SOBRE TER FORÇA COLETIVA

por Jaciana Melquiades

Foto: Jaciana Melquiades
     Sofrer uma violência abre portas infinitas dentro da gente. Medo, fobia, desconfiança, raiva, impotência. Sem contar a taquicardia, o sangue nos olhos, a vontade de que x violentadxr exploda, a vergonha da exposição, a vontade de sumir. Demora até o coração desacelerar e a gente conseguir pensar no que fazer. Meu dia poderia ter sido normal, como qualquer outro dia, mas recebi uma mensagem de um desconhecido me propondo sexo. Em poucas trocas de mensagens soube que a foto acima está circulando em grupos de WhatsApp com meu número de telefone e uma mensagem bem direta: "Procuro sexo casual! Add no Zap".
       Mil pensamentos passaram ao mesmo tempo pela minha cabeça e em quase todos a culpa moralizante tendia a me deixar desesperada. Escrevo no passado e já o vejo distante, pois bastou eu me acalmar e consultar o infinito suporte que tenho, pra eu me lembrar, entender e consolidar de uma vez em minha cabeça que estou sendo vítima de uma violência. Entendi que a moral e o julgamento do outro fazem os questionamentos sobre essa situação serem deturpados. Na teoria já tinha entendido, mas juntar discurso, pensamento e prática tem sido um grande desafio. Aconselhar o outro, no geral, é bem mais simples: nem tanto pela falta de empatia, mas pela vivência que torna a dor um dificultador do raciocínio.
    Penso na infinidade de mulheres e meninas que são perseguidas única e exclusivamente por serem mulheres; que são expostas e culpabilizadas única e exclusivamente por serem mulheres. E não importa se a mulher é mais ou menos exposta, se frequenta ou não baladas, se faz ou não sexo: qualquer mulher pode ser exposta e ter seu íntimo abalado por conta de atitudes machistas, misóginas e criminosas como a exposição da imagem sem o seu consentimento. "Mas você não mandou nenhuma foto sua? Mas você deu seu número de telefone? Mas você não se expõe demais?"... Eu até poderia justificar o motivo de meu numero de telefone ser público, do meu perfil no Facebook ser aberto, das minhas postagens, do meu comportamento, no entanto uma infinidade de autoras, referências que tenho na vida inclusive, já falaram sobre esse assunto e deixam explícito e comprovado que nenhuma dessas perguntas é relevante na identificação dx culpadx pela violência sofrida; nenhuma dessas perguntas respondidas ajuda no cuidado à vítima. Pensando no peso moralizante de ter nossa imagem exposta, não vejo relatos circulando de exposição de homens, e imaginando tal situação, pensando no contexto de sociedade machista e misógina na qual vivemos, a exposição masculina poderia até funcionar positivamente pra esse sujeito. Imagino que seja assim por comparar adjetivos como galinha e putx, quando dados ao homem ou mulher, para se ter noção de como os tratamentos destinados a homens e mulheres são desiguais, desleais e em incontáveis casos, criminosamente devastadores para as mulheres.
      Quando vi a mensagem, minha primeira reação foi a de querer apagar, me esconder, sumir. Mas corri pra onde me sinto amparada: tenho uma rede de relaciomentos segura, que me dá suporte. Família, amigos, irmãs. O medo só diminuiu quando me vi cercada pela coletividade. Digo que diminuiu, pois me vi completamente impotente em relação aos rumos que podem dar à minha foto. O julgamento moral acaba não me afetando, pois para os questionamentos que me culpabilizam eu tenho a resposta na ponta da língua, mas e a menina que não tem? E a mulher que fica amedrontada e apaga a mensagem? E qualquer uma de nós que, por receio da forma estúpida que seremos tratadas pelas autoridades, se isenta de fazer uma queixa formal? E a moça que tira a própria vida por se sentir culpada demais? Essas são perguntas relevantes.

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