CRESPAS SEM CONDICIONAR DOR


     Ontem assisti o Programa Encontro com Fátima Bernardes, porque o Coletivo do qual tenho a honra de fazer  parte estaria dando uma pinta*. Aliás, elas não deram pinta, elas "deram um pintão". Que maravilha! Quando vi os carões** lindos na tela, fiquei tão emocionada... É tão bom ver o povo preto na tela. Fiquei pensando: "Gente, meu povo é lindo! Elas são diferentes de todo o padrão de beleza que a televisão adora impor... São mais bonitas. Desculpa aí." [risos]
     Nos assuntos, o tempo todo era latente o separatismo, a falta de tato que as pessoas têm de não sabem lidar com a questão do ser humano que é diferente, desde o menino Lucas (e eu que já passei por situação parecida coma dele) até a forma como elas colocavam a ideia na conversa. Me senti contemplada com a fala da Jaci Melquíades, coordenadora da Comissão de Editais, que disse: "Só vou cortar o cabelo de meu filho o dia em que também cortarem  cabelo todas as crianças". Nesse momento a Fátima Bernardes estava com uma cara triste, bochecha tremendo (acho que ela imaginou o cabelo dos filhos dela raspado). Mas algumas pessoas precisam saber, ou não fechar os olhos, que isso é uma violência, que não podemos banalizar. Observei o Matias Melquiades, que com toda a pureza de uma criança respondeu com um "sim" convicto e olhar radiante quando ela pergunta se ele gosta do cabelo da mãe... Foi lindo! Emocionante! (Por outro lado, com uma criança branca não teria essa pergunta feita, não é mesmo? Cof, cof. Seguimos.) Matias Melquiades representou todas as nossas crianças negras e inclusive as que estão dentro de nós. Obrigada, Matias!
      Gostei da fala de todas do Coletivo. Por minha experiência na área, já sabia da pressão em que elas estavam naquele momento, principalmente, sendo ao vivo. Sabia o quanto era desafiador. Sou muito fã de todas, principalmente da Élida Aquino, coordenadora geral, que com toda a sua generosidade criou a possibilidade de nos (re)encontrarmos, de conhecer um pouco mais de cada uma de nós. Tainá Almeida, coordenadora regional, que sempre coerente em suas palavras, se fez presente. Um dia serei igualzinha a ela. Começando pela sua coluna ereta, tipo bailarina [risos].
      Várias coisas me encucaram*** no programa, mas fiquei preocupada com a fala das outras participantes (sim, por que nesse momento, não deram a fala para o Coletivo Meninas Black Power), quando reclamavam do trabalho de escola para casa. Será que elas não conseguem perceber que a educação dos filhos(as) é responsabilidade, principalmente,  da família e depois da escola e comunidade? Elas transferindo a responsabilidade somente para a escola. A falta de sensibilidade em perceber que de repente esse é o momento em que a crianças e adolescentes podem ter o contato com eles (inclusive nós pais aprendemos  muito com eles!).  Quando chego cansada do trabalho e vejo que meu filho tem os trabalhinhos dele, pergunto: “Filho, o que você fez na escola?”  Ele todo feliz, me mostra todos os trabalhos e eu, por algum momento, esqueço de todas as dores do dia-a-dia, e embarco no universo dele, que é sempre maravilhoso. Aprendo a conhecer ainda mais meu filho. Achei lastimável ver que elas, formadoras de opinião, deram esse tipo de depoimento em rede aberta. Para quê? Para colocar a carga da educação dos(as) filhos(as) delas na escola? Lamento. Muitas de nossas mães não podem dar essa atenção para nossas crianças por conta do trabalho com carga horária pesada, das horas e horas em transporte públicos lotados, e elas dão essa declaração? Fiquei pensando se elas fazem isso com os seus filhos. Vocês acham que teriam a sensibilidade de entender nossos filhos? Acho improvável! Sem contar que há a grande possibilidade de que suas empregadas, que estão prestando o serviço, educarem os filhos(as) delas.
      Mas, em cima de uma das falas da Fabíola Oliveira, coordenadora do Grupo de Trabalho Histórico Político, afirmou com poder que não estamos mais no campo da vitimização, inclusive ressaltou o que sempre achei, na verdade. Há um monte de problemas que não são nossos, que eles que arrumam pra nós. É por isso que seguimos educando nossas crianças, incentivamos a lei 10.639/03 que inclui a cultura afro-brasileira nas escolas, com a certeza de construirmos um mundo melhor. Isso depende, prioritariamente, de nós. Parabéns, Coletivo Meninas Black Power! Orgulho de ser!  Presente!


Dicionário informal:
Dando pinta – Aparecendo, faz acontecer.
Carões – Rosto típico de divas.
Encucada – Com um monte de dúvidas.


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10 Responses to “CRESPAS SEM CONDICIONAR DOR”

  1. Obrigada por essa postagem, flor! Eu também não engoli totalmente a entrevista - exceto a fala das meninas que muito me representam - mas a Fátima enojando e tentando levar a conversa por um lado discriminatório com o nosso movimento? AFF! Responderam muito bem e sem o mínimo de radicalismo! Não é opção nossa ser discriminado desde a infância! Assim como não é por esses que podem comprar a imagem que querem com seu dinheiro que lutamos. Muito bonito o trabalho de vocês nas escolas! E assim vamos seguindo nesse trabalho de formiguinha que já está falando aos poucos em alto e bom som pra essa mídia devastadora.

    http://cabeleiracrespa.blogspot.com.br/

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    1. Obrigada, Tamires!
      Esperamos sempre estar a altura de representar pessoas como você!
      Beijos crespos!

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  2. Parabéns para todas, realmente foram momentos que nos vimos na televisão e de forma tão altiva, que é o mais importante, axé rainhas!!

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  3. Olá meninas!
    Fiquei muito feliz por conhece-las;. Já tem uns cinco anos que decidi não usar mais quimicas nos meus cabelos, e descobri o quanto eles são macios. Agora estão bem curtos, mas vou deixar crescer e não quero pintar, estão ficando brancos. meu produto principal é a babosa, que o deixa brilhando e sedosos. Mas ainda me sentia um tanto constrangido pelas imposições sociais, e justamente quando a maioria das negras finalmente encontraram métodos e técnicas de alisamentos modernos, deixando todas com os cabelos lisos. mesmo gostando do resultado dos meus, me sentia meio fora do contexto. Porém, encontrar voces foi um marco importante que me deu confiança. Obrigada a todas. Amei ve-las na tv, e o garotinho me encantou. Parabéns !

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    1. Muito obrigada pelo carinho, Eunice! Parabéns pela iniciativa. Conte com nosso apoio sempre. Beijos crespos.

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  4. Feliz Natal meninas, ano que vem estaremos juntas. Que mais mulheres se reconheçam lindas com tudo que tem de beleza natural. Assumam sua identidade e parem de viver à sombra dos padrões de beleza que a mídia impõem.
    .

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    1. Sim! Vamos continuar juntas, flor. Beijos crespos.

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  5. Nao vi neste dia, mas vou procurar o video para assistir

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    1. Que legal! Veja e conte o que achou. Beijos e obrigada pelo carinho.

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