REPRESENTAÇÃO: BRINQUEDO AFIRMATIVO E IDENTIDADE

por Jaciana Melquiades
Venho buscando muitas referências sobre brinquedos afirmativos. Leituras, referências na internet, páginas no Facebook e tudo que seja enriquecedor. O interesse é pessoal (tenho um filho de 3 anos em fase escolar e que precisa conhecer um mundo inteiro), e profissional (eu mesma tenho um empreendimento familiar bem jovem que se aventura na produção de brinquedos afirmativos). Não seria novidade aqui se eu dissesse que em uma vasculhada rápida em sites de busca, com as palavras "brinquedo" ou "brincadeira", é possível encontrar uma infinidade de material, e em pouquíssimas (ou nenhuma) teremos representadas nossas crianças negras.
O brinquedo tem função fundamental na formação do indivíduo e de sua identidade. A identificação positiva permite a construção da autoestima na criança e um bom relacionamento com sua autoimagem. Através da brincadeira é possível que ampliemos a percepção do mundo em que vivemos, é possível que aprendamos sobre o funcionamento da vida cotidiana e que construamos uma série de "verdades" que nos acompanharão pelo resto da vida. Nesse sentido, a representatividade que pode vir agregada ao brinquedo pode ser decisiva na construção de uma autoimagem positiva.
Como mãe, o desafio é ampliar as possibilidades de reconhecimento de meu filho. Obviamente que, mesmo tão pequenos - acho que justamente por isso - ele busca correlação de sua imagem com elementos não negros também, e tendo em vista o que o mercado nos oferece, os elementos não-negros são sempre maioria e estão ao alcance fácil dos olhos. Desenhos animados, super-heróis, livros infantis: todos esses elementos são apresentados a ele e exercem funções didáticas o tempo todo. Somos, como pais, educadores cotidianos, e a cada referência que damos (ou permitimos que tenham) precisamos pensar na forma como tal elemento será assimilado e absorvido pelos nossos pequenos. É bacana que nossos crespinhos e crespinhas curtam o Batman ou a Rapunzel, por exemplo, mas onde estão personagens nos quais elas e eles se enxergam? Quando olham no espelho, com quem se parecem??? Como empreendedora, o desafio é entender este grande buraco que existe no mercado e não me perder nos objetivos da empresa: é muita demanda!

Capa Super Black Power da Era Uma Vez o Mundo. Foto: Jaciana Melquiades
Fui conversar com Lúcia Makena, uma grande referência que tenho na construção de brinquedos afirmativos. Não só por conta da criatividade na hora de criar suas bonecas, mas por conta do engajamento que ela tem na aplicação da Lei 10639 de ensino de História da África  e Afro-brasileira, da sua trajetória como educadora e disseminadora do uso da boneca preta como elemento educativo (e representativo) para nossas crianças. Para saber um pouco mais sobre seu trabalho, clique aqui

Em uma breve entrevista ela me contou um pouco sobre sua trajetória educativa com brinquedos afirmativos, sobre como eles entraram em sua vida profissional. Ela diz que as bonecas entraram em sua vida através de uma revista de artesanato que viu numa banca de jornal. Ela ficou encantada ao ver uma boneca negra de pano na capa de uma revista. Ela acredita que foi um empurrãozinho dos nossos ancestrais para que se inspirasse e a partir dai cumprisse com sua missão na luta contra o RACISMO. Ela me falou também sobre a importância da boneca negra na infância de uma criança negra, em especial para a menina negra:

Lúcia Makena: Contação de histórias
"As bonecas em geral ajudam no processo de formação de identidade das crianças no caso das 'meninas', e para as meninas negras essa possibilidade foi durante décadas ignorada como se todas as meninas fossem iguais ou bem parecidas [...] As bonecas negras para as meninas negras são um direito que as bonequeiras* negras estão devolvendo a elas e assim contribuindo na sua formação e com sua autoestima."
 Perguntei a ela se boneca era "coisa de menina", e como ela acha ser possível romper essas barreiras entre "brinquedo de menino" e "brinquedo de Menina". Ela me disse que aos poucos, convivendo com diversos tipos de pessoas, participando de muitos eventos, conseguiu entender que as bonecas vão além de ensinar as meninas a ninarem seus futuros filhos e sim que a boneca tem que conviver com o grupo de meninas e meninos. Segundo ela, inserir a boneca no cotidianos também dos meninos não tem sido uma tarefa fácil. A barreira social é grande, mas Lúcia Makena continua dialogando com as mães, buscando a desconstrução de pensamentos machistas. Assistam aqui e aqui a participação dela no programa Pé na África falando sobre a importância das bonecas negras na educação e a representatividade de nossas crianças nos brinquedos afirmativos. Vale a pena conferir esse bate papo!
Boneca Makena. Foto: Lucia Makena.
Pensando somente em brinquedos afirmativos e citando alguns exemplos (usando todos aos quais consegui ter acesso - seja por conhecer pessoalmente, ou por busca no google):
Era uma vez o mundo: Essa é a minha xodó. Para saber mais, clique aqui e aqui. Existimos desde 2008 e tentamos criar brinquedos que sejam referências tanto para meninos quanto para Meninas. Temos livros de pano, bonecas, capa de super-herói ou heroína! Temos oficinas para alunos ou professores e apresentamos nossos brinquedos afirmativos e educativos como ferramentas na construção da autoestima, representatividade, além de servirem como material didático às instituições de ensino.
Um dos livros de pano da Era uma vez o Mundo. Foto reprodução do site.


Preta Pretinha Bonecas: Uma loja de muito sucesso, conhecida e existente em muitos estados brasileiros e até fora do país, que nasceu da vontade de três irmãs de se verem representadas em seus brinquedos, mais especificamente as bonecas que ganhavam. Você pode saber mais sobre a loja aqui. Hoje as irmãs são especializadas em brinquedos inclusivos.
Bonecas inclusivas da Preta Pretinha. Foto reprodução do site.


Negafulô & Cia: Tem um ateliê lindinho em São Paulo e produz bonecas negras maravillhosas, brinquedos e acessórios desde 1998. Você pode conhecer melhor aqui. Esta empresa apresenta também palestras a educadores inserindo suas bonecas na Lei 10.639 de ensino de História da Africa e Afro-brasileira.
Bonecos e bonecas Negafulô. foto reprodução da Fan page.
Temos uma caminhada muito grande pela frente no que diz respeito à construção de representatividade aos nossos pequenos, mas seguimos tentando e cada vez mais em maior número. Sempre é bom lembrar: juntos somos mais fortes, e só é possível a criação de espelhos positivos, se nos virmos desde cedo nos símbolos que nos cercam.

*Bonequeira: Mulher que confecciona bonecas e bonecos de pano. 

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One Response to “REPRESENTAÇÃO: BRINQUEDO AFIRMATIVO E IDENTIDADE”

  1. Quanta sensibilidade e visão. É necessário que vozes, como a tua, se levantem para mudar o que está aí. Admirável teu trabalho, Jaciana. Tua luta será recompensada...aliás, já deve ser. Um forte abraço.

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