PRA SER GRANDE

por Jaciana Melquiades
Foto: Jaciana Melquiades

       Um dia desses disse ao meu filho que ele não se deitasse no chão, pois já estava com pijama, pronto pra dormir. Ele, criança de 3 anos, deitou, rolou e veio correndo me abraçar. Eu fiz uma careta dizendo: "Mas você rolou no chão! Eu disse que ficaria todo sujo!". Ele ficou cabisbaixo. Foi contar ao pai com tristeza que eu disse que ele estava nojento. Não usei esse termo NOJENTO. Vasculhando a memória, já usei várias vezes associado a alguma comida que eu desgoste, ao lixo acumulado, mas nunca me referindo a uma pessoa, muito menos ao meu pequeno. Mas ele já viu meu semblante usando o termo... Provavelmente fiz a mesma careta e o termo nem precisou ser verbalizado para que fosse apreendido por um menino de 3 anos.
      Sempre penso muito no que ando fazendo enquanto mãe de um menino preto de 3 anos, no que digo a ele cotidianamente, nas palavras que uso. Uma vez disse: "Venha cortar essas unhas... Estão pretas, veja!". Meu coração gelou assim que proferi essas palavras: como vou construir a autoestima no meu menino usando o termo "preto" associado à sujeira? Cada sutileza, cada palavra mal dita deve ser pensada, refletida, elaborada e eliminada da fala.

Foto: Jaciana Melquiades
     Os lugares que ocupamos socialmente são reflexo do horizonte de expectativas que criamos. E não criamos sozinhos, sem exemplos, sem levar em consideração o que ouvimos ao longo de nossa formação enquanto sujeitos. Esses dias, por conta de trabalho, li um texto do Jailson de Souza, do Observatório de Favelas, sobre os encontros e distanciamentos entre a favela e outros espaços da cidade¹. Ao longo do texto, o questionamento que vai sendo deixado ao leitor é o de como seria possível ampliar os horizontes de expectativas dos jovens das periferias. Como seria possível construir, reformar, aumentar, elevar a autoestima dos jovens negros que acessam diariamente a fala racista e excludente mesmo através do não-dito?
      O racismo engessa, classifica e enquadra pessoas em lugares sociais específicos. E ele é também construção, uma ficção que mata um sem número de jovens negros diariamente. A história que nos contam desde o nosso primeiro contato com a escola é de derrotas e falências da população negra; Não tem glória nem luta nos livros de história que nos apresentam. Não tem beleza nem positividade nos termos racistas que usam para nos definir. Não tem passado nem unidade na trajetória da população negra que chega até nós, e mesmo nossos sobrenomes não são uma pista muito confiável para saber de onde viemos.

Foto: Jaciana Melquiades
      Não é raro nas escolas em que tenho a chance de trabalhar ter acesso à crianças, adolescentes, jovens adultos, todos da periferia, que tenham poucos ou nenhum sonho relacionado ao futuro profissional. Após uma atividade realizada recentemente pelo o Coletivo Meninas Black Power, me perguntei qual seria a razão de crianças de 10, 12 anos não conseguirem sonhar profissões mirabolantes, imaginar futuros grandiosos ou postos fabulescos (muito comum essa ação quando falamos de crianças!). A imaginação é pura potência, e andar na contramão é tentar ser força estimuladora de sonhos em crianças que vivem a realidade da violência banalizada (violência que nem sempre é explícita, berrada ou anunciada), da escola-depósito, da ofensa gratuita.
      Tenho aprendido muito com meu molequinho. A percepção dele do mundo tem me colocado diariamente em frente a um espelho que amplia minhas ações, minhas falas, minhas caretas. Ele repete o que eu sou e me deixa perplexa diante de minhas falhas. Chance diária pra repensar, me desculpar e me refazer.  

Jaciana Melquiades, mãe do Matias, é historiadora, educadora, empresária e integrante do Coletivo Meninas Black Power.

*SOUZA e SILVA, Jailson de e Barbosa, Jorge Luiz. Encontros e Rupturas entre as facelas e os outros territórios da cidade. In: Favela – alegria e dor na cidade. Rio de Janeiro: Editora SENAC/Rio, 2005

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