CARTA DE UMA UNIVERSITÁRIA PRETA

por Grupo de Trabalho Histórico-político
    O Coletivo Meninas Black Power está em muitos lugares, atuando ativamente e ocupando espaços que antes nos eram negados. Antes mesmo da existência do Coletivo, cada integrante já tinha sua caminhada de resistência. Hoje, juntas, conseguimos ver com mais clareza o quanto é pesada essa caminhada sozinha. Hoje nossas histórias individuais nos inspiram a ocupar cada vez mais escolas, a dizer para as crianças excluídas e afetadas diariamente pelo racismo que é por elas que promovemos cada uma de nossas ações. Aprendemos juntas que em grupo somos mais fortes, e sendo espelhos positivos, conseguimos mais gente para o time das que acreditam que só a Educação pode nos salvar da exclusão. A seguir vocês lerão o relato da Lais Reverte, integrante do MBP e conhecedora da batalha diária que é ser mulher, preta, em um universo excludente e racista que até hoje ocupamos à força.


"Olá, me chamo Lais Reverte e venho aqui hoje falar de dor, da minha dor. Tenho 20 anos e, como a maioria dos jovens da minha idade, quis caminhar pelos próprios pés e fazer meu caminho longe de casa. Prestei vestiba para uma Universidade no interior do meu Estado (Espírito Santo), sou fruto de cursinho sustentado pela comunidade (no caso, estudantes que se prontificaram para dar as aulas) e cotista racial, estudei meu Ensino Médio em escola pública federal e, por dificuldade financeira familiar, no meu último ano não pude cursar outro pré vestibular que não fosse o social. Na minha primeira tentativa de ingresso passei em primeiro lugar (provando sim que sou capaz de passar, com cotas ou não, mas fazendo questão de ocupar um lugar que é meu de direito nas Universidades Federais) e cá estou, cursando Geologia desde o mês de Abril. Moro sozinha, por opção, e tenho visto cada vez mais o quão difícil é, no ambiente acadêmico, se manter como se é. Quanto mais o tempo passa, mais eu entendo e vejo a dificuldade de ser uma mulher preta nesse mundo. Aqui me encontro, na Universidade, caloura, numa das (o que deveria ser) melhores fases da minha vida e enfrentando os mesmos problemas de sempre. Agora maiores. Não é NADA fácil ser a ultima opção. Ver todas suas amigas de cabelos longos e corpo esguio fazendo a festa, sendo "as escolhidas e desejadas", e você no canto, sendo "a amiga". Não pensem que é recalque, inveja, ou carência, mas uma realidade que me acompanha desde a infância. Não é nada fácil ser vista como "estilosa" por causa do meu cabelo, que não tem nada demais, apenas nasceu assim. Cada vez que vou para casa da família,sinto o carinho do "não ser diferente" do mundo, mas cada dia que passa fora de lá, menos me sinto incluída. Enquanto em casa vejo o amor de verdade, que vem da preocupação e do cuidado, longe eu vejo a vontade de se dar bem, o interesse. É "barra" me manter como sou fora da minha zona de conforto. Difícil entender que não é qualquer pessoa que aguenta a pressão de ter uma relação com uma mulher preta de verdade, sem nenhuma marca esbranquiçada na história (gracas a Deus, tenho MUITO orgulho do que construí até aqui). Triste procurar carinho onde não tem. Cada vez mais vejo que é necessário bater na tecla: NÓS POR NÓS. E quando não há nós? E quando se é "um"?"

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3 Responses to “CARTA DE UMA UNIVERSITÁRIA PRETA”

  1. Lais, vem cá, vamos ser amigas. Eu acompanho o blog a um tempão, e parei pra ler seu post porque me identifiquei muito. É estranhíssimo ser a única. É estranho o tal do estilo do meu cabelo que só é meu cabelo, é estranho as pessoas te estranhando e te convidando pras rodinhas como se você fosse uma cotista social, representando sua classe em todos os meios. As vezes só quero ser eu mesma, sem ter que ser sempre embaixadora da minha cor. Mas, daí sempre que isso me incomoda muito, eu tento me colocar. Tento relembrar a todos a injustiça visível que é somente eu ter o direito adquirido de estar ali. Tento mostrar o quão absurdo é ser a única negra, sempre a única. Sempre uma amostra social... E quanto os homens, difícil né? Uma vez um taxista me disse que ninguém se casava com mulheres como eu. Disse como um amigo... Sinto sempre que os caras querem me comer, me comer como se eu representasse muito sexo, como se eu fosse mais sexualizada que as outras. Sexo e a nega né, sempre, sempre. E isso me choca. E isso me faz ou fazia ficar na posição de amiga, a tal da amiga de lado, mas recentemente mudei de atitude e algo me ajudou. Os caras legais que eu conhecia não me passavam a impressão de ter interesse por mulheres negras, como a nossa sociedade é cheia de estereótipos, eu talvez tivesse até preconceito. Olhava pr'um cara legal e já achava que ele mantinha um padrão onde eu não me encaixaria, e nem tentava nada...Até que resolvi arriscar, e pensei...Se eu me acho incrível hoje em dia, porque ele não acharia? Comigo tá funcionando..

    Força. E você não tá só nessa, estamos juntas.

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  2. O preta sinto sua dor como se fosse a minha. sei o quanto é difícil ser vista como estilosa sendo que meu cabelo é do jeito que nasceu, sou universitária em uma faculdade elitizada em campinas aonde mesmo dentro das ciências humanas encontros olhares tortos, por eu estar ali me parece que estou incomodando alguém, mais quando se é um em determinados espaços,pense na quantidade tamanha de pessoas que vc esta representando e que temos que ocupar todos os espaços, pois nosso povo não é destinado a um limite que nos "destinaram "-estamos nesses espaços para saberem que existimos representado a cara do meu povo e lutando para que mais de nos estejam lá também, vc não é uma e sim varias de nós mulheres negras .se muitas de nós não quiserem ir para a universidade que seja por opção e não por quê não foram garantidas oportunidades de escolha

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    1. Obrigada o comentário e a força, Preta! Continuemos firmes na luta, Beijo, irmã!

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