exatas. Aproveitem!

MBP – Começa contando sobre você?
Kizzy Terra – Sou a Kizzy. Tenho 23 anos, nasci em Porto Alegre e há alguns anos vim estudar no Rio.

MBP – Legal saber que veio por causa dos seus estudos. O que estudou e onde?
KT – Estudei no Instituto Militar de Engenharia, o IME. Minha formação foi em Engenharia da Computação.

MBP – O que te fez optar por esse curso, necessariamente pela computação?
KT – Na verdade eu não tinha certeza da computação. No IME o direcionamento é feito depois que começamos. Lidar com a computação chamou minha atenção. Ainda no Ensino Médio conheci e me interessei em fazer o concurso e ingressar no IME.

MBP – Como você descreve a presença de mulheres nesse curso? E de mulheres negras?
KT – A presença de mulheres é maior do que foi em outros tempos, mas nesse espaço [militar] ela ainda não é tanta. A de negras é menor ainda.

MBP – Enquanto mulher negra, você teve grandes desafios nesse período? Pode compartilhar com a gente?
KT – Fazer engenharia em um instituto militar já impõe naturalmente alguns desafios bem conhecidos pelas mulheres que convivem em ambientes majoritariamente masculinos. Particularmente, acho que um dos principais desafios está na desconstrução de estereótipos que se dá já no fato de ocupar estes espaços sendo mulher e negra e ser capaz de me destacar em virtude das minhas habilidades e competências.

MBP – E qual foi seu trabalho de conclusão de curso?
KT – Meu TCC, coincidentemente, foi um aplicativo para Android que visava auxiliar o deslocamento a pé para turistas. Basicamente, a partir de rotas retornadas pelo Google, fazíamos (eu e outros dois colegas) pequenos desvios baseados no interesse do usuário de forma a sugerir uma nova rota a pé incluindo pontos interessantes da cidade (praias, teatros, museus, etc.).


MBP – Agora você faz mestrado, né? Conta um pouco mais sobre essa fase!
KT – Meu mestrado é em Modelagem Matemática da Informação. Fiz essa escolha por gostar de Matemática e também por ter bastante relação com a minha graduação em Engenharia de Computação.

MBP – Conheci você por causa do app Kilombu. Explica pra galera o que é e como funciona?
KT – O Kilombu é um aplicativo para anúncios de negócios e serviços de empreendedoras e empreendedores negros.  O funcionamento é bem simples. Para quem quer contratar um serviço, basta fazer o download e buscar os seus interesses através dos filtros de categoria. Para empreendedoras e empreendedores que desejam cadastrar seus negócios: é só fazer download, criar uma conta pessoal, logar e então criar um cadastro.

MBP – E qual foi a motivação de vocês na criação de um app como este?
KT – A principal razão de criarmos um app assim é dar visibilidade a grande quantidade de empreendedores negros e negras no Brasil, bem como incentivar seu empoderamento através da existência como uma comunidade.

MBP – Além de você a equipe Kilombu conta com mais dois integrantes e eles são homens. Como é ser a única mulher dentro desse contexto?
KT – 
É bem tranquilo. Nossa equipe ainda é pequena e sou bastante próxima dos outros idealizadores. Pretendemos que o Kilombu cresça e quando isso acontecer deixarei de ser a única mulher da equipe.

MBP – Nossa conversa passa diretamente pelo campo da tecnologia, programação e etc. Como vê hoje a inserção de negros, principalmente de mulheres negras, atuando como profissionais dessas áreas?
KT – 
Acredito que no aumento dos últimos anos, mas ainda está muito longe do que pode vir a ser.  Com certeza ainda temos muito espaço a ocupar dentro deste mercado e isso se dará, sem dúvida, através da educação e também dos exemplos positivos.

MBP – O projeto de vocês é super inovador e com certeza vai crescer mais. Já fazem planos pro futuro?
KT – 
Vamos aprimorar muito o aplicativo Android, lançar a tão pedida versão para iOS, estabelecer parcerias interessantes e investir em diversas ações que potencializem os nossos anunciantes. Queremos que os usuários entendam que o Kilombu só tem sentido de existir se eles existirem.

É Android? Baixe o app!
MBP – Interessante falar mais sobre mulheres negras que trabalham com desenvolvimento, programação e outras coisas dentro da tecnologia. Durante o tempo em que transita por esse espaço, encontrou mulheres negras? Pode citar alguma que se destaque?
KT – Não consigo recordar nenhuma mulher negra no Brasil ou outro lugar. A presença de homens negros é bastante rara e a de mulheres negras bem mais.

MBP – Então precisamos mudar isso... O que diria para Meninas que gostem da área tecnológica mas estão em dúvida sobre investir em alguma carreira que se relacione? 
KT – Precisamos de meninas inteligentes e corajosas para ocupar cada vez mais as empresas de tecnologia e todos os espaços que hoje ainda são dominados pelos homens. Tenho certeza que todas tem plenas condições de serem brilhantes nas áreas em que escolherem atuar e quero incentivá-las, de coração, a persistirem na busca de seus sonhos. Por último, não esqueçam: "se sentir medo, vai com medo mesmo!".

MBP – Pra fechar, passa uma lista inspiradora pra gente explorar bastante assuntos como empreendedorismo, tecnologia e desenvolvimento?
KT – Sim! Indico esse podcast com o Flávio Augusto da Silva, os conteúdos produzidos pelo FazInova, site e canal do Conrado Adolpho, o conteúdo desenvolvido pela ONG Think Olga que fala bastante sobre mulheres em tech. Uma lista bacana de livros sobre empreendedorismo: A Startup Enxuta, de Eric Ries; De Zero a Um - o Que Aprender Sobre Empreendedorismo Com o Vale do Silício - Peter Thiel; Faça Acontecer: Mulheres, Trabalho e a Vontade de Liderar, Sheryl Sandberg; Motivação 3.0 - Daniel H. Pink.


Ela não é sensacional?  Espero que tenha sido inspirador pra vocês também. Ah! Façam suas indicações se conhecerem mais mulheres negras empreendendo em tecnologia, programação ou desenvolvimento, hein?! Será ótimo conhecê-las e conectar todo mundo num mesmo lugar. Beijos!

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One Response to “FAÇA O SEU KILOMBU – MBP ENTREVISTA KIZZY TERRA”

  1. Parabéns ao pessoal da Kilombu! E a Kizzy Terra por ser uma desbravadora na tecnologia assim como eu aqui no sul do Brasil. Sei bem como é sempre ser a única negra neste mercado, e apoio totalmente as iniciativas que incentivem as mulheres negras a também criar tecnologia. Somos tão capazes e podemos!

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