É A MINHA CARA - JUN ALCANTARA


   Um máximo "olá" para todos os crespos e crespas do Brasil e do mundo. É com muito gosto que eu trago a vocês uma pequena ideia que troquei com o Jun Alcantara, autor do blog Ubora, alguém com quem aprendo muito acompanhando o trabalho, e aprendi muito mais durante esse tempo da conversa. "Ubora" é um blog/fanpage que tem se destacado por sua simplicidade e sofisticação, simultaneamente. Ele é dirigido por Jun Alcantara, 24 anos, no ar há 3 anos. Com estilo "retrô" e "contemporâneo" traz uma vasta inspiração a nós crespos, com muito orgulho, e experiências que poderão mudar conceitos em nossas vidas. Vejam como foi nossa conversa: 

Christyan Dhort: Salve, mano! Em primeiro lugar eu quero agradecer a atenção e dizer que sou um grande apreciador de seu trabalho. Acompanho fielmente a página e o blog.
Jun Alcantara: Obrigado. E sou eu que agradeço o convite e suas visitas.

C: Bem, ao estudar um pouco do seu trabalho, eu percebi que você tem um conceito de moda muito forte, quando começou seu interesse pela mesma?
J: Quando estava no meio da minha adolescência, o lance de querer ser diferente e ao mesmo tempo buscar o pertencimento a um grupo. Lá pelos 12 anos, curtia muitas bandas de rock e comecei a usar tênis all-star, pulseiras, bandanas. Mas passei a me interessar de verdade por roupas no final dos 17 anos. Foi quando comecei selecionar roupas com um caimento melhor, a escolher camisetas com temas que eu gostava e mandar calças para a costureira.

C: Você concordaria se eu afirmasse que o rock influenciou na sua forma de vestir, ou suas roupas são independentes de um estilo típico de "tribo"?
J: Influenciou no início. Era a forma como eu queria ser na adolescência. Meu ídolo era o Slash, guitarrista do Guns n’Roses. Hoje talvez influencie, mas de forma indireta. Não é onde busco minhas referências e nem o contexto que estou hoje. Além do quê, hoje em dia não ouço muito rock.

C:  Então, o que te influência hoje?
J: Como eu sempre falo: as roupas são só parte de um monte de coisas que fazem parte da minha personalidade. Tudo gira da mesma forma e ao mesmo tempo. É o que eu ouço, o que eu como, o que converso, aonde vou, o que visto. Eu gosto de coisas antigas... Estética antiga, música antiga, filmes antigos. Mas falando de forma mais objetiva, na questão do estilo mesmo, a forma como os músicos de Reggae das décadas de 1970 e 1980 se vestiam me inspira demais. Também gosto muito da forma com os skinheads originais, da década de 1960, se vestiam. Hoje, com os blogs e o Tumblr, as referências ficam um pouco mais "espalhadas". Me inspiro bastante nas fotos que aparecem por lá, de homens bem-vestidos em várias décadas.

C: Nós sabemos que ser "bem vestido", não está atrelado ao estilo. Como você definiria estilo?
J: É um modo particular de se vestir. Mesmo que um sujeito estiloso esteja ligado a um grupo de pessoas que se veste de forma parecida, esse é um modo particular de expressar o seu modo de vida. Ter estilo é ter uma estética interessante e saber ser seletivo. É escolher uma calça pelo corte, pelo tecido, pela forma como ela cai no corpo, pelo modo como ela vai "interagir" com o resto das suas roupas. Saber escolher um xadrez interessante, saber escolher acessórios interessantes. Não se guiar pelas tendências, escolher por escolher ou consumir por consumir. É selecionar e combinar elementos que tenham a ver com sua forma física e a forma como você leva sua vida, os lugares que frequenta, a música que ouve, o que você lê.

C:  O Ubora tem um toque simples e sofisticado. O que inspirou e como inspirou você a criar?
J: Antes, em 2009, eu tinha um blog chamado Vidudu, fruto de uma parceria entre eu e uma amiga. Mas como só eu postava, terminei o blog. Pouquíssimo tempo depois, resolvi fazer um blog só meu, onde eu postaria só o que me interessa e inspira. Minhas grandes inspirações são negras - acho importante que as inspirações visuais sejam majoritariamente compostas por pessoas parecidas com você - e resolvi juntar isso ao fato de existirem poucos lugares onde jovens negros pudessem buscar inspiração, sair do clichê imposto aos que buscam uma identidade visual ligada à negritude. Foi dessa ideia que saiu a primeira descrição do blog: "Somos mais do que calça larga e cabelo black power". Apesar de eu não mais usar essa descrição oficialmente, ela ainda tem tudo a ver com o espírito do Ubora, mesmo com as transformações que ele sofreu ao longo destes 3 anos.

C: Um fato curioso é que você afirma que não é muito ligado à tecnologia, então o que impulsionou você a criar o blog e a página no Facebook?
J: Eu gosto bastante de internet. Gosto da facilidade na comunicação, das músicas que encontro, das coisas que leio. O Ubora é exatamente sobre isso: informação. Criei a página com o intuito de facilitar o acesso dos visitantes às atualizações, para que pudessem interagir entre si e para que eu pudesse passar informações que, apesar de interessantes, eu não publicaria no blog.
Não sou chegado em iPads, aparelhos supermodernos, celulares com milhares de funções, esse tipo de tecnologia. Não gosto da ideia de acessar facebook/twitter e outras redes sociais na rua, por exemplo. Quando eu estou na rua, prefiro realmente estar na rua. Hoje, muitas pessoas vão a shows e, ao invés de se emocionar e dançar, ficam filmando pelo celular. Estão preocupados em filmar, somente. Vão a eventos legais e ficam mandando tweets sobre o que está acontecendo, ao invés de apreciarem o que está acontecendo. Não suporto gente que fica mexendo no celular enquanto conversa comigo.

C: O "movimento crespo" está em ascensão, está passando por uma grande revolução. Tem alguma opinião sobre isso?
J: Sim. Sou fruto disso, também. Quando mais novo, tinha vergonha do meu cabelo. Nunca tive vergonha de ser negro, mas o cabelo no contexto da negritude sempre foi algo problemático. Aos 13 anos, alisei o cabelo pra usar arrepiado, que era o tipo da moda. Usei por um mês, até cortar. Me senti muito mal. Continuava não gostando do meu cabelo, mas sabia que o que eu estava fazendo não era certo. Passei a maior parte da vida com cabelos naturais no tamanho médio, mas passava gel ou creme para "consertar". Depois, passei a rapar, por pura questão de estilo. Nessa época - aos 19, 20 - eu já estava muito ligado às questões da negritude, política e estética. Quando cansei de rapar, comecei a deixar o cabelo crescer e as pessoas me perguntavam o tempo todo se eu estava querendo fazer tranças. Eu não podia, simplesmente, deixar o meu cabelo crescer? Então, comecei a compreender ainda melhor a questão do cabelo negro. O racismo leva as pessoas a separarem o cabelo do resto do corpo. O cabelo crespo é uma característica tão minha quanto o meu nariz, a cor da minha pele ou meu sorriso. O cabelo não é um acessório. Apesar de não ser uma mudança irreversível e drástica como uma cirurgia plástica, por exemplo, ainda sim a mudança química da textura do cabelo tem como significado o disfarce de uma característica sua, algo que você quer esconder. Me perguntam se meus dreadlocks são uma questão de estilo, se uso para ser diferente. Não é questão de estilo e nem de ser diferente. Não é militância, apesar de eu compreender e gostar do fato deles representarem um símbolo de orgulho e resistência. É, simplesmente, meu cabelo. É como meu cabelo fica quando eu enrolo e não penteio. É a forma que gosto que ele fique.

C: E sua opinião sobre as meninas que já são adeptas do cabelo crespo natural e as que estão em transição?
J: Acho lindas. Com cabelos naturais ficam mais bonitas e mais seguras. O nosso cabelo natural é o que mais combina com a gente, sempre. As que estão em fase de transição devem se manter firmes na ideia. E acho que rapar é uma boa, porque mulheres carecas são um charme.

C: Fale algumas palavras para os crespos, que são adeptos e os que estão se descobrindo agora.
J: Temos que buscar o aperfeiçoamento físico e intelectual. Melhorar sem fugir do que somos naturalmente. Ame a sua cultura, sua família e as pessoas boas. Viver de verdade é viver para os outros.

C: Obrigado pelas palavras e pelo tempo, a Equipe MBP se sente honrada.
J: Eu agradeço! Foi o maior prazer!

Ubora e Jun na mídia: 
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4 Responses to “É A MINHA CARA - JUN ALCANTARA ”

  1. Ubora é muito bacana. Legal saber mais sobre o autor. Bacana, Chris!

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  2. Obrigado nega, sua opinião é mega importante !:)

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  3. Sempre bom ver gente inteligente por aí. Ver que tem gente saindo do óbvio me alegra!!!!!!

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