DEIXA O MEU CABELO EM PAZ? NEGRITUDE, MASCULINIDADES E CABELOS CRESPOS - PARTE 2

Enrique La Salle
         Depois de um bom intervalo estou de volta. Vamos continuar nossa conversa sobre cabelos crespos a partir de uma perspectiva masculina. No primeiro post, que pode ser lido AQUI, vimos como há uma percepção generalizada e equivocada que o cabelo em geral, e crespo, em particular, é uma preocupação apenas feminina. Farei hoje uma imersão na temática dos cabelos crespos partindo dos anos 1940 e chegando aos 1990. O pano de fundo para a análise será a cultura popular afro-americana e sua influência no Brasil. 
       Entre os anos 1960 e 1970 o cabelo crespo dos negros foi elevado a símbolo de orgulho racial e resistência por afro-americanos num processo impulsionado por movimentos como o Black Power (Poder Negro) e o Black Panthers Party (Partido dos Panteras Negras). Entretanto, não foi um mudança fácil já que o afro naquele período era visto como um sinalizador de rebeldia e recusa de integração racial, algo à época valorizado e almejado pelas classes média e elites afro-americanas.
         A estética do alisamento ou relaxamento dos cabelos era um procedimento incorporado em boa parte dos negros da diáspora negra. A crítica cultural bell hooks possui um texto muito bonito e interessante descrevendo o papel social do alisamento entre as mulheres negras estadunidenses (leia AQUI). No que diz respeito ao gênero masculino, nunca li nada parecido.  Sim, nós homens alisávamos e ainda alisamos o cabelo apesar desse look estar um pouco ultrapassado nos dias de hoje.
       Dias atrás folheava um catálogo de uma exposição com fotografias da vida do músico de jazz Miles Davis e lá estava ele nos idos dos anos 1940 e 1950 com o cabelo alisado. Malcolm X, em sua época de atividades ilícitas, também alisou. Essa passagem é satirizada pelo cineasta Spike Lee em seu filme sobre a vida do líder negro. X, que naquele período ainda atendida pelo codinome “Red”, está no meio de uma alisamento quando percebe que a água do apartamento havia acabado. Procurando por um lugar para enxaguar o cabelo antes que o produto queimasse seu couro cabeludo, ele enfia a cabeça na privada, único lugar com a água disponível. Nesse mesmo instante a polícia invade o apartamento para prendê-lo.
        Mesmo com as demonstrações de orgulho dos anos 1960 alisar o cabelo não deixou de ser uma prática estranha a homens e mulheres negras nas décadas seguintes. Alguns artistas de renome nunca deixaram de fazê-lo. Um exemplo é o Padrinho do Soul, James Brown. Nos anos 1980, porém, os topetes esticados deixaram de ser tao atraentes e foram substituídos por uma espécie de relaxamento que deixava o cabelo mais leve, encaracolado e com volume. Um visual similar ao cantor Lionel Ritchie no vídeo da canção All Night Long de 1983.
        Um filme que imortalizou uma sátira a esse tipo de cabelo foi Coming to America (Um Príncipe em Nova York), de 1988. O elenco contava com Eddie  Murphy, no papel principal,  Arsenio Hall, Samuel L. Jackson, Cuba Gooding Jr. e Enriq La Salle (foto de abertura do post). Esse último interpretava o papel de Darryl Jenks, namorado de Lisa McDowell (Shari Headley) e filho de um empresário que produz um creme umidificador, o Soul Glo (imagem abaixo). O cabelo de La Salle e o umidificador são alvos de constantes piadas durante todo o filme (assista um trecho divertido AQUI). Esse estilo de cabelo permaneceria até o início dos anos 1990 como um look bastante aprazível para nós homens negros. Basta dar uma olhada para os cantores de soul e  R&B desse período ou lembrar do visual de Ice Cube no clássico Boyz N The Hood, dirigido por John Singleton em 1991 (veja o trailer do filme AQUI).

Comercial Soul Glo
         No Brasil, a história não foi muito diferente. Diga-se pelos inúmeros produtos disponíveis no mercado desde a década de 60 como Henê Marú, Alisabel, Nivea e o amaldiçoado Jennifer Black, que teve seu momento de glória no início dos anos 1990.  A propósito, o JB foi responsável nessa época por deixar meus cabelos e os de vários patrícios secos, quebradiços, sem vida e vermelhos sem contar a possibilidade de surgimento de feridas em decorrência de queimaduras causadas pelo produto. Mas a década de 90 não foi apenas de desgraça para nossos cabelos.
          Em 1990, a gravadora Zimbabwe  lançou o álbum Holocausto Urbano do grupo de rap paulistano Racionais MC’s. Para além do conteúdo político das letras dos raps de Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay, que versavam sobre violência policial, racismo e outras mazelas sociais, chamava atenção a estética dos rapazes. Na foto de capa do LP todos tinham os cabelos raspados e se vestiam de preto. Os MC’s dos Racionais seguiam uma tendência que já havia se popularizado entre alguns artistas de rap e atletas afro-americanos daquele período, principalmente jogadores de basquete como Charles Barkley, Magic Johnson e Michael Jordan. Mas o uso de cabelos raspados ainda era tabu e algo estigmatizado no Brasil uma vez que ele estava associado à instituições de internamento penal e/ou psiquiátrico.
        A popularidade dos cabelos negros naturais e sem alisamento entre jovens nos Estados Unidos estava associado a ascensão de grupos de rap mais afrocêntricos como A Tribe Called Quest, Jungle Brothers, X Clan, Arrested Development e outros que se vinculavam ao nacionalismo negro como Public Enemy. Os penteados variavam entre as versões negras do flat top, as falhas e entradas feitas com navalha, desenhos e inscrições de nomes e letras no cabelo também produzidos com navalha além dos ainda bastante estigmatizados dreadlocks.

Flat top no rapper Big Daddy Kane (sentado)
         No Brasil, porém, o que mais se popularizou nos anos 1990 foi o cabelo raspado. Algum tempo depois as tranças e os dreadlocks foram incoporados no estilo de jovens mais ousados. A expansão do cabelo raspado por aqui foi tamanha que ele passou a ser apreciado por sambistas, jogadores de futebol e outras personalidades negras masculinas que de forma alguma questionavam o status quo como os MC’s dos Racionais. Defendo o argumento que a popularização e aceitação do cabelo raspado entre esse grupo se dava também por “resolver” o “problema” do cabelo crespo para o grupo masculino.
          Ou seja, diferente da aceitação e exibição do cabelo crespo vistas no flat top e, posteriormente, nos dreadlocks e tranças variadas, raspar o cabelo significava retirar a carapinha da visão pública, domá-la através da sua eliminação periódica. E mesmo os argumentos em favor do cabelo raspado que se baseavam em noções de higiene e praticidade alocavam simbolicamente o cabelo crespo no grupo dos cabelos “sujos” ou “problema”. Nesse sentido, raspar a carapinha significava se render a um certo higienismo simbólico que apagava as marcas de inferioridade e estigma trazidas pelo cabelo crespo, algo que já discutimos no primeiro post. Lembrem-se de nossos queridos patrícios famosos Vin Diesel e Ronaldo Fenômeno novamente.
        Prometi ser sucinto, mas não consegui.  Se você agüentou ler o texto até aqui, fico agradecido. Comentários são bem-vindos. Em nosso terceiro e último post da série veremos a situação atual dos cabelos crespos entre nós homens. Haverá uma surpresa também. Até lá! Muita Paz, Muito Amor!

PS: visitem meu blog, o NewYorKibe, clicando AQUI, e curtam a página do mesmo no Facebook AQUI.

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7 Responses to “DEIXA O MEU CABELO EM PAZ? NEGRITUDE, MASCULINIDADES E CABELOS CRESPOS - PARTE 2”

  1. gosto muito....estou aprendendo portugues...sou dos estados unidos e gosto de leer coisas assim...muito obrigado

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  2. Post rico em informações, ficarei aguardando o próximo parabéns

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  3. Li o artigo pq estou buscando argumentações que sustentem minha intenção de manter o cabelo grande. Sou negro e estou cansado de ter sempre q cortar o cabelo bem curto, a impressão q tenho é q meu cabelo precisa ser mantido sob controle, mas pq? quem disse q preciso "esconder" meu cabelo? meu cabelo não é um incômodo. pq tenho q cortar ou alisar os cabelos se quiser mantê-los grande? valeu, parabéns e obrigado pelos esclarecimentos.

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  4. Sim, eu já raspei meu cabelo duas vezes... é algo triste, foi um pedido de basta, a primeira foi pela dificuldade de cuidar dos cachos, pois antes de aprender que não precisava molhar-los todo dia, acordava as 4 da manhã para dar tempo de secarem naturalmente, fiz isso durante 4 meses, a outra foi para remover a quimica, e enfim, aceitar como são, eu, até meus 16 anos, nunca soube que meu cabelo era cacheado! Nem minha mãe, nem ninguém, pois meu cabelo era liso até os 12, e depois que começou a ficar volumoso, fazia quimica mensalmente! Quando resolvi assumir-los, enfrentei muitos comentarios como: " Vocês fez permanente?"" seu cabelo fica melhor liso! " , " O que aconteceeeu? " , e etc etc, mas hoje em dia, agora que me aceito e apresento confiança POR SER QUEM SOU no olhar, é apenas elogios e perguntas sobre como eu cuido, e até faem habitos que odeio, como pedir para tocar haaha, tocar em cachos é sentença de morte!

    Apartir de hoje serei leitor fiel do blog!

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